Domingo, 15 de junho de 2026. O torneio mais assistido do planeta mal havia completado sua primeira semana de jogos quando 13 federações de futebol decidiram que era hora de responder. O alvo: Aleksander Ceferin, presidente da Copa do Mundo da Uefa, que havia classificado partidas do novo formato com 48 seleções como confrontos "desinteressantes" para o público geral. A reação foi imediata, coordenada e politicamente pesada.

O manifesto conjunto reuniu as federações de Cabo Verde, Curaçao, Uzbequistão, Congo, Haiti, Argélia, Tunísia, Marrocos, Egito, Gana, Senegal, Costa do Marfim e África do Sul — um bloco que representa geografias, histórias e futebolísticas completamente distintas, mas que encontrou uma causa comum: rebater o que chamaram de visão elitista do dirigente europeu.

O que Ceferin disse e por que a fala explodiu agora

A faísca foi simples, mas caiu num barril de pólvora. Ceferin criticou abertamente a expansão do torneio promovida pela Fifa, argumentando que o novo modelo de 48 seleções geraria uma enxurrada de confrontos sem apelo técnico para o público. A declaração chegou num momento em que países africanos e caribenhos estavam literalmente disputando jogos na Copa — e, em alguns casos, surpreendendo potências tradicionais dentro das quatro linhas.

O timing importa muito aqui. Quando um dirigente do porte de Ceferin fala em jogos "sem interesse", o subentendido que ecoa nos bastidores é: quais jogos? Quais seleções? E a resposta implícita, para as federações signatárias, era óbvia demais para ser ignorada. O comunicado, conforme registrado pelo SportNavo, rebateu o argumento ponto a ponto.

"Para os nossos países, não existe algo como um jogo de Copa do Mundo sem importância. Para nossos países, a classificação para a Copa do Mundo da Fifa representa uma conquista histórica e a realização de um sonho compartilhado por gerações."

A frase já circula como lema informal das seleções consideradas azarãs neste Mundial. E ela carrega um peso que vai muito além do retórico.

Por que as federações 'pequenas' leram isso como ameaça ao seu crescimento

Aqui entra a camada mais interessante da discussão — e onde vale pensar com dados. Quando falamos em "desenvolvimento do futebol", não estamos falando só de sentimento. Estamos falando de métricas concretas de evolução coletiva.

Seleções como Marrocos e Senegal construíram identidades táticas nos últimos ciclos que são mensuráveis. O Marrocos, por exemplo, chegou ao Qatar 2022 com um dos melhores índices de PPDA (passes permitidos por ação defensiva) entre as equipes africanas — uma métrica que mede a intensidade da pressão defensiva. Quanto menor o PPDA, mais agressivo o time pressa o adversário. Times como o Bayern de Munique e o Manchester City operam historicamente abaixo de 8.0 nessa métrica em fases decisivas; o Marrocos de Regragui registrou valores próximos a 9.5, o que para uma seleção africana em Copa é estatisticamente expressivo.

  • PPDA baixo = pressão alta e organizada = futebol moderno, não amador
  • xG (expected goals) acima de 1.0 por jogo = criação de chances reais, não chutes aleatórios
  • Progressive passes = passes que avançam o jogo em direção ao gol adversário — métrica que diferencia equipes com proposta clara de jogo

Cabo Verde, por sua vez, chegou a esta edição com uma das maiores taxas de progressive passes por 90 minutos entre as estreantes — indicador de que o time não veio apenas para defender e torcer. E Curaçao, que construiu uma campanha invicta nas eliminatórias da Concacaf, apresentou métricas de xA (expected assists) acima de 0.8 por jogo nas últimas rodadas classificatórias, mostrando criatividade ofensiva real.

Classificar jogos dessas seleções como "desinteressantes" é, do ponto de vista analítico, uma afirmação que os números simplesmente não sustentam.

"Para muitos países, a participação na Copa do Mundo da Fifa não é apenas uma conquista esportiva. É um momento que inspira uma geração, acelera o desenvolvimento do futebol e cria memórias que duram para a vida toda", diz trecho do manifesto conjunto das 13 federações.

A fratura entre Uefa e Fifa e o que está em jogo daqui pra frente

A nota das 13 federações não é só um desabafo — é um movimento político. Ceferin representa a Uefa, que historicamente detém o maior volume de receitas do futebol global e tem interesse direto em que o calendário internacional não concorra com as competições europeias de clubes. A expansão da Copa para 48 seleções, promovida por Gianni Infantino na Fifa, dilui o poder simbólico da Europa como centro gravitacional do esporte.

O bloco signatário — capitaneado por nações da África, Ásia e Américas — representa exatamente o eleitorado que Infantino vem cortejando há anos dentro da Fifa. Ao atacar Ceferin publicamente, essas federações estão também sinalizando lealdade institucional à entidade que abriu a porta para elas. A pressão política agora está do lado do presidente da Uefa, acusado de menosprezar a natureza global do esporte.

A resposta de Ceferin às críticas não veio até o fechamento desta reportagem. O prazo para que a Uefa se posicione formalmente sobre o manifesto expira antes da segunda rodada de jogos do Grupo A, marcada para a próxima terça-feira — e qualquer silêncio prolongado será lido, nos corredores da Fifa, como uma derrota de narrativa.

É o mesmo cenário que a Uefa viveu em 2021, quando tentou emplacar a Superliga Europeia e foi derrubada pela pressão coordenada de torcidas, clubes e federações nacionais — só que agora a aposta é diferente, porque as vozes que se levantam vêm de fora da Europa, e o mundo está assistindo.