— Você viu o que o Textor mandou pro Botafogo?
— Vi. Um e-mail com 25 milhões de dólares dentro.
— E o clube respondeu?
— Ainda não. E aí tá o problema.
No dia 2 de maio, John Textor enviou por e-mail ao presidente do Botafogo, João Paulo Magalhães Lins, ao novo representante da associação no Conselho de Administração, João Paulo Menna Barreto, e ao COO da SAF, Danilo Caixeiro, uma proposta batizada de SAF/Social 2.0. O documento busca reequilibrar a relação entre o clube social — hoje o único acionista com poder político real — e a Sociedade Anônima do Futebol comandada pelo americano. Textor está afastado do comando executivo da SAF e, diante da deterioração política com o lado associativo, resolveu formalizar um plano de reconciliação antes que o prazo para qualquer acordo se encerre.
O que Textor quer mudar na governança alvinegra
A proposta tem pelo menos cinco pontos estruturais. O primeiro prevê que o clube social aceite um aporte de 25 milhões de dólares — o equivalente a R$ 122 milhões — dentro do processo de recuperação judicial em curso, sem que Textor especifique a origem nem o formato exato do financiamento. O segundo ponto determina que o Botafogo não firme nenhum acordo com o Olympique de Lyon por valor inferior a US$ 35 milhões (cerca de R$ 172 milhões), preservando os litígios jurídicos contra o braço francês da Eagle Football e contra Michelle Kang, presidente do Lyon. A diferença entre os dois valores — R$ 50 milhões — é, para ter dimensão, próxima ao orçamento anual de futebol de clubes inteiros da Série B. Para ficar numa comparação geográfica: é a distância em reais entre Recife e Fortaleza no mapa do futebol brasileiro, curta para quem está de fora, mas enorme quando você está no meio do caminho.
Os outros pontos incluem a quitação de dívidas da SAF com o clube social, entre elas honorários advocatícios acumulados na disputa societária, e a distribuição de parte das receitas obtidas em processos judiciais ao lado associativo — que Textor classifica como "vítima" tanto da gestora Ares quanto de Michelle Kang. Completam o pacote: maior acesso do Conselho Fiscal às instalações da SAF e a criação de um novo Comitê de Futebol com maioria de integrantes oriundos do clube social.
A entrevista que expôs o distanciamento entre Textor e o Botafogo
Foi ao Canal do Anderson Motta que Textor abriu o jogo sobre o estado atual da relação com o Botafogo. As declarações revelam um diagnóstico que o próprio americano reconhece como problemático:
"Ficou claro que, ao longo do tempo, o meu relacionamento que começou muito próximo com o clube social se tornou distante. Tenho me concentrado na organização, no futebol, em campeonatos. Tivemos as distrações da rede multi-clubes, e agora chegamos a esse ponto onde precisamos reafirmar nosso apoio uns aos outros."
A fala é reveladora porque admite, em público, algo que os bastidores do Estrela Solitária já diziam há meses: a Eagle Football e suas ramificações internacionais — Crystal Palace, RWD Molenbeek, Botafogo, Lyon — consumiram a atenção de Textor em detrimento da relação política com os dirigentes cariocas. O Botafogo foi campeão da Libertadores em novembro de 2024, mas a gestão financeira deixou um passivo que tornou o processo de recuperação judicial inevitável em 2025.
"Acho que conquistei o direito de estar aqui permanentemente. Acho que conquistei a confiança do clube social e dos torcedores, mas acho que temos muito a aprender sobre o que passamos. Mais transparência, melhores resultados econômicos e, acima de tudo, mais diversão", completou o empresário.
A apuração do SportNavo indica que a reação inicial dos dirigentes à proposta foi descrita pelo próprio Textor como "bastante positiva", mas ele deixou claro que ainda aguarda confirmação formal por escrito. Nenhum dos destinatários do e-mail — Lins, Menna Barreto ou Caixeiro — se pronunciou publicamente sobre os termos do documento até a publicação desta reportagem.
O que se decide nas próximas semanas no Nilton Santos
O horizonte imediato da negociação é determinado pelo processo de recuperação judicial. Qualquer aporte externo, inclusive os R$ 122 milhões propostos por Textor, precisa ser validado dentro do plano aprovado pelos credores. Enquanto isso, o Botafogo disputa o Brasileirão 2026 sem a estabilidade institucional que um clube campeão continental deveria ter. A equipe técnica segue trabalhando, mas a indefinição sobre quem efetivamente comanda a SAF — Textor afastado, Caixeiro no operacional — cria um vácuo de liderança que impacta diretamente contratações e renovações de contrato.
O ponto mais sensível da proposta é exatamente o que diz respeito ao Lyon. Ao estabelecer um piso de US$ 35 milhões para qualquer acordo com o clube francês, Textor está, na prática, mantendo viva uma guerra jurídica que consome energia e dinheiro de ambos os lados. Michelle Kang adquiriu participação no Lyon em circunstâncias que Textor contesta na Justiça, e qualquer acordo abaixo do valor estipulado representaria, na visão do americano, uma derrota que ele não está disposto a encaixar enquanto ainda tiver poder de voto.
O clube social tem até o fim de maio para dar uma resposta formal ao e-mail de 2 de maio. Se aceitar os termos, o SAF/Social 2.0 entra em vigor como novo marco da governança alvinegra. Se rejeitar ou contrapropor, Textor pode acionar cláusulas contratuais que tornam a saída dele ainda mais cara para o Botafogo do que a permanência. A proposta está na mesa — falta o Botafogo assinar embaixo.








