"Ele é impossível de parar quando está em velocidade." A frase circulou nos bastidores da Roma depois da goleada sobre a Fiorentina, na segunda-feira (04), quando Wesley acertou um chutaço na gaveta de David De Gea — ex-Manchester United — para marcar um dos gols da partida pela 35ª rodada do Campeonato Italiano. Quem disse foi um membro da comissão técnica de Gian Piero Gasperini, e os dados da temporada inteira sustentam cada palavra.

O número que resume a temporada de Wesley na Roma

77 faltas sofridas em 37 jogos. Wesley é o jogador que mais foi derrubado em toda a equipe romana na temporada 2025/26, segundo o Sofascore. Esse número não é acidental — ele é o produto direto de um perfil técnico bastante específico: o lateral cria situações de desequilíbrio em velocidade, obrigando adversários a interromper jogadas com o corpo quando não conseguem fazer isso com posicionamento.

Em termos de análise moderna, esse dado conecta diretamente com o conceito de progressive carries — conduções de bola em direção ao gol adversário. Quanto mais um jogador avança com a bola em espaços reduzidos, mais faltas ele tende a sofrer. Wesley faz exatamente isso nas duas funções que Gasperini lhe atribui: lateral direito e ala esquerda, dependendo do esquema do dia.

A versatilidade posicional, aliás, é outro dado relevante. Atuar em ambas as laterais exige leitura tática diferente, cobertura de espaço distinta e padrões de defensive actions completamente opostos. O fato de Wesley ter zerado os erros defensivos graves — zero na temporada inteira — enquanto transita entre as duas funções é, tecnicamente, impressionante.

O que os números completos revelam sobre o ex-Flamengo

Seria injusto chamar de era o que Wesley está vivendo na Roma — mas é uma era em escala doméstica para um jogador formado no Ninho do Urubu que chegou à Europa na metade de 2025. Os números da temporada 2025/26 contam uma história mais precisa do que qualquer adjetivo:

  • 37 jogos disputados
  • 5 gols marcados
  • 1 assistência
  • 10 grandes chances criadas
  • 194 duelos ganhos
  • 73 desarmes
  • 77 faltas sofridas — maior do elenco
  • 147 bolas recuperadas
  • 0 erros defensivos graves

Três métricas merecem atenção especial aqui. As 10 grandes chances criadas indicam que Wesley não apenas conduz — ele gera situações reais de gol para os companheiros, o que se aproxima do conceito de xA (expected assists), ou seja, a probabilidade acumulada de que suas jogadas resultem em gol. Um lateral com esse volume de criação de chances é raro mesmo em contexto europeu.

Os 73 desarmes combinados com 147 bolas recuperadas pintam um quadro de intensidade defensiva altíssima — o que no vocabulário atual seria descrito como contribuição sólida para o PPDA do time (passes permitidos por ação defensiva). Em outras palavras: Wesley não é só um lateral que sobe; ele pressiona, recupera e retorna. O equilíbrio entre as fases é o que Gasperini exige no seu modelo, e o brasileiro entregou.

"Carlo Ancelotti já convocou Wesley cinco vezes desde que assumiu a Seleção Brasileira", confirmou a assessoria da CBF, sinalizando que o lateral virou nome recorrente no planejamento do técnico italiano para a Copa do Mundo.

Wesley pode ser a surpresa de Ancelotti na Copa do Mundo

A Copa do Mundo começa no dia 11 de junho, e Ancelotti tem um problema interessante na lateral direita da Seleção Brasileira. A posição nunca foi exatamente um ponto pacífico no esquema nacional nos últimos ciclos, e a chegada de Wesley à Roma — com esse volume de atuações e esse perfil técnico — abre uma discussão real sobre titularidade.

Do ponto de vista tático, o que Wesley oferece à Seleção é diferente do perfil clássico de lateral defensivo. Seu progressive passing — capacidade de avançar a bola em direção ao terço final com passes em profundidade — combinado com a habilidade de carregar a bola em velocidade cria um corredor direito muito mais dinâmico. Isso se encaixa bem num esquema de Ancelotti que, historicamente, valoriza laterais que dobram como alas quando a equipe tem a posse.

A experiência de atuar como ala esquerda sob Gasperini também não é detalhe. Significa que Wesley entende de sobreposições, de timing para chegar na área e de como se comportar quando o time está em fase ofensiva — habilidades que um lateral convencional muitas vezes não desenvolve. Ancelotti, que moldou Dani Carvajal no Real Madrid durante anos, sabe exatamente o valor de um lateral que lê o jogo nas duas fases com essa clareza.

"Ele tem muita qualidade. Evolui muito desde que chegou aqui", disse Gasperini em entrevista coletiva após a vitória sobre a Fiorentina, referindo-se ao desempenho de Wesley na goleada.

A questão que ainda precisa de resposta é física: Wesley chega à Copa com ritmo de jogo alto, tendo disputado 37 partidas na temporada, mas o acúmulo de faltas sofridas — 77 — também significa 77 impactos, 77 interrupções de velocidade. Como o corpo do lateral vai responder a uma competição de alta intensidade com poucos dias de recuperação entre jogos é a variável que Ancelotti e sua comissão técnica precisam monitorar de perto.

A Roma encerra a temporada da Serie A com as últimas rodadas em maio, e Wesley deve estar disponível para a pré-Copa do Brasil já na segunda semana de junho — o que deixa uma janela curta, mas suficiente, de preparação antes da estreia da Seleção no dia 11.