Voltou. Depois de 981 dias afastado da Seleção Brasileira, Neymar surgiu sorridente no gramado do centro de treinamentos em Nova Jersey nesta sexta-feira (26), conversou com jornalistas e participou normalmente da atividade preparatória para o duelo das oitavas de final contra o Japão, marcado para segunda-feira (29). A cena contrastava com a tensão habitual dos dias anteriores — e sinalizou uma mudança de tom na preparação brasileira.

O treino que mudou a rotina da Seleção em Nova Jersey

Diferentemente dos últimos dias, quando os atletas chegavam ao gramado de forma espaçada, todo o elenco apareceu junto, em fila indiana, quebrando o protocolo adotado pela comissão técnica de Carlo Ancelotti desde o início da Copa do Mundo. Entre os jogadores que iniciaram os trabalhos no campo principal estavam apenas dois titulares da vitória por 3 a 0 sobre a Escócia: Vini Jr. e Douglas Santos. Rayan, que também começou jogando na última rodada da fase de grupos, participou normalmente das atividades.

O clima descontraído teve Neymar como protagonista involuntário. Ao cruzar com Igor Thiago no corredor de acesso ao gramado, o camisa 10 avisou os jornalistas presentes, em tom de brincadeira, que era aniversário do atacante — um gesto pequeno, mas revelador do estado de espírito do grupo. Os goleiros realizaram atividades separadas e sem a presença de Alisson. Na sequência, todo o elenco migrou para um campo anexo, onde cumpriu uma sequência de trabalhos físicos sem bola, exercícios de troca de passes em duplas diante de bonecos e, por fim, treinos de saída de bola com a participação dos arqueiros. A partir daí, a atividade foi fechada — procedimento que se repetirá até a definição do time que enfrentará os japoneses.

O treino que mudou a rotina da Seleção em Nova Jersey Ancelotti repete escalação
O treino que mudou a rotina da Seleção em Nova Jersey Ancelotti repete escalação
"Completa em todos os aspectos" — foi assim que Carlo Ancelotti classificou a atuação do Brasil na vitória sobre a Escócia, segundo relato da comissão técnica após a partida.

A formação repetida e o que isso significa taticamente contra o Japão

A satisfação de Ancelotti com o desempenho diante dos escoceses tem uma consequência direta e inédita: pela primeira vez desde que assumiu o comando da Seleção, o técnico italiano terá a chance de repetir exatamente a mesma formação em dois jogos consecutivos. Ao longo da fase de grupos, o treinador utilizou combinações distintas em cada partida — uma flexibilidade que gerou debates, mas também resultados: o Brasil terminou o Grupo C na primeira colocação.

A estabilidade tática tem peso estratégico considerável diante do Japão de Hajime Moriyasu, seleção conhecida pela organização defensiva em bloco baixo e transições rápidas. O esquema japonês exige que o adversário tenha paciência para circular a bola e precisão nos momentos de aceleração — exatamente o tipo de jogo que o losango de Ancelotti, com Vini Jr. e Raphinha nas extremidades, tende a explorar. Repetir a formação significa também que os jogadores entram em campo com os mecanismos automáticos já calibrados, algo que a distância entre um treino e uma partida decisiva — menor do que a distância entre Manaus e Belém, mas suficiente para consolidar padrões — pode fazer diferença nos primeiros 20 minutos.

A questão que permanece em aberto é o papel de Neymar. Recuperado fisicamente e de volta ao grupo após quase três anos, o camisa 10 treinou sem restrições, mas Ancelotti não confirmou se o jogador entrará como titular ou como opção no banco. A decisão, segundo apurado em matéria do SportNavo, deve ser anunciada apenas nos momentos finais da preparação, seguindo o padrão de sigilo adotado pela comissão técnica ao longo do torneio.

"Neymar está bem", afirmou membro da comissão técnica brasileira, sem detalhar se o jogador seria utilizado desde o início contra os japoneses.

A decisão que Ancelotti precisa tomar antes de segunda-feira

A mesa de decisão de Ancelotti tem pelo menos duas variáveis de peso. A primeira é Neymar: inseri-lo no time titular significaria alterar justamente a formação que o técnico classificou como "completa" — uma contradição que o próprio treinador terá de resolver. A segunda é o adversário: o Japão chegou às oitavas com uma das melhores defesas da fase de grupos, concedendo apenas um gol em três partidas, e Moriyasu já demonstrou capacidade de adaptar o esquema conforme o perfil do rival.

O histórico recente entre as seleções pesa para o lado brasileiro. Em 2006, o Brasil venceu o Japão por 4 a 1 em amistoso — mas aquela geração japonesa pouco tem a ver com a atual, treinada em um modelo de alta intensidade e com jogadores formados nas principais ligas europeias. A Seleção entra como favorita, mas a margem para erros no mata-mata é zero.

O jogo está marcado para segunda-feira (29) em Nova Jersey, no MetLife Stadium. Se Neymar começar entre os titulares, será sua primeira partida como starter em uma Copa do Mundo desde julho de 2022 — e o primeiro teste real para saber se o retorno do camisa 10 é uma peça a mais ou uma variável que desequilibra o sistema que Ancelotti levou três rodadas para afinar. Caso o técnico opte por mantê-lo no banco, a dúvida permanece: em que momento do jogo — e com qual placar — Neymar entraria para decidir?