A Itália não é o país com a pior sequência de eliminações em repescagens da história das Copas. A Alemanha de 1930 e a Espanha pós-2014 acumulam ciclos igualmente constrangedores. Mas nenhuma dessas seleções chegou ao fundo do poço com três exclusões consecutivas de Mundiais — e foi exatamente isso que a Azzurra fez ao ser eliminada pela Bósnia e Herzegovina na repescagem para a Copa do Mundo de 2026. O número importa porque ele muda a natureza da solução: não se trata mais de ajuste tático. É reconstrução estrutural.

Gattuso sai e Baldini herda um projeto sem prazo

Gennaro Gattuso pediu demissão imediatamente após a eliminação, e a Federação Italiana de Futebol (FIGC) não teve tempo — nem consenso interno — para nomear um substituto definitivo. A saída encontrada foi convocar Silvio Baldini, treinador da seleção sub-21, para comandar os amistosos de junho contra Luxemburgo e Grécia. A decisão sobre o técnico permanente está condicionada às eleições presidenciais da FIGC, o que coloca a Itália em uma posição que o futebol sul-americano conhece bem: um país que toma decisões técnicas de acordo com o calendário político da federação. O que para o argentino é interferência inaceitável da AFA nos treinadores, para o italiano virou rotina administrativa.

Gattuso sai e Baldini herda um projeto sem prazo 19 estreantes e média de 20 ano
Gattuso sai e Baldini herda um projeto sem prazo 19 estreantes e média de 20 ano

Baldini chega ao cargo interino com a missão de testar, não de vencer. A convocação divulgada pela federação tem 24 jogadores, média de idade de 20 anos e seis meses, e 19 estreantes absolutos na seleção principal. Dentre todos os nomes da lista, apenas um carrega a memória do que a Azzurra já foi: o goleiro Gianluigi Donnarumma, atualmente no Manchester City, que assumirá a braçadeira de capitão.

"Donnarumma representa a continuidade em um momento de ruptura total", resumiu a avaliação interna da comissão técnica italiana, segundo fontes ligadas à FIGC.

Samuele Inácio e os jovens que a Itália ganhou da disputa com o Brasil

A grande novidade da lista é Samuele Inácio, atacante de 18 anos que defende o Borussia Dortmund. Filho do ex-jogador brasileiro Inácio Piá, o jovem vinha sendo monitorado pela seleção brasileira — o que transforma sua escolha pela Azzurra em uma derrota diplomática da CBF no mercado de dupla-nacionalidade. Não é a primeira vez que isso acontece: Jorginho, Thiago Motta e Emerson Royal são nomes que percorreram o mesmo caminho em décadas anteriores. A Itália tem um histórico consolidado de naturalizar talentos com raízes brasileiras antes que o Brasil formalize o interesse.

Outros nomes promissores completam a lista. Davide Bartesaghi, lateral do Milan com apenas 19 anos, e Francesco Camarda, atacante do Lecce por empréstimo da Inter de Milão, ganham espaço em um grupo que reúne jogadores de clubes como Borussia Dortmund, Fiorentina, Roma e Juventus. A presença de três jogadores ligados ao Dortmund — Inácio, Filippo Mane e Luca Reggiani — não é coincidência: o clube alemão tem sido um dos maiores exportadores de jovens talentos italianos nos últimos dois anos.

Samuele Inácio e os jovens que a Itália ganhou da disputa com o Brasil 19 estrea
Samuele Inácio e os jovens que a Itália ganhou da disputa com o Brasil 19 estrea
"Esses meninos precisam entender o que significa vestir a camisa azul. O processo começa agora, mas não tem data para terminar", disse Baldini em entrevista coletiva após a divulgação da lista.

O efeito cascata de uma geração sem Copa do Mundo

Perder três Mundiais consecutivos tem um custo que vai muito além dos pontos de ranking FIFA. O SportNavo mapeou o impacto financeiro: a Itália deixou de movimentar aproximadamente €180 milhões em receitas de patrocínio, direitos de transmissão e licenciamento de produtos associados à participação em Copas entre 2018 e 2026 — estimativa baseada nos contratos médios da UEFA com federações do Grupo A. Para comparação, a seleção francesa, que disputou as três edições do torneio no mesmo período, gerou mais de €420 milhões em receitas derivadas da Copa apenas com licenciamento de camisas e acordos comerciais.

A consequência direta disso é uma janela de investimento menor para as categorias de base e para a estrutura de detecção de talentos. A Alemanha passou por processo semelhante após 2018 e levou quatro anos para reorganizar sua pirâmide de formação. A diferença é que os alemães tinham um modelo federativo com orçamento independente das receitas da seleção principal. A Itália, não.

Quem sai perdendo no curto prazo são os jogadores na faixa dos 26 a 30 anos — a chamada geração intermediária — que dificilmente terão espaço nesse novo ciclo focado em jovens, mas também já ficaram velhos demais para serem o projeto de futuro. Nomes como Lorenzo Pellegrini e Federico Chiesa, que oscilaram entre convocações e lesões nos últimos anos, provavelmente encerrarão suas carreiras internacionais sem uma participação em Copa do Mundo.

Luxemburgo e Grécia como laboratório para junho

Os dois amistosos de junho servem menos como preparação competitiva e mais como diagnóstico geracional. O primeiro confronto acontece no dia 3 de junho, no Stade de Luxembourg, contra uma seleção luxemburguesa que avançou de forma surpreendente na última Liga das Nações da UEFA. O segundo teste é contra a Grécia, no dia 7 de junho, adversário com mais tradição e capacidade de pressionar uma equipe jovem e ainda sem entrosamento.

A Itália vai a campo com 19 jogadores que nunca vestiram a camisa principal da Azzurra, um capitão de 26 anos como único elo com o passado recente e um treinador interino que não sabe se continuará no cargo após o verão europeu. É um cenário de reconstrução real — não de discurso. Se Baldini conseguir extrair desempenho coletivo desse grupo em dois jogos, terá feito mais do que Gattuso conseguiu em dois anos de trabalho.