21 de maio de 2026. Na sala de troféus da Academia de Futebol, em São Paulo, Gustavo Gómez recebia das mãos da presidente Leila Pereira uma homenagem que nenhum outro jogador da história do Palmeiras pôde receber: a celebração dos 13 títulos conquistados com a camisa alviverde desde julho de 2018. O número é real e não tem concorrente.

A narrativa que circula nas redes sociais, especialmente após a derrota por 1 a 0 para o Cerro Porteño no Allianz Parque pela fase de grupos da Libertadores, é a de um Palmeiras em crise existencial, com torcida rachada e um ciclo vencedor chegando ao fim. Os protestos da Mancha Alvi Verde, pedindo a saída do técnico Abel Ferreira, alimentaram esse diagnóstico. Mas os dados contam uma história diferente — e mais complexa.

Lewis Hamilton Isn't Going Anywhere ❤️

Os 13 títulos que desmontam o argumento do declínio

Quem defende que o ciclo de Gómez chegou ao esgotamento costuma apontar a eliminação precoce na Libertadores de 2025 e a sequência irregular no início de 2026. O contra-argumento parece razoável na superfície. O problema é que ele ignora a régua histórica: nenhum zagueiro brasileiro ou estrangeiro acumulou tantos troféus com uma única camisa no futebol nacional nas últimas duas décadas. Os 13 títulos incluem duas Libertadores (2020 e 2021), dois Campeonatos Brasileiros (2018 e 2022), duas Copas do Brasil (2020 e 2023), além de Recopeças, Supercopas e Paulistões — incluindo o título sobre o Novorizontino em 2026, que encerrou um jejum que se arrastava desde 2023.

O próprio Gómez sinalizou o valor simbólico desse último troféu ao eleger o Mundial de Clubes de 2021 e o título paulista mais recente como os mais especiais. A escolha não é aleatória: o Paulistão sobre o Novorizontino marcou a primeira taça de vários jogadores mais jovens do atual elenco.

"Me senti como em 2018, quando conquistamos o Brasileirão. Muitos companheiros conquistaram uma taça pela primeira vez", disse Gómez ao explicar por que o título sobre o Novorizontino ficará na memória.

Essa capacidade de referenciar conquistas passadas como parâmetro de evolução coletiva é exatamente o que diferencia um líder de vestiário de um simples titular de alto rendimento.

O protesto da Mancha e a resposta que a torcida não esperava

Depois da derrota para o Cerro Porteño — time paraguaio, coincidentemente o país natal de Gómez — a Mancha Alvi Verde organizou um protesto nas redes sociais exigindo a saída de Abel Ferreira. A pressão era dirigida ao técnico, mas o clima de insatisfação atingiu o elenco de forma difusa. Gómez, ao ser questionado diretamente, adotou uma postura que mistura pragmatismo político com vivência pessoal.

"Eu não vi nada. Quando você perde, evita olhar redes sociais. O que eu mais gosto no Brasil e no Paraguai é a liberdade de expressão. O Paraguai viveu uma ditadura por muito tempo. Qualquer pessoa que tenha rede social ou microfone tem liberdade para se expressar", afirmou o zagueiro.

A resposta é inteligente do ponto de vista retórico, mas também revela algo sobre o momento do grupo: um capitão que precisa administrar tensão externa enquanto sustenta a coesão interna.

O que para um zagueiro argentino seria um gesto de indiferença calculada, para um português como Abel seria combustível para uma crise de narrativa — e aqui está a diferença cultural que o futebol sul-americano frequentemente subestima. No Brasil, o capitão que ignora o protesto e fala em liberdade de expressão soa conciliador. Na Europa, o mesmo discurso soaria como esquiva. Gómez domina esse código.

O contrato até 2027 e a frase que muda o cenário

Com 33 anos e vínculo assinado até dezembro de 2027, a matemática contratual de Gómez parece resolvida. Mas futebol não é matemática contratual. A frase que o zagueiro escolheu ao ser perguntado sobre o futuro tem peso específico: "Não sei o que vai acontecer amanhã". Para um jogador com contrato vigente por mais 18 meses, a declaração não é trivial.

Há dois cenários concretos que tornam essa ambiguidade relevante. O primeiro é a Copa do Mundo: Gómez está na lista dos 26 convocados do técnico Berizzo — depois substituído por Alfaro — para representar o Paraguai no Mundial de 2026, e um torneio dessa magnitude pode redefinir o mercado de zagueiros experientes em função de desempenho ou de propostas externas. O segundo cenário envolve o próprio rendimento físico: aos 33 anos, em um clube onde, nas palavras do próprio jogador, "você precisa estar 100% para jogar", qualquer queda de nível abre espaço para questionamentos sobre a renovação real do contrato.

Gómez não se declara o maior zagueiro da história do Palmeiras — e essa modéstia estratégica é parte do que o mantém intocável no clube. Ele credita os 13 títulos ao coletivo: massagistas, profissionais de saúde, roupeiros e comissão técnica. É o discurso do capitão que sabe que liderança se exerce no cotidiano, não apenas nas finais.

"Internamente, sabemos que o torcedor é passional. Também sabemos o que fazemos no dia a dia e que precisamos melhorar. O torcedor pode ficar tranquilo, porque trabalhamos muito para evoluir", garantiu o zagueiro durante a coletiva desta quinta-feira.

O próximo teste concreto para medir o quanto esse discurso se sustenta em campo é imediato: o Palmeiras enfrenta o Flamengo na sexta-feira, 23 de maio, às 21h, pelo Campeonato Brasileiro — o primeiro reencontro direto entre os dois clubes desde a decisão da Libertadores em Lima. Três dias depois, o duelo contra o Junior Barranquilla pode definir se o Palmeiras segue vivo na fase de grupos da Libertadores ou se a crise que a torcida sente nas redes sociais se torna matemática no grupo.