A última vez que uma seleção alemã perdeu um zagueiro titular na fase de grupos de uma Copa e precisou reorganizar a defesa às pressas foi em 2002, quando Christoph Metzelder assumiu o posto de Nowotny e a Mannschaft chegou à final em Yokohama. Vinte e quatro anos depois, em Toronto, a história pode estar prestes a se repetir — desta vez com Nico Schlotterbeck como o nome que preocupa o vestiário alemão.
Schlotterbeck sentiu o ligamento colateral medial do joelho direito aos nove minutos do primeiro tempo, após uma dividida com Amad Diallo, atacante da Costa do Marfim. O zagueiro do Borussia Dortmund ficou caído no gramado, recebeu atendimento médico e um comprimido da equipe, voltou a jogar por mais alguns minutos, mas não retornou para o segundo tempo. Ao fim do jogo — uma virada por 2 a 1 com dois gols de Deniz Undav —, Julian Nagelsmann foi direto ao ponto na saída de campo.
"Ele sentiu alguma coisa no ligamento colateral medial do joelho e fará uma ressonância magnética amanhã. Infelizmente, não parece nada muito bom", disse Nagelsmann, antes de acrescentar: "No fim das contas, depende muito do jogo se ele ainda consegue jogar. E ele jogou muito bem até o intervalo."
A Alemanha chegou a seis pontos e está classificada para o mata-mata da Copa do Mundo com uma rodada de antecedência — encerrando um jejum de dois torneios seguidos eliminada na fase de grupos, em 2018 e 2022. O alívio, porém, veio acompanhado de uma sombra considerável sobre o setor defensivo.
O que a lesão de Schlotterbeck representa para a estrutura defensiva alemã
Schlotterbeck foi titular nas duas primeiras partidas da Alemanha na Copa: na goleada de 7 a 1 sobre Curaçao e agora contra a Costa do Marfim. Aos 25 anos, o zagueiro canhoto vinha sendo peça central no esquema de Nagelsmann, que prefere zagueiros com saída de bola e capacidade de pressionar alto. A lesão no ligamento colateral medial pode variar de uma entorse leve — com retorno em dias — até uma ruptura parcial que tiraria qualquer atleta por semanas. O exame de ressonância, previsto para este domingo, vai determinar o prazo real.
O precedente histórico ajuda a calibrar a preocupação. Em lesões semelhantes sofridas durante torneios, o tempo médio de afastamento fica entre dez e vinte e um dias quando não há ruptura completa. A Alemanha disputa sua última partida da fase de grupos na quinta-feira, dia 25, contra o Equador no MetLife Stadium. Se o mata-mata começar por volta de 28 de junho, Schlotterbeck teria uma janela curtíssima de recuperação — e nenhuma margem para risco em uma Copa do Mundo.
O substituto imediato já estava em campo: Antonio Rüdiger entrou na segunda etapa e foi quem cobriu a posição. O defensor do Real Madrid tem 31 anos e Copa do Mundo na bagagem — foi titular em 2022 no Qatar. Há ainda Jonathan Tah, do Bayer Leverkusen, como terceira opção na lista de Nagelsmann. Mas a diferença entre Schlotterbeck e os dois é o perfil: o zagueiro do Dortmund joga mais alto na linha, é mais agressivo no um contra um e tem melhor leitura de jogo em sistemas que exigem compressão de espaço — exatamente o que a Alemanha precisará no mata-mata contra seleções de transição rápida.
O primeiro tempo contra a Costa do Marfim expôs fragilidades que o mata-mata vai amplificar
Antes mesmo de Schlotterbeck sair machucado, o jogo deste sábado já tinha mostrado fissuras na organização defensiva alemã. A Costa do Marfim encontrou no lado esquerdo, com Yan Diomandé, um corredor fértil. O jovem atacante marfinense passou repetidamente por Kimmich — que atua como lateral-direito, mas é, há muitos anos, um meio-campista de referência no Bayern de Munique — e foi exatamente por ali que saiu o gol de Franck Kessié, aos 29 minutos, após cruzamento rasteiro e rebote na pequena área.
A Alemanha dominou a posse, chegou a ter um gol anulado por falta de Pavlovic no goleiro Fofana, e viu Musiala e Nmecha desperdiçarem chances razoáveis. Só no segundo tempo, com Undav saindo do banco aos 15 minutos da etapa final, o time encontrou o caminho. O atacante do Stuttgart empatou aos 26 e marcou o gol da virada nos acréscimos, aos 49 minutos, após passe de Nmecha. Uma vitória construída apesar das dificuldades, não por causa das virtudes defensivas.
O padrão lembra o que a Alemanha de 2006 enfrentava antes do mata-mata: um time com ataque funcionando acima da média e uma defesa que dependia de individualidades para não rachar. Naquele ano, Lehmann foi o diferencial nas oitavas e quartas. Agora, com Neuer aos 40 anos e Schlotterbeck na dúvida, a equipe de Nagelsmann precisará de mais do que um herói isolado.
Rüdiger como parede de ferro e o plano B de Nagelsmann para o mata-mata
Antonio Rüdiger é um zagueiro de perfil completamente diferente de Schlotterbeck. Onde o jovem do Dortmund prefere a antecipação e a construção pelo chão, o veterano do Real Madrid é essencialmente físico — imponente no duelo aéreo, agressivo na marcação individual e com liderança vocal reconhecida dentro do vestiário. Nagelsmann sabe disso, e é por isso que o elogio a Schlotterbeck na entrevista coletiva soou também como um aviso: o técnico sente a diferença entre os dois perfis.
Tah, por sua vez, seria uma opção mais parecida com Schlotterbeck em termos de posicionamento — o zagueiro do Bayer Leverkusen tem boa saída de bola e atua bem em linhas altas. Mas ele entrou nesta Copa como terceira opção, e assumir a titularidade em um mata-mata de Copa do Mundo exige um ajuste psicológico e tático que não se improvisa em três dias de treino.
Em matéria do SportNavo publicada anteriormente, a fragilidade da Alemanha em transições defensivas já havia sido apontada como o principal risco para o torneio. O jogo contra a Costa do Marfim confirmou o diagnóstico com uma lesão que transforma a hipótese em urgência real. Nagelsmann terá até quinta-feira para definir se arrisca Schlotterbeck na última rodada da fase de grupos ou preserva o jogador para o mata-mata — uma decisão que pode moldar o caminho alemão no torneio.

A última vez que uma seleção alemã perdeu um zagueiro titular na fase de grupos de uma Copa e precisou reorganizar a defesa às pressas foi em 2002 — e naquele ano a história acabou bem. Mas agora o que está em jogo não é apenas uma reorganização: é saber se Schlotterbeck sequer estará disponível para reescrever esse final.








