O episódio que vitimou uma pessoa e deixou 47 feridos no Estádio Alejandro Villanueva, em Lima, antes do clássico entre Alianza Lima e Universitario de Deportes, representa mais um capítulo sombrio na história recente do futebol sul-americano. O incidente, que ocorreu nas arquibancadas antes mesmo do início da partida, evidencia uma realidade que persiste na região: a precariedade dos sistemas de crowd control em grandes eventos esportivos.
Desde minha experiência acompanhando a implementação dos protocolos de segurança no Allianz Arena e em Wembley, observo com particular atenção como cada país da América do Sul responde às suas próprias tragédias. O Peru, que já havia enfrentado episódios similares em décadas passadas, parece ainda não ter desenvolvido os mecanismos preventivos adequados para gerir multidões em situações de alta tensão emocional.
Brasil: lições custosas que transformaram o cenário
A transformação do panorama brasileiro em segurança esportiva teve seu marco divisor após os eventos de 2013, quando episódios de violência e problemas estruturais culminaram na elaboração da Lei Geral da Copa. Esta legislação, inspirada em best practices europeias, estabeleceu protocolos rigorosos de crowd management que hoje servem de referência para outros países da região.
Os estádios brasileiros adotaram sistemas integrados de monitoramento, com câmeras de reconhecimento facial, controle biométrico de acesso e protocolos específicos para segregação de torcidas organizadas. A implementação do Fan ID, similar ao sistema utilizado na Copa do Mundo da Rússia, permitiu rastreabilidade completa dos torcedores e reduziu significativamente os índices de violência.
Diferentemente do que observei em Barcelona, onde o senyera une mais do que divide, os clássicos sul-americanos carregam uma carga emocional que exige protocolos diferenciados. No Brasil, a criação de buffers zones e o controle rigoroso da venda de ingressos por geolocalização demonstraram eficácia na prevenção de confrontos.
Panorama regional: entre avanços e retrocessos
Argentina e Uruguai implementaram medidas similares às brasileiras, com adaptações às suas realidades locais. O sistema argentino de tribunas populares passou por reformulação completa após eventos trágicos, enquanto o Uruguai adotou tecnologia de ponta no Estádio Centenário, transformando-o em modelo regional de segurança.
Chile e Colômbia, por sua vez, ainda enfrentam desafios estruturais. O caso chileno é particularmente interessante: após os incidentes no Nacional-Colo Colo de 2022, implementaram um sistema híbrido que combina elementos do modelo europeu com adaptações locais, incluindo mediação comunitária prévia aos clássicos.
O Peru, entretanto, parece ter ficado para trás nesta corrida por modernização. A infraestrutura do Alejandro Villanueva, embora histórica e carismática como o Camp Nou, não passou pelas atualizações necessárias para comportar com segurança a paixão desmedida que caracteriza o clássico limeño.
Lições europeias aplicáveis ao contexto sul-americano
Durante meu período em Londres, pude acompanhar de perto como a Premier League desenvolveu seus protocolos pós-Hillsborough. O modelo inglês de stewarding — com voluntários treinados para mediar conflitos antes que escalem — poderia ser adaptado com sucesso à realidade sul-americana, considerando as particularidades culturais locais.
A experiência alemã com o fan coaching, onde líderes de torcidas organizadas são integrados aos sistemas de segurança, também oferece perspectivas interessantes. No contexto peruano, onde as barras bravas exercem influência significativa, este modelo poderia transformar potenciais agentes de conflito em aliados da prevenção.
O episódio de Lima serve como wake-up call para toda a região. Enquanto o futebol sul-americano continua evoluindo tacticamente — com técnicos absorvendo conceitos como gegenpressing e positional play —, a infraestrutura de segurança permanece, em muitos casos, ancorada em práticas do século passado. A modernização destes protocolos não representa apenas uma questão de eficiência operacional, mas uma responsabilidade moral com os milhões de torcedores que transformam os estádios em catedrais de paixão a cada final de semana.

