Se a Copa do Mundo terminasse neste momento para Nico Schlotterbeck, a história registraria um zagueiro que chegou ao seu primeiro Mundial como titular absoluto e saiu de maca no segundo jogo. A confirmação da lesão ligamentar no tornozelo esquerdo, sofrida durante a vitória por 2 a 1 sobre a Costa do Marfim, transforma o que parecia um susto em uma crise real de elenco para Julian Nagelsmann. Exames realizados após o jogo confirmaram o comprometimento do ligamento colateral, e o Borussia Dortmund já comunicou que o jogador ficará afastado por vários meses.

A Alemanha, porém, não é novata em administrar crises defensivas em Copas do Mundo. Quem acompanhou a campanha alemã de 2002, no Japão e na Coreia, lembra que Rudi Völler chegou à final com uma zaga remendada por lesões e suspensões — e só perdeu para o Brasil de Ronaldo porque o goleiro Oliver Kahn, até então invicto, cometeu o erro mais famoso de sua carreira. Em 2014, a conquista em Belo Horizonte foi construída sobre uma defesa coletiva, não sobre individualidades. A diferença agora é que Schlotterbeck não era apenas um zagueiro: era o principal saidor de bola da equipe, o jogador com mais passes progressivos por 90 minutos na fase de grupos da Mannschaft.

O que Nagelsmann perde com a saída de Schlotterbeck

O técnico alemão foi direto ao falar sobre o desfalque.

"Sentiremos muita falta do Schlotti em campo como um zagueiro excepcional, especialmente por sua excelente capacidade de armação. Esta poderia ter sido a Copa do Mundo dele. Todos nós tentamos animá-lo ontem. Felizmente, ele é um cara muito positivo que já está pensando no futuro. É um bom sinal que ele continue com a equipe por enquanto, porque ele também tem influência fora de campo", declarou Nagelsmann.
A frase sobre "capacidade de armação" não é retórica: o modelo de jogo alemão nesta Copa é construído com saída de bola pelos zagueiros, não apenas pelos volantes. Schlotterbeck, com seus 1,92m e pé esquerdo refinado, era o elo entre a defesa e a construção. Substituir isso não é apenas trocar um zagueiro por outro.

O sistema de Nagelsmann opera com três zagueiros em algumas fases da partida — os laterais sobem e os dois zagueiros centrais ficam com um pivô defensivo na cobertura. Schlotterbeck dominava essa postura com naturalidade. Sua ausência obriga a uma escolha entre dois perfis completamente distintos: Antonio Rüdiger, o guerreiro do Real Madrid, e Niklas Süle, o gigante que nunca conseguiu se firmar definitivamente como titular da seleção.

Rüdiger já foi a resposta antes — e pode ser de novo

Antonio Rüdiger tem 31 anos e uma trajetória que, por si só, já respondeu perguntas difíceis. No Chelsea da temporada 2021/2022, Thomas Tuchel o transformou de jogador descartado pelo técnico anterior em peça central de uma das defesas mais sólidas da Europa — o clube londrino concedeu apenas 24 gols em 38 rodadas da Premier League naquele ano, o terceiro melhor saldo defensivo da liga. No Real Madrid, Rüdiger acumulou dois títulos da Champions League e se tornou o zagueiro mais agressivo do elenco de Ancelotti. Ele já entrou durante o jogo contra a Costa do Marfim para cobrir a saída de Schlotterbeck, o que significa que Nagelsmann já tem uma imagem clara de como o time funciona com essa mudança.

O ponto fraco de Rüdiger é exatamente o que Schlotterbeck tinha de forte: o passe longo progressivo. O zagueiro do Real Madrid é um defensor de instinto, marcador por excelência, mas não é um construtor de jogadas. Isso significa que a Alemanha, com Rüdiger no lugar de Schlotterbeck, provavelmente vai recuar um passo na saída de bola e compensar com mais presença de Joshua Kimmich na construção. É um ajuste viável, mas exige que Kimmich assuma ainda mais responsabilidade — algo que, ao longo de sua carreira no Bayern de Munique, ele demonstrou ser capaz de fazer.

O precedente de 2006 e a lição que Klinsmann deixou

Há um paralelo histórico que vale trazer à tona: a Copa de 2006, disputada na própria Alemanha. Jürgen Klinsmann tinha uma defesa cheia de questões antes do torneio e apostou em um bloco coeso em vez de individualidades. A equipe chegou ao terceiro lugar com uma linha defensiva que nenhum especialista considerava favorita — concedeu apenas 6 gols em 7 jogos, um número que seria o melhor saldo defensivo de qualquer Copa disputada em casa desde a Itália de 1934. O segredo era simples: os laterais Lahm e Odonkor (depois Borowski) mantinham a largura, os zagueiros Mertesacker e Metzelder cobriam o espaço central, e a equipe jogava com pressão alta para não deixar o adversário chegar ao setor defensivo com organização. Nagelsmann, que cresceu assistindo a essa Copa, sabe que a resposta para a crise pode estar no coletivo, não na reposição individual.

Niklas Süle é a terceira opção, e sua situação ilustra bem o dilema. O zagueiro de 28 anos — ex-Bayern, hoje no Borussia Dortmund, clube de onde Schlotterbeck também vem — tem físico avassalador: 1,95m e uma cobertura de área impressionante. Mas sua Copa de 2022 no Qatar foi discreta, e ele nunca conseguiu se firmar como titular incontestável da seleção. Süle teria mais de 60 convocações pela Alemanha ao longo da carreira e ainda assim permanece na sombra de Rüdiger. Se Nagelsmann precisar de um substituto para jogos de maior desgaste físico, Süle é a opção natural. Para o mata-mata, Rüdiger parece ser a escolha inevitável.

Portugal e Inglaterra seguem em campo enquanto a Alemanha se reorganiza

Enquanto a Mannschaft digere o golpe, outros grupos da Copa seguem em ebulição. Portugal enfrenta o Uzbequistão nesta terça-feira, 23 de junho, em Houston, às 14h (horário de Brasília), pressionado após empatar por 1 a 1 com a República Democrática do Congo na estreia — um resultado que deixou Roberto Martínez com apenas um ponto e a obrigação de vencer. A escalação prevista traz Cristiano Ronaldo como referência de ataque, com Bruno Fernandes e Bernardo Silva na armação, e Rúben Dias como âncora defensiva — exatamente o tipo de zagueiro construtor que a Alemanha está perdendo com Schlotterbeck. No mesmo dia, às 17h, a Inglaterra de Harry Kane — que marcou duas vezes contra a Croácia e igualou os dez gols históricos de Gary Lineker como maior artilheiro inglês em Mundiais — enfrenta Gana no Gillette Stadium, em Foxborough, com a vantagem de já ter três pontos e a dúvida sobre Bukayo Saka, poupado por dores no tendão de Aquiles.

A Alemanha ainda não tem data confirmada para seu próximo jogo na fase de grupos, mas a reorganização defensiva de Nagelsmann já está em curso. Rüdiger entrou, funcionou o suficiente para não comprometer o resultado contra a Costa do Marfim, e agora tem a chance de mostrar que, aos 31 anos, ainda é o defensor mais completo da seleção. Quem quiser entender como Nagelsmann vai montar a linha defensiva alemã nos próximos jogos, vale acompanhar de perto o treino desta semana — é lá que a resposta vai aparecer antes de qualquer coletiva.