No silêncio do Centro de Treinamento da CBV, em Saquarema, as palavras de José Roberto Guimarães ecoam como um alerta urgente. O homem que transformou o vôlei brasileiro numa potência mundial, com seus quase 60 anos dedicados à modalidade, não esconde a preocupação: "A crise de investimentos no vôlei é real e preocupante". Aos 70 anos, Zé Roberto planeja encerrar sua trajetória histórica após Los Angeles-2028, mas deixa um legado que vai muito além das medalhas - um diagnóstico preciso sobre o momento delicado que nossa modalidade atravessa.
O Retrato de uma Crise Silenciosa
Quem acompanha os bastidores dos ginásios sabe que a realidade financeira do vôlei brasileiro mudou drasticamente. Clubes tradicionais como o Banespa e o BCN fecharam suas portas, patrocinadores reduziram investimentos e até mesmo a Superliga enfrenta desafios para manter seu padrão de excelência. Zé Roberto, que vivenciou as épocas áureas da modalidade nos anos 90 e 2000, observa com tristeza essa transformação. "Se tudo correr bem", ele pretende se despedir em solo americano, mas o cenário atual exige muito mais do que esperança - demanda ação urgente.
Comparativo Cruel: Vôlei vs. Outras Modalidades
Enquanto o futebol movimenta bilhões e o basquete americano cresce exponencialmente no Brasil, nosso vôlei - bicampeão olímpico e referência mundial - luta para manter sponsorships básicos. A diferença é gritante: um jogador mediano da Série A do Campeonato Brasileiro pode ganhar mais que um MVP da Superliga.
"Precisamos repensar nosso modelo de negócio antes que seja tarde demais", alertou recentemente um dirigente que prefere não se identificar. É um contraste doloroso para quem, como este repórter, vivenciou a explosão de popularidade do vôlei nas décadas passadas.
As Consequências Práticas da Crise
Os números não mentem: a Superliga Masculina tinha 12 equipes em 2018 e hoje opera com dificuldades para manter 10 times competitivos. Atletas brasileiros de alto nível migram para ligas europeias não apenas por ambição esportiva, mas por necessidade financeira. Categorias de base sofrem cortes orçamentários, comprometendo a formação de futuras gerações. No Ginásio do Ibirapuera, onde presenciei tantas batalhas épicas, a torcida ainda faz diferença, mas os recursos para manter esse espetáculo diminuem a cada temporada.
O Legado e o Futuro nas Mãos de Zé Roberto
Com Los Angeles-2028 no horizonte, Zé Roberto carrega uma responsabilidade dupla: entregar mais uma campanha de sucesso para o vôlei feminino brasileiro e preparar o terreno para seus sucessores. Sua experiência é insubstituível - são décadas conhecendo cada nuance tática, cada aspecto psicológico do esporte de alto rendimento. Mas seu maior legado talvez seja este alerta tempestivo sobre a sustentabilidade da modalidade. O vôlei brasileiro precisa de um novo modelo econômico, que combine paixão do torcedor, visão empresarial e apoio governamental. Porque quando um técnico do quilate de Zé Roberto se preocupa publicamente, é porque o momento é mesmo crítico.

