Quanto tempo um volante estrangeiro precisa para deixar de ser 'o reforço' e se tornar parte da identidade de um clube? A pergunta não é retórica por acaso — ela atravessa cada partida que Mathías Villasanti disputa pelo Grêmio na temporada 2026.
O paraguaio de Caacupé tem 29 anos, veste a camisa 20 e acumula 32 aparições no Brasileirão Série A nesta temporada — um número que, por si só, já diz mais sobre confiança técnica do que qualquer declaração de treinador. Não é o jogador mais vistoso do elenco. Não é o que encabeça manchetes de mercado. É o que aparece na escalação, semana após semana, sem que a pergunta sobre sua titularidade precise ser feita.
Mas o momento que torna Villasanti relevante agora vai além do Brasileirão. Em junho de 2026, reportagem publicada pelo SportNavo identificou o volante entre os sete jogadores forjados no Brasil com potencial de mudar o Paraguai na Copa do Mundo — um reconhecimento que posiciona o camisa 20 do Grêmio num ciclo de visibilidade que raramente retorna quando passa.
Onde ele pode estar em 2027
O cenário mais concreto para Villasanti em 2027 é o de um volante com Copa do Mundo no currículo e mercado europeu aberto pela primeira vez de forma genuína. Jogadores que performam em Mundiais com consistência — mesmo sem gols ou assistências espetaculares — costumam atrair interesse de ligas intermediárias da Europa, especialmente quando têm menos de 30 anos e ficha técnica limpa em campeonatos sul-americanos de alto nível.

O paralelo é com um músico de estúdio que faz um show ao vivo televisionado pela primeira vez: a base já existe, o que falta é a exposição em escala. A Copa do Mundo, para Villasanti, é esse palco. Se o Paraguai avançar de fase — hipótese que o próprio contexto da convocação torna plausível —, o volante do Grêmio entra em 2027 com um valor de mercado diferente do que tem hoje.
Há também o cenário de permanência em Porto Alegre, que não seria derrota: o clube tem demonstrado capacidade de segurar peças que valorizam dentro do elenco, e Villasanti, com Campeonato Gaúcho de 2022, 2023 e 2024 no currículo, representa estabilidade institucional difícil de repor.
O que precisa acontecer até lá
Para que o cenário europeu se concretize, Villasanti precisará de mais do que volume de jogos — precisará de momentos de protagonismo rastreável. Nesta temporada, são 1 gol e 2 assistências em 32 partidas pelo Brasileirão Série A: números que traduzem função de equilíbrio, não de criação. Para um volante de contenção, isso é esperado. Para um jogador que quer ampliar seu mercado, é o teto que precisa ser empurrado.
A Copa do Mundo será o termômetro. A seleção paraguaia exigirá de Villasanti um papel diferente do que o Grêmio pede: em contexto de seleção, volantes com experiência em campeonatos sul-americanos frequentemente assumem mais responsabilidade na saída de bola e na leitura de pressão adversária. Se ele entregar essa versão ampliada do próprio jogo, o argumento de mercado se constrói sozinho.
No clube, o caminho passa por manter a regularidade — 32 jogos em uma única temporada é um dado que clubes europeus leem como sinal de saúde física e confiança técnica — e por adicionar ao menos mais dois ou três momentos de decisão direta que apareçam nas planilhas de scouts.
O que já aconteceu na trajetória
Villasanti nasceu em 24 de janeiro de 1997 em Caacupé, interior do Paraguai, e construiu sua base no futebol paraguaio antes de atravessar a fronteira. Pelo Cerro Porteño, conquistou o Campeonato Paraguaio no Apertura de 2020 — seu primeiro título expressivo, obtido em um contexto de pandemia que reduziu calendários e testou elencos de forma diferente do normal.
A chegada ao Grêmio representou o salto para o mercado brasileiro, e a adaptação foi medida em troféus estaduais: Campeonato Gaúcho em 2022, 2023 e 2024, mais a Recopa Gaúcha em 2023 e 2025. Cinco títulos em quatro anos de clube não é acidente — é a marca de um jogador que entende o que o ambiente exige e entrega dentro do prazo.
Sua estreia pela seleção paraguaia aconteceu em 10 de outubro de 2019, num amistoso contra a Sérvia. Desde então, o processo de consolidação na equipe nacional seguiu o mesmo padrão do clube: gradual, sem holofotes, fundamentado em presença e não em lampejos.

Os obstáculos no caminho
O principal limite de Villasanti é também sua principal virtude: ele é um jogador de sistema, não de exceção. Volantes que se destacam por organização e disciplina tática raramente dominam as narrativas de mercado — que ainda privilegiam números de gol e assistência como proxy de valor, mesmo quando a função do jogador não prevê esses números.
Com 178 cm e 68 kg, Villasanti tem perfil físico que não impressiona à primeira vista em ligas de alta intensidade física. O que compensa é a leitura de jogo — qualidade que só aparece para quem assiste com atenção, não para quem lê planilha. Esse é o gap que a Copa do Mundo pode fechar ou aprofundar.
Há ainda a questão da idade: 29 anos é o ponto em que volantes ou consolidam um salto de nível ou entram numa trajetória de estabilidade sem grandes movimentos. A janela de mercado mais ampla está aberta agora — não estará da mesma forma em 2028.
Villasanti tem os títulos, tem os jogos, tem a convocação. O que falta é o momento que transforma currículo em história.










