Se a Copa do Mundo começasse hoje, o Brasil entraria no torneio carregando o maior jejum de sua história — 24 anos sem levantar a taça, desde o pentacampeonato conquistado em Yokohama, em 30 de junho de 2002, com gols de Ronaldo sobre a Alemanha por 2 a 0. Esse número, 24, não é apenas uma estatística. Ele é o peso que Carlo Ancelotti viu materializado nos olhos dos jogadores brasileiros até em jogos sem qualquer consequência competitiva.
O diagnóstico do técnico italiano, expresso em entrevista à agência Reuters na sede da CBF no Rio de Janeiro, é cirúrgico: o problema não é a ausência de talento, é o que esse talento faz quando encontra a pressão.
"O que eu notei este ano, para ser honesto, é que há muita pressão; há muita pressão sobre os jogadores. O que eu acho é que os jogadores também colocam muita pressão sobre si mesmos, às vezes até demais. Então, a pressão e a preocupação superam a alegria, a energia que os brasileiros têm, a criatividade que os brasileiros têm."
O número 24 e o que ele revela sobre o ciclo de eliminações brasileiras
Desde 2002, o Brasil disputou cinco Copas do Mundo. Em 2006, na Alemanha, caiu nas quartas para a França de Zidane por 1 a 0, em Frankfurt. Em 2010, na África do Sul, perdeu para a Holanda por 2 a 1, também nas quartas. Em 2014, no Maracanã, o 7 a 1 diante da Alemanha entrou para a história como a derrota mais traumática do futebol nacional. Em 2018, na Rússia, Neymar e companhia foram eliminados pela Bélgica, 2 a 1, nas quartas. Em 2022, no Catar, a queda veio nos pênaltis contra a Croácia, após empate em 1 a 1 no tempo normal. Cinco eliminações. Quatro delas nas quartas de final. O padrão de colapso emocional em momentos decisivos não é coincidência — é estrutural.
Ancelotti não é o primeiro técnico a identificar esse fenômeno, mas é o primeiro a nomeá-lo publicamente com tanta precisão antes de uma Copa.
"Vi isso em alguns amistosos... um erro de um companheiro de equipe em um jogo amistoso parece uma tragédia", disse ele.
O Carnaval como antídoto para a ansiedade que derrubou gerações
A metáfora que Ancelotti escolheu para descrever o que quer da Seleção Brasileira não veio de um manual de psicologia esportiva. Veio da Marquês de Sapucaí. O técnico, que viveu seu primeiro Carnaval no Brasil em 2026, encontrou no desfile das escolas de samba a síntese do que busca no campo: alegria coletiva com disciplina estrutural.
"Percebi muita alegria, muita energia, porque as pessoas dançavam até o Sol raiar, mas também um grande comprometimento de todos em uma festa popular da qual todos se sentem parte. Se você for assistir ao desfile aqui no Rio, tudo é perfeitamente organizado — o tempo, a música, tudo é perfeito. Essas são características do povo brasileiro que eu quero ver no campo."
A analogia é historicamente pertinente. As duas campanhas mais bem-sucedidas do Brasil em Copas — 1970 no México, com Pelé, Tostão, Rivelino e Jairzinho (19 gols marcados em seis jogos, aproveitamento de 100%) e 1982 na Espanha, eliminação trágica mas futebol exuberante — tinham exatamente essa característica: criatividade dentro de um sistema coletivo coeso. O Brasil de 1982, mesmo sem conquistar o título, marcou 15 gols em cinco partidas com Zico, Sócrates e Falcão, e é até hoje referência estética do futebol mundial.
O que Ancelotti propõe não é a negação da pressão, mas sua ressignificação.
"Precisamos estabelecer uma rotina para evitar tudo isso, porque a pressão é obviamente um fator muito importante. Gerenciar bem a pressão significa ter mais motivação e mais camaradagem, porque você pode compartilhar a pressão. Assim, ela pesa menos sobre você."
Convocação em 18 de maio e a questão Neymar como termômetro da gestão emocional
A lista definitiva dos 26 convocados será anunciada na segunda-feira, 18 de maio, a partir das 17h, no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro. A CBF enviou à Fifa, em 11 de maio, uma pré-lista com 55 nomes — entre eles Neymar, maior artilheiro da história da Seleção com 79 gols, ausente das seis convocações anteriores de Ancelotti por razões físicas. O atacante do Santos, que voltou a atuar com regularidade em abril e maio de 2026 — inclusive marcando diante do Red Bull Bragantino —, tem sua presença condicionada exclusivamente à condição física, segundo o próprio treinador em entrevista ao jornal britânico The Guardian.
A decisão sobre Neymar é, em si, um teste da filosofia que Ancelotti prega. Convocar um jogador de 34 anos em recuperação de múltiplas lesões, com 79 gols e três Copas na bagagem, gera exatamente o tipo de pressão coletiva que o técnico quer evitar. Não convocá-lo, por outro lado, priva o grupo de um símbolo capaz de catalisar a alegria que Ancelotti busca. Não há resposta simples — e o italiano, que conquistou quatro títulos da Champions League como treinador (2003, 2007, 2014 e 2022), já demonstrou que sabe administrar egos e expectativas em vestiários de altíssima voltagem.
A Copa do Mundo de 2026 começa em 11 de junho, com a final marcada para 19 de julho. O Brasil estreia no torneio com a convocação sendo revelada em menos de uma semana — o elenco está formado, o diagnóstico está feito — falta transformar a análise em resultado dentro de campo.









