Voltou. Não pela porta larga da consagração, nem carregado em ombros pela torcida, mas por um caminho mais árido — o da regularidade acumulada jogo a jogo no gramado da Vila Belmiro. Neymar, 34 anos, foi anunciado nesta segunda-feira (18) no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, entre os 26 convocados de Carlo Ancelotti para a Copa do Mundo de 2026, e a reação da sala foi imediata: os presentes se levantaram em coro, transformando o evento protocolar em algo próximo de uma arquibancada de decisão.

O que Ancelotti monitorou nos bastidores durante meses

A comissão técnica italiana não tomou a decisão na véspera. Segundo informações reveladas após o anúncio, o atacante do Santos foi avaliado ao longo de todo o ano de 2026. O critério central não era genialidade — isso Neymar já provou em décadas de carreira. O que Ancelotti precisava ver era continuidade. E, neste ciclo, essa palavra tinha um peso específico: o atleta não havia sido chamado em nenhuma das cinco listas anteriores do treinador italiano à frente da Seleção Brasileira.

A última vez que Neymar vestiu a camisa amarela havia sido em outubro de 2023, nas Eliminatórias contra o Uruguai — partida em que sofreu a ruptura do ligamento cruzado anterior do joelho esquerdo, a lesão mais grave de sua carreira. O retorno ao Santos, em 2025, foi marcado por interrupções. A virada aconteceu em 2026, quando o jogador encadeou sequências de partidas com minutagem crescente e passou a atuar como centroavante mais centralizado no esquema do clube paulista.

"Fizemos a avaliação do Neymar o ano todo, e vimos que neste último período ele jogou com continuidade, melhorou sua condição física. Pensamos que ele é um jogador importante, e será um jogador importante nesta Copa do Mundo", declarou Ancelotti em coletiva após o anúncio.

O treinador acrescentou ainda que o atleta tem a possibilidade de seguir evoluindo fisicamente até o primeiro jogo da Copa, marcado para 13 de junho contra Marrocos, no MetLife Stadium, em Nova Jersey.

Os números no Santos que mudaram a equação de Ancelotti

Há uma cena em Moneyball, o filme de 2011 sobre Brad Pitt gerenciando o Oakland Athletics com estatísticas em vez de intuição, em que o personagem central insiste: "eu não contrato jogadores, eu compro vitórias". A lógica de Ancelotti com Neymar em 2026 segue trilha semelhante — não foi o prestígio do nome que abriu a convocação, foram os dados de campo acumulados ao longo do Brasileirão.

Segundo apuração do SportNavo, Neymar somou participações diretas em gols em sequências de ao menos três rodadas consecutivas no Campeonato Brasileiro de 2026, algo que não havia conseguido fazer em nenhum período desde o retorno ao Brasil. A condição de atacante centralizado no Santos — diferente da posição de extrema pela esquerda que marcou sua carreira histórica no Barcelona e no PSG — permitiu ao jogador economizar deslocamentos e concentrar energia nas ações decisivas dentro da área.

Essa reconfiguração tática no Santos é o dado que mais pesa na decisão de Ancelotti.

"Como atacante mais centralizado. Estamos de acordo? Para o dia 31, temos o jogo contra o Panamá, um amistoso de despedida do povo brasileiro, vou colocar o maior número de jogadores possível", explicou o técnico ao detalhar como imagina usar o camisa 10 na Copa.

A experiência como fator e o peso histórico da convocação

Comparar gerações exige cautela com os dados. Nas quatro Copas em que disputou, Neymar marcou 8 gols — 4 em 2014 (incluindo a lesão que o tirou das semifinais), 2 em 2018 e 2 em 2022, no Catar. Seu aproveitamento como artilheiro da Seleção em Mundiais o coloca acima de nomes como Rivaldo (5 gols em Copas) e Ronaldinho Gaúcho (3), mas abaixo de Ronaldo Fenômeno, que marcou 15 ao longo de quatro edições entre 1994 e 2006. Em 2026, Neymar chega não como protagonista absoluto, mas como peça de experiência em um grupo que inclui jovens como Rayan, do Bournemouth, convocado pela segunda vez na carreira.

A convocação repercutiu internacionalmente. O diário francês L'Équipe classificou Neymar como "a surpresa" da lista. O argentino Olé chamou de "o milagre de Neymar". O alemão Bild destacou a "superestrela" convocada. O alcance simbólico do nome é inegável — mas Ancelotti foi cirúrgico ao separar símbolo de garantia.

"Quero ser limpo e honesto. Ele vai jogar se merecer jogar. Temos treino, e o gramado do treino vai decidir quem vai jogar. Não quero estrelas, quero jogadores disponíveis para ajudar a equipe a ganhar os jogos", afirmou o técnico.

A lista completa do ataque reúne também Vinicius Jr. (Real Madrid), Raphinha (Barcelona), Gabriel Martinelli (Arsenal), Matheus Cunha (Manchester United), Endrick (Lyon), Igor Thiago (Brentford), Luiz Henrique (Zenit) e Rayan (Bournemouth) — nove atacantes para uma Copa que o Brasil estreia no dia 13 de junho. O amistoso de despedida contra o Panamá, no Maracanã em 31 de maio, será o primeiro teste real de Neymar com a camisa amarela desde aquele outubro de 2023 em Montevidéu.