O que, afinal, ainda conecta o Brasil que perdeu de virada por 3 a 2 para o Japão em outubro de 2025 com a seleção que enfrenta os Samurais Azuis nesta segunda-feira (29), em Houston, valendo uma vaga nas quartas de final da Copa do Mundo? A pergunta não é retórica por elegância jornalística — ela tem peso real, porque a resposta muda a leitura tática do jogo. Ancelotti tinha um laboratório em Tóquio; agora tem um time.
Naquele amistoso disputado na capital japonesa, o Brasil controlou o primeiro tempo com autoridade. Lucas Paquetá comandou a criação, serviu Bruno Guimarães na jogada que originou o primeiro gol de Paulo Henrique, e ainda deu a assistência para o segundo, convertido por Gabriel Martinelli. Parecia um passeio — até Ancelotti promover trocas no intervalo que desestruturaram o meio-campo. Com a entrada de Caio Henrique e Joelinton, a solidez desapareceu. Fabrício Bruno errou aos seis minutos da etapa final, Minamino aproveitou, Nakamura empatou aos 16 e Ueda superou Lucas Beraldo no alto aos 25 para decretar a virada: 3 a 2, primeira derrota histórica do Brasil para o Japão.
Dos 11 titulares em Tóquio, apenas sete sobreviveram à convocação para a Copa
A seleção escalada por Ancelotti naquele amistoso — Hugo Souza; Paulo Henrique, Fabrício Bruno, Lucas Beraldo e Carlos Augusto; Bruno Guimarães, Casemiro, Lucas Paquetá; Luiz Henrique, Gabriel Martinelli e Vinícius Júnior — representa hoje um retrato de transição. Dos 11, apenas sete estão no Mundial: Casemiro, Bruno Guimarães, Paquetá, Vinicius Júnior, Luiz Henrique, Martinelli e Matheus Cunha. Estêvão e Rodrygo, que entraram no segundo tempo em Tóquio, foram cortados por lesão antes da Copa. A espinha dorsal permanece, mas o entorno mudou.
A campanha brasileira na fase de grupos confirmou essa transformação. O Brasil iniciou com empate diante do Marrocos, venceu o Haiti com segurança e encerrou a chave goleando a Escócia por 3 a 0, com destaque absoluto de Vinicius Júnior — avaliado com nota média 7,9 pelos leitores do Lance!, bem acima de qualquer outro jogador do elenco, conforme registrado pelo SportNavo ao longo da fase inicial. A equipe terminou o Grupo C na liderança, com sete pontos, e chegou ao mata-mata sem conhecer derrota. Nesta sexta-feira (26), durante o primeiro treino pós-fase de grupos, os titulares que mais atuaram contra a Escócia ficaram em trabalho regenerativo — Alisson, Marquinhos, Gabriel Magalhães, Casemiro, Bruno Guimarães, Paquetá e Matheus Cunha não pisaram no gramado. Apenas Vini Jr., Rayan e Douglas Santos treinaram com o grupo.
O Japão que chega a Houston não é o mesmo que apostou no contra-ataque em Tóquio
Do lado japonês, a evolução é igualmente visível. Em outubro de 2025, Hajime Moriyasu escalou um time que soube explorar as fragilidades brasileiras nas transições — e Minamino, Nakamura e Ueda foram os executores. Na Copa do Mundo 2026, os Samurais Azuis chegaram ao mata-mata invictos, com cinco pontos no Grupo F: empate por 2 a 2 com a Holanda, goleada de 4 a 0 sobre a Tunísia e novo empate, 1 a 1, com a Suécia. É uma campanha que combina solidez defensiva com capacidade de pressão coletiva.
A torcida japonesa reconhece a evolução, mas mantém os pés no chão. "Eles estão fazendo uma boa Copa até agora e têm feito um excelente trabalho em equipe, incluindo os reservas. Eles não estão satisfeitos com todos os resultados, por isso estão encarando cada jogo de diferentes maneiras", avalia Riko, 25 anos, torcedora entrevistada em Paris. Já Akira, de 29, faz um diagnóstico mais cirúrgico:
"Acho que o Japão é forte quando tudo se encaixa, pois os jogadores são talentosos e o técnico tem uma visão tática genial. Mas, infelizmente, não os vejo conquistando o Mundial, porque os jogadores japoneses são muito passivos e tendem a apostar em contra-ataques em vez de tomarem a iniciativa do ataque."
Essa passividade estrutural — que em Tóquio foi uma arma, não uma fraqueza — pode ser o ponto de tensão central em Houston. Contra o Brasil atual, mais organizado e com Vinicius Júnior em altíssimo nível, esperar para contra-atacar exige uma defesa sem fissuras. E o histórico da Copa mostra que os Samurais Azuis ainda vacilaram em momentos pontuais, como no empate cedido à Holanda.
Neymar à disposição e a variável que Ancelotti ainda não mostrou completamente
Há um fator adicional que distingue este confronto do amistoso de outubro: a presença de Neymar. O camisa 10 ficou de fora dos dois primeiros jogos do Brasil na Copa em recuperação de lesão, estreou nos 15 minutos finais contra a Escócia e está à disposição de Ancelotti para segunda-feira. A torcida japonesa, curiosamente, o trata como atração à parte. "Embora eu não entenda muito de futebol, sempre tive a impressão de que o Brasil é uma potência no esporte, e a presença de Neymar é uma grande parte disso", comenta Akira. Megumi, 43, é mais direta sobre as chances do Japão: "O Brasil não era o adversário que eu esperava enfrentar. É o favorito, mas o Japão definitivamente tem chances. Se jogarem como um time e aproveitarem as oportunidades, podem vencer o Brasil."
Seria injusto chamar de era o período de oito meses entre o amistoso de Tóquio e esta oitava de final — mas é uma era em escala doméstica para duas seleções que se reinventaram em semestres distintos. Ancelotti deixou de testar e passou a gerir um elenco consolidado; Moriyasu lapidou um coletivo que já não depende de nenhum nome individual para funcionar. O único precedente entre as duas seleções em Mundiais, aliás, é favorável ao Brasil: em 2006, a Seleção venceu por 4 a 1. Mas aquele Japão não tinha vencido o Brasil oito meses antes.
É o mesmo cenário que a Alemanha viveu em 2014, quando chegou à semifinal carregando um amistoso negativo recente como ruído de fundo — só que agora a aposta é diferente: o Brasil não é o anfitrião, e o Japão já sabe, por experiência própria, que a Seleção Canarinho pode desmoronar quando o meio-campo perde a bola. O jogo acontece na segunda-feira (29), às 14h (horário de Brasília), no NRG Stadium, em Houston.








