O silêncio no centro de treinamento da Coreia do Sul em Seul contrasta com o burburinho dos últimos 15 anos. Pela primeira vez desde 2008, a camisa 7 não pertence a Son Heung-min. O capitão que carregou a seleção asiática nas costas por duas décadas pendurou as chuteiras da equipe nacional, deixando um vazio tático e emocional que o técnico Hong Myung-bo precisa preencher antes do duelo contra o Brasil na Copa do Mundo de 2026.

A atmosfera gelada de março em Paju, cidade que abriga o complexo da seleção sul-coreana, espelha a realidade: sem seu astro máximo, a equipe que participará de sua 11ª Copa consecutiva terá que reinventar completamente sua filosofia ofensiva. Hong Myung-bo, de volta ao comando após 10 anos, sabe que enfrentar a Seleção Brasileira na fase de grupos exigirá muito mais que saudosismo.

Sistema defensivo ganha força sem o craque do Tottenham

Lee Kang-in, meio-campista do Paris Saint-Germain, emerge como o principal candidato a herdar o protagonismo ofensivo deixado por Son. Aos 23 anos, o jogador que brilhou nas categorias de base do Valencia tem características distintas do antecessor: prefere atuar centralizado, com liberdade para criar jogadas, ao invés dos ataques pelas pontas que marcaram a era Son.

"Precisamos encontrar uma nova identidade, não podemos simplesmente substituir Son por outro jogador", declarou Hong Myung-bo em coletiva recente no centro de treinamento da KFA.

O técnico estuda implementar um esquema 5-3-2 mais retrancado, priorizando a solidez defensiva que sempre caracterizou as seleções asiáticas em Copas do Mundo. Kim Min-jae, zagueiro do Bayern de Munique, assumirá a liderança da defesa ao lado de Kim Young-gwon, dupla que soma mais de 150 jogos pela seleção nacional.

Conforme levantamento do SportNavo, a Coreia do Sul marcou apenas 12 gols nos últimos 8 jogos das Eliminatórias Asiáticas, números que preocupam a comissão técnica. A dependência excessiva de Son nas últimas campanhas deixou expostas as limitações do setor ofensivo, problema que agora precisa ser resolvido de forma coletiva.

Jovens promessas disputam espaço no ataque

Oh Hyeon-gyu, atacante de 23 anos que defendeu o Celtic na temporada passada, lidera a corrida para assumir a responsabilidade goleadora. Com 1,88m de altura, oferece presença física que Son nunca teve, permitindo jogadas aéreas e pivôs de costas para o gol. Seu principal concorrente é Cho Gue-sung, centroavante do Gimcheon Sangmu que chamou atenção na Copa do Qatar com dois gols contra o Gana.

As laterais também passarão por reformulação tática. Lee Myung-jae, lateral-esquerdo do Ulsan HD, deve assumir funções mais defensivas, abandonando as subidas constantes ao ataque que caracterizavam o jogo com Son aberto pela esquerda. Do lado direito, Seol Young-woo precisa adaptar seu estilo mais ofensivo às novas exigências do sistema.

"Vamos apostar na disciplina tática e na pressão alta no campo adversário", explicou o auxiliar técnico Park Ji-sung, lenda que participou de três Copas do Mundo.

Brasil pode explorar transição defensiva coreana

A principal vulnerabilidade da nova Coreia do Sul estará justamente na transição entre defesa e ataque. Sem a velocidade de Son para executar contra-ataques letais, a equipe ficará mais exposta aos desarmes no meio-campo e terá dificuldades para sair jogando com rapidez.

Dorival Júnior, técnico da Seleção Brasileira, certamente orientará seus meio-campistas a pressionar Jung Woo-young e Hwang In-beom, dupla responsável pela armação coreana. A marcação alta sobre estes dois jogadores pode forçar erros de passe e gerar oportunidades de gol para Vinícius Júnior e Raphinha.

Na avaliação do SportNavo, o ponto forte sul-coreano continuará sendo a intensidade física e a disciplina tática, características que incomodaram Argentina e Portugal em Copas anteriores. Hong Myung-bo planeja explorar a velocidade de transição de Hwang Hee-chan, atacante do Wolverhampton, para criar situações de perigo em bolas paradas e cruzamentos na área.

Duelo entre gerações marca novo ciclo asiático

A partida contra o Brasil representará o primeiro grande teste da nova filosofia sul-coreana. Lee Kang-in terá a pressão de mostrar que pode liderar uma seleção acostumada a depender do brilho individual de Son Heung-min por mais de uma década.

Hong Myung-bo sabe que enfrentar jogadores como Vinícius Júnior, Endrick e Rodrygo exigirá perfeição tática de uma equipe ainda em processo de adaptação. A Coreia do Sul disputará a Copa do Mundo de 2026 no Grupo C, enfrentando Brasil, Colômbia e uma seleção ainda a ser definida pela repescagem intercontinental no primeiro semestre deste ano.