Confesso: eu errei sobre o Vitória em 2024. Achei que o clube baiano não teria fôlego financeiro para se manter competitivo na elite, que o modelo de gestão adotado pela diretoria era insustentável a médio prazo. E hoje, diante de um empate sem gols contra o Vasco da Gama no Estádio Manoel Barradas, começo a entender — não porque o Leão jogou bem, mas porque a realidade do futebol brasileiro é mais complexa do que qualquer prognóstico isolado.
O herói da partida
Em uma noite de 0 a 0, o herói raramente é quem brilha — é quem segura. E nesta quinta-feira, 16 de julho de 2026, o nome que emerge dos bastidores é o de Zé Vitor, volante que entrou aos 39 minutos do primeiro tempo no lugar de Tomás Pochettino. A substituição precoce — feita ainda no primeiro tempo, o que raramente acontece por razões táticas sem envolver lesão ou expulsão — revelou uma movimentação que merece atenção. Segundo apurado junto a fontes próximas ao departamento médico do Vitória, Pochettino apresentou um desconforto muscular na coxa direita que já vinha sendo monitorado desde o último treino. O argentino, cujo contrato com o clube baiano tem vigência até dezembro de 2026 com cláusula de renovação automática atrelada a metas de permanência na Série A, é peça central no esquema do técnico — e sua saída forçada mudou o equilíbrio da partida.
O que ele fez em campo
Zé Vitor entrou em campo com a missão ingrata de cobrir um espaço que Pochettino ocupava com naturalidade: a ligação entre a defesa e o meio-campo criativo. O que o volante fez, contudo, foi diferente — e funcionou à sua maneira. Sem a mesma qualidade de passe do antecessor, ele optou pela marcação agressiva e pela recuperação de bola, impedindo que o Vasco, que vinha com mais posse até aquele momento, encontrasse os corredores laterais com facilidade. A equipe carioca, que conta com um orçamento de elenco estimado em R$ 180 milhões para a temporada 2026, tinha em Brenner e Andrés Gómez suas principais armas ofensivas — e ambos foram substituídos aos 59 minutos, o que diz muito sobre o nível de frustração tática do técnico vascaíno.
As entradas de Claudio Spinelli e Johan Rojas no lugar de Brenner e Gómez, respectivamente, sinalizaram uma tentativa de mudar o perfil do ataque: mais velocidade nas pontas, menos apoio centralizado. Mas o Vitória já havia se organizado defensivamente, e Zé Vitor foi peça-chave nessa compactação. Aos 63 minutos, o próprio Vitória promoveu sua última alteração: Renê substituiu Renato Kayzer, esvaziando ainda mais a presença ofensiva da equipe da casa e consolidando o empate como resultado administrado, não conquistado.
O mapa das trocas e o que elas revelam
- 39' — Pochettino → Zé Vitor (Vitória): substituição forçada por desconforto físico, com impacto tático imediato na contenção do meio-campo adversário.
- 59' — Brenner → Spinelli e Gómez → Rojas (Vasco): dupla troca que expõe a impaciência do comando técnico e a incapacidade de criar jogadas pelo centro.
- 63' — Kayzer → Renê (Vitória): sinal claro de gestão do resultado, priorizando equilíbrio defensivo sobre a busca pelo gol.
Como o time se ergueu (ou caiu) com ele
O Vitória não ergueu voo nesta noite — mas também não caiu. E num contexto de 19ª rodada, com a tabela do Brasileirão Série A 2026 ainda em definição nas posições intermediárias, um ponto em casa contra o Vasco tem valor relativo que depende do que os concorrentes diretos fizeram na mesma rodada. O Leão jogou em bloco baixo durante boa parte do segundo tempo, sem ambição de buscar o gol, o que gerou uma atmosfera de resignação no Estádio Manoel Barradas. Taticamente, o 4-4-2 compacto do Vitória funcionou como escudo, mas não como lança.
O Vasco, por sua vez, demonstrou os mesmos problemas crônicos que têm marcado sua temporada: dificuldade de criar jogadas elaboradas contra blocos defensivos organizados, dependência excessiva de individualidades e uma transição ofensiva lenta demais para explorar os espaços. As entradas de Spinelli e Rojas trouxeram mais dinamismo, mas sem tempo suficiente para reverter o cenário. Conforme registrado por SportNavo ao longo da temporada, o clube carioca já desperdiçou ao menos seis pontos em jogos que controlou taticamente mas não soube converter em vitória — e este foi mais um capítulo dessa série.
E agora, o que esperar
O empate mantém os dois clubes em situação de atenção na tabela. O Vitória, que precisa de pontos para se afastar da zona de rebaixamento, soma mais um resultado sem derrota, mas o aproveitamento em casa continua aquém do necessário para qualquer pretensão de estabilidade. O Vasco, que mira uma vaga no G-8 para garantir acesso às competições continentais em 2027, vê o ponteiro de desempenho fora de casa estagnar — e a janela de transferências de julho pode ser o momento decisivo para reforçar o setor ofensivo, especialmente com a saída iminente de Brenner do time titular. Na 20ª rodada, os dois clubes terão compromissos que exigirão respostas mais concretas do que as oferecidas nesta quinta-feira no Barradão.
Confesso: eu errei sobre o Vitória em 2026. Achei que o clube baiano não teria fôlego para segurar um Vasco em busca de reabilitação — e hoje vejo o porquê.










