O sobrenome chegou antes do jogador. Quando Copa do Mundo de 2022 começou e Marcus Thuram entrou em campo contra a Austrália, o estádio no Qatar já sabia quem era o pai dele — mesmo sem precisar de apresentação. Lilian Thuram, zagueiro campeão mundial com a França em 1998 e autor do gol que classificou os Bleus para a grande final, tinha construído um legado grande o suficiente para atravessar 24 anos e uma geração inteira. Ao menos 27 pares de pai e filho já disputaram Copas do Mundo como jogadores, segundo levantamento oficial da FIFA — e a Copa de 2026 já tem seus próprios representantes dessa tradição hereditária.

Como os Maldini e os Forlán definiram o que é uma dinastia de Copa

A família mais emblemática dessa lista provavelmente é italiana. Cesare Maldini defendeu a Azzurra na Copa de 1962, no Chile. Seu filho Paolo foi além: disputou quatro Mundiais — 1990, 1994, 1998 e 2002 — e se tornou um dos maiores defensores da história do futebol. O ponto mais simbólico da saga? Em 1998, Cesare estava no banco como treinador da Itália e convocou o próprio filho para o torneio. Pai e filho no mesmo Mundial, em papéis distintos, com o mesmo sobrenome costurando tudo.

O Uruguai tem sua própria versão disso. Pablo Forlán esteve em três Copas — 1966 (Inglaterra), 1970 (México) e 1974 (Alemanha) — como atacante da Celeste. Diego Forlán, seu filho, foi eleito o craque da Copa de 2010 na África do Sul e participou também de 2002 e 2014. Juntos, pai e filho acumulam seis participações em Mundiais, o que equivale a cobrir um intervalo de tempo da distância entre Manaus e Salvador em termos de futebol — praticamente meio século de história uruguaia condensada em dois nomes.

A Espanha tem o caso de Periko Alonso, que disputou o Mundial de 1982 em casa, e Xabi Alonso, campeão do mundo em 2010 na África do Sul após passar também pelas Copas de 2006 e 2014. A Polônia tem os Smolarek — Wlodzimierz em 1982 e Euzebiusz em 2006. A França tem ainda os Djorkaeff: Jean jogou em 1966, Youri foi campeão em 1998 e disputou 2002. O México tem os Hernández: Chícharo (pai) no Mundial de 1986 em casa, e Chicharito (filho) nas edições de 2010, 2014 e 2018.

Schmeichel e Thuram em 2026 — os herdeiros que já têm história própria

Kasper Schmeichel seguiu literalmente os passos do pai. Peter Schmeichel é considerado um dos melhores goleiros da história do futebol — defendeu a Dinamarca na Copa de 1998 na França, quando os dinamarqueses chegaram às quartas de final antes de serem eliminados pelo Brasil. Kasper, que ocupa a mesma posição, já acumulou participações em 2018 e 2022 e chega à Copa de 2026 como um dos goleiros mais experientes de seu país.

Marcus Thuram, por sua vez, é hoje titular do ataque da França — diferente do pai Lilian, que era zagueiro/lateral. Essa inversão de posição entre gerações aparece em vários casos da lista: o filho que absorve o sobrenome mas constrói um perfil técnico completamente diferente. Marcus estreou em Copas em 2022 e chega a 2026 como peça central da seleção francesa, não mais como "filho de Lilian", mas como um nome que já tem peso próprio no futebol europeu.

O Brasil tem seus representantes nessa tradição. Domingos da Guia disputou a Copa de 1938, e seu filho Ademir da Guia esteve no Mundial de 1974. Mais recente e mais curioso: Mazinho foi peça importante no título brasileiro de 1994, mas seu filho Thiago Alcântara, que cresceu na Espanha, disputou Copas defendendo a camisa espanhola — o mesmo sobrenome, países diferentes, trajetórias que se cruzam apenas na grandeza do torneio.

"O fato de estar comigo nos eventos, me vendo jogar ou assistir à alguma partida, foi criando nele o hábito e o gosto pela prática das modalidades", disse Luiz Paulo Knop, torcedor de Juiz de Fora que viu seu filho Arthur crescer com a Copa do Mundo como pano de fundo — uma versão não profissional, mas igualmente real, dessa transmissão geracional.

O que os dados revelam sobre essas famílias além do nome

Quando se coloca essas histórias sob uma lupa analítica, alguns padrões aparecem. A maioria dos casos envolve jogadores de posições que exigem longevidade técnica acima da física — goleiros e zagueiros aparecem com frequência desproporcionalmente alta na lista. Peter e Kasper Schmeichel são o exemplo mais óbvio, mas a lógica faz sentido: um goleiro pode disputar Copas dos 25 aos 37 anos com mais facilidade do que um atacante de velocidade.

Schmeichel e Thuram em 2026 — os herdeiros que já têm história própria 27 pares
Schmeichel e Thuram em 2026 — os herdeiros que já têm história própria 27 pares

Outro padrão relevante é o de famílias em que o filho supera o pai em protagonismo. Diego Forlán ganhou prêmio de craque de Copa; Pablo nunca chegou perto disso. Marcus Thuram já marcou gols decisivos em Mundiais enquanto Lilian era, antes de mais nada, um defensor disciplinado. Esse fenômeno tem uma leitura estatística clara: o futebol moderno valoriza métricas ofensivas — xG (expected goals), que mede a qualidade das chances criadas, e progressive passes, que contabiliza passes que avançam significativamente o jogo — de forma muito mais visível do que o trabalho defensivo das gerações anteriores. Um zagueiro dos anos 1990 raramente acumulava números que hoje seriam rastreados e celebrados.

  • xG por partida de Copa: Marcus Thuram gerou em média 0,38 xG por jogo em 2022 — número que posiciona ele entre os atacantes de elite do torneio.
  • Defensive actions: Lilian Thuram, como zagueiro, era avaliado por interceptions e duelos ganhos — métricas que em 1998 nem existiam formalmente, mas que retroativamente o colocam entre os melhores do torneio.
  • PPDA (passes permitidos por ação defensiva): a França de 1998 tinha um dos blocos defensivos mais compactos do torneio, o que explica por que Lilian era tão central naquele esquema.

A diferença de contexto entre as gerações aparece também na exposição midiática. Cesare Maldini jogou a Copa de 1962 num torneio transmitido para poucos países. Paolo disputou o Mundial de 2002 transmitido para bilhões de pessoas em tempo real. Os números do jogo mudaram, a visibilidade mudou, mas o sobrenome continuou sendo o mesmo fio condutor.

Em matéria do SportNavo levantando os dados históricos das Copas, a quantidade de 27 pares confirmados pela FIFA já é suficiente para montar uma seleção completa — com reservas — formada exclusivamente por filhos de jogadores que também disputaram Mundiais. A Copa de 2026, com Marcus Thuram e Kasper Schmeichel já confirmados, vai adicionar pelo menos mais dois nomes a essa lista. O legado familiar na Copa do Mundo não é um acidente — é uma variável que o futebol ainda não sabe como medir, mas que aparece nos dados toda vez que um sobrenome volta ao mapa.

27 famílias, quase 90 anos de história, e a Copa de 2026 já começou a escrever o próximo capítulo.