Se a convocação de Carlo Ancelotti fosse decidida apenas pelos números da temporada, Neymar apresentaria um dossiê razoável, mas não irrespondível: 15 partidas pelo Santos nos 30 jogos disputados pelo clube em 2026, com oito vitórias santistas em suas presenças contra apenas duas nos jogos sem ele. Quatro derrotas em 15 aparições. Retorno gradual após cirurgia no joelho esquerdo, com estreia tardia no Campeonato Paulista. O problema é que a Copa do Mundo nunca foi decidida apenas por planilhas — e a história da Seleção está cheia de casos em que a decisão correta e a decisão tomada foram coisas distintas.

O precedente de 1998 e o peso da última Copa

Há um paralelo histórico que poucos analistas citam neste debate. Em junho de 1998, Ronaldo chegou à Copa da França com a sombra de um problema físico que jamais foi completamente esclarecido — a convulsão na véspera da final contra a França, em 12 de julho, permanece um dos episódios mais nebulosos do futebol brasileiro. Mesmo assim, o centroavante havia marcado quatro gols no torneio antes da decisão. A diferença entre Ronaldo em 1998 e Neymar em 2026 é que o primeiro tinha 21 anos e um histórico de Copa ainda por construir; o segundo tem 34 anos, 77 gols pela Seleção em 128 jogos, e uma Copa do Mundo de 2022 interrompida por ruptura no tornozelo direito ainda na fase de grupos, contra a Sérvia, em 24 de novembro daquele ano.

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Neymar não veste a camisa canarinho há quase três anos. Nas convocações de Carlo Ancelotti — todas as cinco realizadas desde que o italiano assumiu o cargo — o atacante esteve ausente por uma única justificativa oficial: condição física abaixo de 100%. A pré-lista de 55 jogadores enviada à FIFA no dia 11 de maio mudou parcialmente esse quadro, sinalizando que a comissão técnica ao menos mantém a porta entreaberta.

O precedente de 1998 e o peso da última Copa Se Neymar fosse convocado agora, o
O precedente de 1998 e o peso da última Copa Se Neymar fosse convocado agora, o

O que Denílson viu que os números não mostram

O ex-meia Denílson, pentacampeão mundial em 2002, colocou o argumento de forma direta durante coletiva da Globo para as transmissões do Mundial:

"Neymar por si só, por tudo que construiu, acho que merece viver essa última experiência na Copa do Mundo. Se a gente olhar pra outras seleções, como Argentina e Portugal, que contam com dois grandes jogadores que terão sua última oportunidade de jogar a Copa, no caso, Messi e Cristiano Ronaldo, por que não o Neymar?"

A comparação tem apelo emocional evidente, mas esconde uma assimetria técnica que a análise histórica não perdoa. Lionel Messi chegou à Copa do Mundo de 2022 com 672 gols pelo Barcelona e PSG na carreira, campeão da Copa América de 2021 e com ritmo de jogo preservado. Cristiano Ronaldo, mesmo mais irregular em 2026, acumula sequência de partidas pelo Al-Nassr que Neymar simplesmente não tem. O que para o argentino é consistência de 18 anos de alto nível, para o brasileiro é uma trajetória marcada por seis grandes lesões desde 2019.

Denílson fez questão, porém, de não equiparar os legados:

"Não estou fazendo comparações, mas se olhar para a Seleção Brasileira que temos, não conseguimos enxergar um jogador no calibre do Neymar."

Esse segundo ponto é onde o debate ganha substância real. Na apuração do SportNavo junto a estatísticas do ciclo classificatório, nenhum atacante brasileiro atingiu a média de participações em gols que Neymar registrava antes de 2019 — 0,87 gol ou assistência por jogo pela Seleção entre 2010 e 2018.

Os candidatos que disputam a última vaga no ataque

A entrada de Neymar na lista final de 26 jogadores representaria, segundo análise da UOL Esporte, o corte direto de João Pedro, até recentemente considerado presença garantida. Há ainda três candidatos disputando o que pode ser a última vaga no setor ofensivo: Pedro, do Flamengo — fora das convocações desde 2023, quando foi chamado pelo interino Ramon Menezes —; Rayan, do Bournemouth, com apenas 14 minutos disputados pela Seleção na vitória sobre a Croácia em março; e Andrey Santos, do Chelsea, presente em quatro das cinco listas de Ancelotti no ciclo, com cinco jogos disputados.

Pedro marcou no Brasileirão de 2026 com Ancelotti na arquibancada, no empate entre Athletico-PR e Flamengo em 17 de maio, na Arena da Baixada. O centroavante de 28 anos representa o perfil mais tradicional de número 9 que a Seleção carece desde a aposentadoria de Adriano — referência física, área, jogo aéreo. Neymar representa outra função: o desequilíbrio individual em partidas travadas, especialidade que a Copa do Mundo de 48 seleções, com grupos de quatro e fase eliminatória estendida, pode exigir em algum momento entre 13 de junho e 19 de julho.

A polêmica do Santos e o que ela revela sobre o momento

A confusão durante a substituição de Neymar na última partida pelo Santos — seguida de uma publicação melancólica nas redes sociais — trouxe à tona um padrão que se repete em momentos de tensão na carreira do atacante. Em 2017, antes de sua transferência do Barcelona para o PSG por 222 milhões de euros, episódios similares de exposição emocional precederam decisões polêmicas. A diferença é que, naquele contexto, Neymar tinha 25 anos e o melhor futebol ainda pela frente.

Internamente na CBF, segundo reportagens da ESPN e do site Trivela, a situação divide opiniões. Uma ala entende que Ancelotti — com a experiência de ter gerenciado vestiários de Real Madrid, Bayern de Munique e Napoli — teria autoridade suficiente para administrar o ambiente sem que o atacante ocupasse o papel de titular absoluto. Outra corrente avalia que a convocação geraria desgaste desproporcional ao benefício técnico, especialmente considerando que Neymar disputou apenas 14 partidas na temporada, com ausência em metade dos compromissos do Santos em 2026.

A convocação oficial de Ancelotti acontece nesta segunda-feira, 18 de maio, às 17h (horário de Brasília), no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, com transmissão pela TV Globo, SporTV e canal da CBF no YouTube. O Brasil estreia na Copa do Mundo de 2026 em 13 de junho, contra Marrocos, no Grupo C, ao lado de Escócia e Haiti. Quem quiser entender a lógica tática de Ancelotti para o torneio terá nos primeiros 45 minutos desse jogo de estreia a resposta mais concreta para todas as perguntas que a lista de 26 nomes, sozinha, não conseguirá responder — inclusive sobre o papel real de qualquer atleta veterano no esquema do italiano. Gravar esse jogo de abertura será a melhor forma de calibrar o debate.