Quando você pensa em vôlei brasileiro, é impossível não lembrar do homem que há quase seis décadas respira este esporte. José Roberto Guimarães, o nosso eterno Zé Roberto, carrega consigo uma trajetória que se confunde com a própria história do vôlei nacional. Aos 70 anos, com quase 60 anos de dedicação integral ao esporte, o técnico mineiro já projeta sua despedida para as Olimpíadas de Los Angeles, em 2028 — se tudo correr bem, como ele mesmo costuma dizer com aquela cautela característica de quem conhece os bastidores do esporte como ninguém.

O Arquiteto do Vôlei Brasileiro

No ginásio do Ibirapuera, onde tantas vezes vi Zé Roberto comandar treinos com a precisão de um maestro, é difícil imaginar o vôlei brasileiro sem sua presença. Desde os anos 1980, quando ainda era jogador, até hoje, comandando a seleção feminina, ele construiu um legado que transcende medalhas e títulos. Foram 12 medalhas olímpicas conquistadas — duas como atleta e dez como técnico — um feito que poucos no mundo podem igualar.

O que mais me impressiona em Zé Roberto não são apenas os números, mas a capacidade de reinvenção. Lembro-me das conversas nos corredores do CT da CBV, onde técnicos mais jovens sempre procuram seus conselhos. Ele moldou gerações inteiras: de Fofão e Paula nos anos 1990, passando por Sheilla e Fabiana na era dourada dos anos 2000, até as atuais estrelas como Gabi e Carol Solberg. Cada uma dessas atletas carrega um pouco do DNA tático e emocional de Zé Roberto.

A Crise que Preocupa o Mestre

Mas nem tudo são flores no mundo que Zé Roberto ajudou a construir. Em recentes declarações, o técnico não escondeu sua preocupação com a crise de investimentos no vôlei brasileiro. "O esporte precisa de estrutura, de investimento contínuo", comentou ele, tocando em um ponto sensível que nós, que cobrimos o dia a dia da Superliga, conhecemos bem. A saída de grandes patrocinadores e a dificuldade de manter clubes competitivos são realidades que assombram nosso vôlei.

"Quase 60 anos de dedicação me ensinaram que o vôlei é mais que um jogo — é uma escola de vida. Mas precisamos cuidar dessa escola para que ela continue formando campeões."

O Legado que Transcende Quadras

Quando penso em LA-2028 como a possível despedida de Zé Roberto, sinto um misto de nostalgia e gratidão. Este homem não apenas venceu — ele ensinou uma nação inteira a amar o vôlei. Nos ginásios pelo Brasil afora, desde o Mineirinho em Belo Horizonte até o Maracanãzinho no Rio, a influência de Zé Roberto é sentida em cada saque, em cada defesa, em cada comemoração da torcida.

Seu método de trabalho, sempre baseado na disciplina tática e no cuidado emocional com as atletas, criou uma escola brasileira de vôlei reconhecida mundialmente. Não é à toa que técnicos formados sob sua tutela estão espalhados pelo mundo, levando o conhecimento brasileiro para quadras na Europa, Ásia e América do Sul. O vôlei brasileiro de hoje — técnico, emotivo e eficiente — tem a digital de Zé Roberto impressa em cada jogada.

Enquanto aguardamos os próximos capítulos dessa história extraordinária, uma coisa é certa: quando Zé Roberto decidir pendurar as chuteiras técnicas, deixará um vazio que será difícil de preencher. Mas também deixará uma herança rica em conhecimento, paixão e resultados que continuará inspirando futuras gerações. Afinal, 60 anos de dedicação não se apagam com uma despedida — eles se eternizam na grandeza de tudo o que foi construído.