O isqueiro ainda estava no gramado quando a confusão já havia tomado conta da Neo Química Arena. Um vape, um par de óculos de sol e o próprio isqueiro foram arremessados em direção aos jogadores do São Paulo que comemoravam o gol de Luciano — o empate a 1 a 1 no fim do primeiro tempo do clássico deste domingo (10), pelo Campeonato Brasileiro. O Corinthians venceu o Majestoso por 3 a 2, mas o que aconteceu após o gol tricolor pode gerar consequências fora de campo.
O que o árbitro registrou na súmula do Majestoso
Anderson Daronco documentou na súmula que os três objetos foram arremessados "no campo de jogo em direção aos atletas do clube que estavam comemorando o gol". O árbitro não confirmou se algum jogador foi atingido, mas o episódio envolveu Calleri, que caiu após a chegada de um dos objetos próximo à bandeira de escanteio.
A Polícia Militar identificou e conduziu três torcedores ao Jecrim — Juizado Especial Criminal — ainda durante a partida. Essa identificação é o ponto central para a análise disciplinar que o clube enfrentará nas próximas semanas.
Segundo o regulamento do Campeonato Brasileiro, quando os responsáveis por arremesso de objetos são identificados e encaminhados às autoridades, a tendência é que o clube mandante não sofra punição automática. A responsabilização recai sobre os indivíduos, não sobre a entidade. Sem identificação, o cenário seria diferente — e o risco de perda de mando, real.
A briga em campo vista de ângulos diferentes
A comemoração de Bobadilla acendeu o rastilho. O meia paraguaio simulou segurar a genitália enquanto gritava "aqui não se chora" — gesto direcionado à torcida corintiana. Luciano celebrou na bandeirinha de escanteio, a metros da arquibancada do Corinthians, e foi nesse momento que os objetos voaram.
Matheus Bidu tentou levantar Calleri do gramado. Sabino e Artur, do São Paulo, empurraram o lateral corintiano. Bidu devolveu os empurrões. Gabriel Paulista se aproximou do grupo. Daronco interveio, mas as trocas físicas continuaram por alguns segundos.
"Tira a mão de mim" e "assim pode?" foram as frases registradas durante a confusão, segundo o dublador Gustavo Machado, que narrou o áudio do vestiário.
Ao ser afastado, Bidu reclamou ter levado um tapa. A versão não foi confirmada pela arbitragem. Ao fim da confusão, Daronco distribuiu cartões amarelos para Gabriel Paulista e Matheus Bidu, do Corinthians, e para Calleri, do São Paulo.

Os jogadores corintianos ainda pediram que Daronco revisasse o gesto de Bobadilla pelo VAR. O árbitro foi ao monitor, mas manteve o paraguaio em campo, argumentando que ele "não encostou a mão na genitália". A decisão gerou revolta no elenco alvinegro — no Brasileirão desta temporada, Allan e André, ambos do Corinthians, já foram expulsos em lances classificados como similares.
"Assim pode?" — a pergunta repetida pelos jogadores do Corinthians a Daronco resume a percepção de critério desigual dentro do próprio clube.
O que o Corinthians arrisca e qual é o histórico disciplinar em Itaquera
A Neo Química Arena já foi palco de episódios similares. Em 2023, o clube perdeu o mando de campo por dois jogos após torcedores arremessarem objetos durante uma partida pela Copa do Brasil — punição que custou ao Timão receita estimada em R$ 3 milhões em bilheteria e cotas de transmissão de jogos transferidos para estádios neutros.
Neste caso, a identificação dos três torcedores e o encaminhamento ao Jecrim formam a principal linha de defesa do clube perante o Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD). O processo disciplinar será aberto automaticamente com base na súmula de Daronco. A defesa corintiana deverá apresentar o boletim de ocorrência policial e os registros de condução dos torcedores como prova de que o clube colaborou com a contenção do incidente.
A pena mínima prevista no Código Brasileiro de Justiça Desportiva para arremesso de objetos é multa ao clube de R$ 100 a R$ 100 mil, com possibilidade de perda de mando de campo de um a três jogos dependendo da gravidade e do histórico do infrator. Com os responsáveis identificados, a multa pode ser aplicada individualmente a eles, poupando o Corinthians da sanção coletiva.
A defesa do clube tem prazo de 72 horas após a publicação da súmula para apresentar documentação complementar ao STJD. O julgamento, em caso de abertura de processo, costuma ocorrer entre 15 e 30 dias após o protocolo. O próximo jogo do Corinthians como mandante pelo Brasileirão está previsto para o fim de semana de 17 e 18 de maio — vale acompanhar o prazo de resposta do STJD para saber se a partida acontece normalmente na Neo Química Arena.










