Confesso: eu errei sobre a Suíça. Em 2022, quando os suíços foram eliminados pela Portugal de Cristiano Ronaldo nas oitavas de final em Lusail, escrevi que aquela geração havia chegado ao seu teto. Hoje, vendo os números do ciclo de Murat Yakin — e o 4 a 1 sobre a Jordânia na última semana — reconheço que subestimei a capacidade de renovação de um modelo que combina disciplina tática com jovens talentos como Dan Ndoye e Zeki Amdouni.

A Suíça que goleou e a Espanha que empatou com o Iraque

A Copa do Mundo começa no dia 11 de junho e os amistosos da semana funcionaram como radiografias brutalmente honestas. A Suíça, que enfrenta a Austrália neste sábado (6) no Snapdragon Stadium, em San Diego, às 16h (de Brasília), chegou ao confronto com quatro gols de vantagem moral sobre qualquer dúvida. A vitória sobre a Jordânia por 4 a 1 foi a despedida da seleção de seu próprio território antes do Mundial — e o placar largo deu ao técnico Yakin a liberdade de rodar o elenco sem perder intensidade.

A Suíça que goleou e a Espanha que empatou com o Iraque Suíça goleia, Espanha tr
A Suíça que goleou e a Espanha que empatou com o Iraque Suíça goleia, Espanha tr

Do outro lado do espectro, a Espanha empatou com o Iraque em 1 a 1, na quinta-feira (4), no Estádio Riazor, em La Coruña. Ferran Torres abriu o placar aos 16 minutos do primeiro tempo, mas Merchas Doski respondeu aos 27 da mesma etapa. O empate levou Luis de la Fuente a uma coletiva de imprensa mais incômoda do que o resultado em si sugeria.

"Hoje é apenas nosso quarto dia de concentração e ainda faltam 11 dias para a nossa primeira partida na Copa do Mundo, e também teremos outro jogo no dia 8. Ainda há muito, muito trabalho de preparação a ser feito", afirmou De la Fuente, buscando contextualizar sem esconder a insatisfação com o desempenho coletivo.

A Espanha entrou em campo com time modificado — desfalques e jogadores poupados comprometeram especialmente o segundo tempo, quando as substituições em série quebraram qualquer ritmo ofensivo. O próximo compromisso é no dia 8, antes da estreia oficial contra Cabo Verde, no dia 15 de junho, no Mercedes-Benz Stadium, em Atlanta.

A Escócia chega embalada e a Bolívia carrega as marcas de outubro

Enquanto a Espanha tropeçava em La Coruña, a Escócia goleava Curaçao por 4 a 1 no dia 30 de maio — resultado que deu ao técnico Steve Clarke exatamente o tipo de confiança que se busca em véspera de Copa. Neste sábado (6), os escoceses enfrentam a Bolívia em Nova Jersey, no Sports Illustrated Stadium, às 17h (de Brasília), num teste que serve tanto de ensaio geral quanto de termômetro de elenco.

A Escócia volta à Copa do Mundo após 28 anos de ausência — a última participação foi em 1998, na França, justamente contra o Brasil. Desta vez, o grupo da seleção escocesa inclui novamente a Seleção Brasileira, além de Haiti e outros adversários, com estreia marcada para 13 de junho. Clarke terá, contudo, que lidar com a ausência do meia Billy Gilmour, cortado por lesão às vésperas do torneio.

Para a Bolívia, o amistoso de sábado tem outro sabor. A seleção de Óscar Villegas não está na Copa — perdeu a vaga na repescagem para o Iraque — e carrega ainda a memória da derrota por 3 a 0 para a Rússia, em outubro de 2025, última vez que enfrentou um adversário europeu. Para o jogo contra a Escócia, o técnico enfrenta ausências por lesão (Diego Medina, Jesús Maraude e Moisés Villarroel) e problemas burocráticos: Rodríguez não conseguiu regularizar o visto de entrada nos Estados Unidos, e Cuéllar viajou para a Bulgária assinar com o CSKA Sofia.

O que os resultados antecipam para as primeiras rodadas do Mundial

Comparar amistosos de preparação exige cautela — o contexto de cada jogo é radicalmente diferente. A Suíça jogou em casa, contra uma Jordânia sem a pressão do torneio; a Espanha entrou em campo no quarto dia de concentração, com elenco remixado. Ainda assim, os sinais são informativos.

A Holanda, por exemplo, iniciou sua concentração em Orangeburg, subúrbio de Nova York, em clima de luto após a morte do ex-diretor de delegação Hans Jorritsma, aos 77 anos, nesta sexta-feira (5) — homenageado com um minuto de silêncio antes do treino. O zagueiro Jurriën Timber, do Arsenal, se juntou ao grupo após dias extras de descanso concedidos pela participação na final da Liga dos Campeões. A seleção holandesa estreia no dia 14 de junho contra o Japão, no Texas, e pode cruzar com o Brasil na fase eliminatória inicial.

A Suíça, por sua vez, entra no Grupo B ao lado de Canadá, Bósnia e Catar — adversário da estreia, no dia 13 de junho, às 16h (de Brasília). O 4 a 1 sobre a Jordânia não resolve questões táticas profundas, mas entrega algo que nenhum treinamento consegue fabricar: a sensação de que o gol sai quando precisa sair. A Austrália, que perdeu para o México por 1 a 0 no último compromisso, chega ao confronto de sábado em San Diego precisando de uma resposta antes de estrear na Copa contra a Turquia, no dia 14 de junho.

"Em princípio, já temos uma ideia clara de equipe", completou De la Fuente, sinalizando que o empate com o Iraque não alterou o planejamento estrutural da Espanha para o torneio.

A Espanha — campeã da Eurocopa de 2024 e uma das favoritas ao título em 2026 — tem margem para absorver um resultado ruim num amistoso de pré-temporada. A questão real é outra: se o segundo tempo contra o Iraque, sem ritmo e sem coesão, se repetir contra Cabo Verde no dia 15, De la Fuente terá respostas mais difíceis para dar. A Suíça, enquanto isso, joga neste sábado com a tranquilidade de quem já fez o dever de casa — falta o palco.