Confesso: eu achei que Weverton ia encerrar a carreira no Palmeiras. Parecia óbvio — 454 jogos, 12 títulos, ídolo consolidado. Hoje, vendo a apresentação dele na Arena do Grêmio, entendo que errei a leitura. Não era sobre encerrar. Era sobre recomeçar.

O buraco no gol gremista que ninguém conseguiu tapar desde Grohe

Desde que Marcelo Grohe deixou o Grêmio em 2019, o clube gaúcho testou 12 goleiros diferentes na posição. De Paulo Victor a Tiago Volpi, nenhum se firmou como titular indiscutível. São sete anos de instabilidade numa posição que, no futebol moderno, exige consistência acima de tudo. O Grêmio chegou a 2026 sem um dono da meta — e foi buscar solução no mercado com um nome de peso.

Weverton Pereira da Silva, 38 anos, nascido em Rio Branco (AC), foi apresentado oficialmente na Arena na tarde de sexta-feira. Assinou contrato até 31 de dezembro de 2028, o que significa que pode defender o Tricolor Gaúcho até os 41 anos. A negociação foi facilitada por Luiz Felipe Scolari, atual coordenador técnico do clube, que entrou em contato direto com o goleiro para convencê-lo do projeto.

O Palmeiras não cobrou nada pela liberação. O clube paulista queria renovar por mais uma temporada, até o final de 2027, mas Weverton entendeu que seu ciclo tinha chegado ao fim — especialmente depois de perder a titularidade para Carlos Miguel na reta final de 2025, quando sofreu uma fissura num osso da mão direita. Ficar no banco não estava nos planos.

O que 454 jogos e 12 títulos pelo Palmeiras dizem sobre o que o Grêmio está contratando

A trajetória de Weverton no Palmeiras é, sem exagero, uma das mais vitoriosas de um goleiro na história recente do futebol brasileiro — seria injusto chamar de era, mas é uma era em escala doméstica. Ele chegou em 2018, foi eleito o melhor goleiro do Brasileirão já na primeira temporada e se tornou peça central do time de Abel Ferreira que conquistou duas Libertadores consecutivas, em 2020 e 2021.

No total, os 12 títulos incluem dois Campeonatos Brasileiros, uma Copa do Brasil, quatro Campeonatos Paulistas, uma Recopa Sul-Americana e uma Supercopa do Brasil. Ele divide o posto de maior campeão da história do clube com outros seis atletas. São números que chegam ao Grêmio junto com a mochila — e a pressão vem embutida.

Antes do Palmeiras, Weverton passou seis anos no Athletico-PR, onde também deixou marca. Em 2013, foi destaque no time que terminou vice-campeão da Copa do Brasil e terceiro no Brasileirão. Ficou conhecido como pegador de pênaltis — em outubro de 2015, defendeu cinco cobranças numa vitória por 1 a 0 contra o Fluminense no Maracanã. A carreira dele é construída em cima de momentos decisivos.

Na coletiva de apresentação, o goleiro foi direto sobre o que motivou a mudança:

"Eu sou um atleta de alta performance, que ama o que faz. Quem me acompanha sabe o quanto eu dedico tempo das minhas férias para alimentar meu corpo e a saúde, é isso que me faz performar em alto nível. O Fábio é um grande exemplo do quanto um goleiro dedicado é capaz de atuar em alto nível com 45 anos. Eu com 38 anos tenho muita lenha para queimar."

A referência a Fábio, goleiro titular do Fluminense aos 45 anos, não é aleatória. É um argumento técnico e psicológico ao mesmo tempo — Weverton está dizendo que longevidade de alto nível é possível, e que ele tem exemplos concretos para se basear.

Weverton titular aos 38 anos é aposta ou risco calculado para o Grêmio

O SportNavo mapeou o histórico de goleiros que chegaram ao Grêmio após os 35 anos nas últimas duas décadas — nenhum ficou mais de duas temporadas como titular absoluto. Weverton tem contrato por três anos. A ambição é clara, mas o desafio é real.

O próprio goleiro reconhece que o papel vai além das defesas. Na apresentação, falou sobre o impacto que quer ter no vestiário gremista:

"Hoje, a gente gosta de ensinar, de passar experiência, de dizer 'daqui uns dias vai acontecer isso na tua vida'. O vestiário é algo sagrado. Só se faz equipe vencedora se todo mundo tiver vontade de abrir mão do seu próprio ego e suas vontades, para colocar tudo no objetivo de fazer o Grêmio mais forte. A minha principal função é fechar o gol, mas também contribuir com a minha experiência."

Esse posicionamento tem impacto direto nas redes sociais do clube. Desde o anúncio oficial, o perfil do Grêmio no Instagram registrou crescimento expressivo de seguidores e o post de apresentação de Weverton ultrapassou 200 mil curtidas nas primeiras 24 horas — o maior engajamento em publicação de contratação do clube nos últimos três anos. No X (antigo Twitter), o nome do goleiro ficou entre os assuntos mais comentados do Brasil por mais de seis horas.

A questão técnica, porém, é o que realmente importa. O Grêmio disputa o Brasileirão 2026 e precisa de estabilidade no gol para brigar por posições na tabela. Weverton chega com o histórico de quem performou em alto nível sob pressão — as duas Libertadores com o Palmeiras foram conquistadas em momentos em que o goleiro foi decisivo em sequências de pênaltis e defesas difíceis.

A dúvida que fica é sobre o impacto físico de uma temporada completa aos 38 anos. Carlos Miguel assumiu o gol do Palmeiras exatamente quando Weverton se lesionou — e o goleiro mais jovem se saiu bem. A questão não é se Weverton ainda tem qualidade. É se o corpo aguenta o ritmo de 50 a 60 jogos por ano sem abrir brechas para o desgaste.

Weverton estreia com a camisa gremista no Brasileirão 2026, competição que o Grêmio inicia com o objetivo de brigar por vaga na Libertadores. O primeiro teste real de quanto o goleiro ainda tem para dar começa agora — e a resposta vai aparecer nos próximos meses, jogo a jogo.

Confesso: eu errei sobre Weverton em 2024. E hoje vejo o porquê — ele nunca foi só sobre o Palmeiras. Foi sempre sobre o próximo desafio.