Três coisas: tradição, geração envelhecida e formato impiedoso. Tudo se explica daí.
O Copa do Mundo 2026 está prestes a registrar um dos capítulos mais constrangedores de sua história recente. Uruguai, Bélgica e Croácia — seleções que somam, entre si, uma Copa do Mundo (Uruguai, em 1950), um vice-campeonato (França 2018, Croácia) e um terceiro lugar (Qatar 2022, Croácia) nas últimas duas décadas — chegam à rodada decisiva da fase de grupos sem garantia alguma de classificação. Em um torneio ampliado para 48 participantes e 32 vagas no mata-mata, a aritmética parece generosa. Não é.
O novo formato que engana quem não faz as contas
Desde que a FIFA anunciou a expansão para 48 seleções, circulou a narrativa de que seria mais fácil avançar. Os números dizem outra coisa. Com 16 grupos de três equipes cada, apenas os dois primeiros de cada chave avançam diretamente — e apenas os oito melhores terceiros colocados entre os 16 grupos completam as 32 vagas. Isso significa que um terço das equipes que terminam em terceiro vai para casa. Para seleções que chegam à última rodada sem vitória, como a Bélgica, ou com apenas dois pontos, como o Uruguai, a margem de erro é zero.
O modelo lembra, guardadas as proporções, o formato de 24 equipes que vigorou entre 1982 e 1994, quando os melhores terceiros colocados também precisavam de critérios de desempate para avançar. Naquele período, seleções como a Bulgária (1986) e a Irlanda (1990) surfaram na regra dos terceiros. Agora, o processo é o mesmo — mas a concorrência é maior, com 16 grupos gerando classificações paralelas que só se consolidam quando o último apito da rodada final soa.
Uruguai de Bielsa encostado na parede
O cenário mais dramático pertence ao Uruguai. Comandada por Marcelo Bielsa, a seleção celeste somou apenas dois pontos nas duas primeiras rodadas, sem uma vitória sequer. Na terceira rodada, o adversário é a Espanha, uma das favoritas ao título. Para avançar, o Uruguai precisa ao menos vencer — e ainda torcer para que Cabo Verde não supere os uruguaios no confronto paralelo contra a Arábia Saudita.
Historicamente, o Uruguai nunca foi eliminado na fase de grupos de uma Copa do Mundo sem ao menos vencer uma partida. Em 2010, a seleção chegou às semifinais com Forlán como artilheiro e melhor jogador do torneio. Em 2014, Suárez e Cavani formavam o ataque mais temido da América do Sul. Em 2022, a geração de Bentancur e Valverde terminou em terceiro no grupo, fora do mata-mata, mas ao menos venceu Gana por 2 a 0. Uma eliminação sem vitória em 2026 seria inédita e dolorosa para o futebol uruguaio.
"O Uruguai tem jogadores de altíssimo nível, mas a equipe não encontrou ritmo. Bielsa precisa de um resultado que talvez não esteja ao alcance desta geração", avaliou o comentarista especializado em futebol sul-americano em análise divulgada pelo SportNavo.
A geração de ouro da Bélgica chega ao fim sem título
A Bélgica carrega o peso de ser a seleção que mais desperdiçou uma geração talentosa na história recente do futebol europeu. Entre 2014 e 2022, o país reuniu De Bruyne, Hazard, Lukaku, Courtois e Kompany no mesmo elenco — e não ganhou nada. O melhor resultado foi o terceiro lugar na Copa da Rússia, em 2018, superando a Inglaterra por 2 a 0 na disputa pelo bronze. Em Qatar 2022, caíram na fase de grupos após derrota para o Marrocos e empate com a Croácia.
Agora, sem vitória nas duas primeiras rodadas e atrás de Egito e Irã na classificação do grupo, os belgas enfrentam a Nova Zelândia, lanterna da chave. Uma vitória garante a vaga. Um empate deixa a classificação dependente dos resultados dos demais grupos para saber se a Bélgica entra entre os oito melhores terceiros. Uma derrota encerra o torneio. Raramente uma seleção ranqueada entre as dez melhores do mundo chegou a uma última rodada de Copa com margem tão estreita — e contra um adversário que, em tese, deveria ser batido com folga.
"Chegamos aqui sabendo que seria difícil, mas não esperávamos estar nesta situação na última rodada", disse o técnico belga, segundo relatos da imprensa europeia após o segundo jogo da fase de grupos.
Croácia perde o luxo de empatar — e enfrenta Gana em duelo direto
A Croácia tem o cenário matematicamente mais equilibrado dos três, mas não necessariamente o mais confortável. Após perder para a Inglaterra na estreia e vencer o Panamá na sequência, os croatas chegam com três pontos à última rodada — atrás de Inglaterra e Gana, que somam quatro cada. O confronto decisivo é justamente contra Gana, em partida que funciona como mata-mata antecipado.
A história da Croácia em Copas é marcada por grandes campanhas a partir de elencos coesos e bem treinados: terceiro lugar em 1998 (com Šuker artilheiro e 6 gols em 7 jogos), vice em 2018 e terceiro em 2022. Em nenhuma dessas edições, porém, a seleção chegou à última rodada da fase de grupos precisando vencer para não depender de critérios paralelos. Uma vitória contra Gana coloca a Croácia em situação confortável. Empate ou derrota praticamente encerram a participação de Luka Modrić — que, aos 40 anos, disputa provavelmente sua última Copa — antes das oitavas de final.
Os três jogos que definem o futuro dessas seleções se realizam simultaneamente na rodada final: Uruguai x Espanha, Bélgica x Nova Zelândia e Croácia x Gana. O efeito cascata é imediato — o resultado de cada partida altera a classificação dos terceiros colocados em tempo real, tornando qualquer projeção prematura. Quem avançar entre os melhores terceiros enfrenta nas oitavas um dos líderes de grupo, provavelmente uma das potências tradicionais. Quem ficar de fora encerra uma Copa do Mundo sem sequer chegar ao mata-mata — e carrega esse registro para sempre nas estatísticas da competição.

É o mesmo cenário que a Itália viveu em 2010, quando saiu na fase de grupos após empates com Paraguai e Nova Zelândia e derrota para a Eslováquia — só que agora a aposta é diferente, porque o novo formato prometia mais chances e entregou, para essas três seleções, a mesma crueldade matemática de sempre.








