O Brasil completou 12 meses sem gol de centroavante pela Seleção, marca que não se via desde a Copa de 1982, quando Serginho e Careca falharam em converter chances decisivas contra a Itália. O jejum atual supera até mesmo os períodos mais áridos das eras Dunga e Mano Menezes, quando a posição 9 ao menos balançava as redes em amistosos.

Entre janeiro de 2023 e janeiro de 2024, os centroavantes convocados - Gabriel Jesus, Richarlison, Pedro e Cunha - somaram apenas três gols em 18 partidas disputadas. Para efeito de comparação, Romário marcou seis vezes nos últimos seis jogos antes da Copa de 1994, enquanto Ronaldo Fenômeno anotou oito gols nos dez confrontos que antecederam França 98.

O fantasma de 1982 ronda a Copa

A atual seca ofensiva dos centroavantes brasileiros encontra paralelo histórico apenas no Mundial da Espanha, quando Telê Santana apostou em Serginho como referência. O atacante do São Paulo disputou quatro partidas sem marcar, contribuindo para a eliminação na segunda fase. Àquela altura, o Brasil havia criado 23 chances claras de gol - número similar às 21 oportunidades desperdiçadas pelos centroavantes nas últimas dez partidas.

Gabriel Jesus, principal nome da posição atualmente, acumula 15 jogos sem balançar as redes pela amarelinha. Seus últimos dois gols datam de junho de 2023, contra Bolívia e Peru, ambos em partidas das Eliminatórias Sul-Americanas. O atacante do Arsenal soma 19 gols em 63 partidas pela Seleção - média inferior aos 0,41 por jogo de Roberto Dinamite nos anos 1970.

Números expõem dimensão do problema

A estatística torna-se ainda mais alarmante quando comparada aos rivais diretos na corrida ao título mundial. Nos últimos 12 meses, Argentina contou com 14 gols de centroavantes (Lautaro Martínez e Julián Álvarez), França teve 11 tentos de Mbappé atuando centralizado, e Inglaterra somou nove de Harry Kane. O Brasil, no mesmo período, registrou zero.

Pedro, artilheiro do Flamengo com 42 gols em 2023, disputou apenas três partidas pela Seleção e não conseguiu reproduzir o desempenho clubístico. Richarlison, com passagem conturbada no Tottenham, marcou seu último gol pela amarelinha em setembro de 2022. Cunha, aposta mais recente, estreou em novembro sem conseguir finalizar sequer uma vez no gol.

Soluções táticas emergem como alternativa

A escassez de centroavantes efetivos força a comissão técnica a considerar adaptações no sistema ofensivo. Vinicius Jr. já atuou como falso 9 em duas oportunidades, com resultados discretos mas promissores na movimentação. A experiência lembra a transição de Pelé da ponta-direita para o centro do ataque entre 1966 e 1970, movimento que revolucionou o futebol brasileiro.

Rodrygo apresenta características similares às de Kaká em 2006, quando o meia-atacante ocupava espaços entre linhas antes de Ronaldinho criar as jogadas. A velocidade e finalização do jogador do Real Madrid podem compensar a ausência de um referencial físico na área, estratégia que Guardiola utilizou com sucesso no Manchester City entre 2017 e 2019.

O técnico da Seleção tem até março para definir a formação titular, quando o Brasil enfrentará Colômbia e Argentina pelas Eliminatórias. Estes confrontos serão decisivos para testar as alternativas táticas antes da convocação final para a Copa, prevista para maio de 2024.