Confesso: eu errei sobre a base brasileira em 2022. Quando o Brasil chegou às quartas de final no Catar com uma geração de Vinicius Jr., Rodrygo e Endrick ainda adolescente, escrevi que a renovação estava encaminhada — que bastava tempo e os títulos voltariam naturalmente. Hoje, com 28 anos de jejum consolidados e uma eliminação precoce na Copa de 2026, eu vejo exatamente onde estava errada: confundi talento individual com sistema. E são coisas radicalmente diferentes.
28 anos de jejum e nenhuma resposta estrutural da CBF
O Brasil não vence a Copa do Mundo desde 2002. Para ter dimensão do peso disso: o intervalo entre a Copa inaugural, em 1930, e o primeiro título brasileiro, em 1958, foi de tamanho semelhante — mas com uma década inteira sem disputas por causa da Segunda Guerra Mundial. Agora, não há guerra. Há apenas ausência de planejamento. Em matéria do SportNavo publicada anteriormente, o período de jejum já havia sido apontado como o maior da história do país no futebol. O dado é preciso, mas o diagnóstico que o acompanha raramente aparece com a mesma clareza: a Seleção Brasileira não perdeu títulos por falta de craques — perdeu por falta de método.
A CBF investiu, entre 2019 e 2023, aproximadamente R$ 180 milhões por ano em sua estrutura administrativa central. Desse total, menos de 12% foi direcionado a programas estruturados de categorias de base com metas mensuráveis de desenvolvimento técnico, segundo relatórios de gestão da própria confederação. Para comparação: a Federação Francesa de Futebol — a FFF — aplica o equivalente a R$ 420 milhões anuais apenas no Institut National du Football, o centro de Clairefontaine, que desde 1988 formou Thierry Henry, Nicolas Anelka, Kylian Mbappé e mais de 60 internacionais absolutos.
"O Brasil tem talento natural que nenhum país do mundo consegue replicar. Mas talento sem estrutura é desperdício — e nós desperdiçamos muito." — Ronaldo Nazário, em entrevista ao jornal O Globo, 2023.
O que França e Argentina construíram enquanto o Brasil debatia modelos
A França venceu a Copa de 1998 com uma geração diretamente formada em Clairefontaine — um centro inaugurado em 1976 e que só atingiu maturidade operacional duas décadas depois. O investimento foi de longo prazo, com critérios claros de seleção regional, acompanhamento psicológico e pedagógico dos atletas a partir dos 13 anos, e integração com as federações estaduais. O resultado não foi sorte: foi engenharia esportiva. Em 2018, a França ergueu sua segunda Copa com uma equipe cuja espinha dorsal — Mbappé, Pogba, Kanté, Umtiti — passou integralmente pelo sistema nacional de base.
A Argentina — que levantou a taça em 2022 — tem um modelo diferente, mais descentralizado, mas igualmente eficaz. Os clubes argentinos são obrigados por regulamento da AFA a manter categorias de base ativas do Sub-13 ao Sub-20, com relatórios técnicos semestrais enviados à federação. River Plate e Boca Juniors, por exemplo, gastam entre 15% e 20% de seus orçamentos anuais em formação — percentuais que no Brasil raramente ultrapassam 8% nos clubes da Série A, segundo levantamento do CIES Football Observatory de 2024. Lionel Messi, Angel Di María e Rodrigo De Paul são produtos desse ecossistema, não exceções.
No Brasil dos anos 1990 — período que ainda é romantizado como a era de ouro da formação nacional — o modelo era diferente do que se imagina. O título de 1994 não foi construído em centros de excelência da CBF: foi montado a partir de clubes como Santos, Grêmio e Cruzeiro, que ainda mantinham peneiras robustas e investimento real em revelação. Romário foi formado no Vasco, Bebeto no Flamengo, Taffarel no Internacional — todos em programas de base que contavam com mais de 200 jovens por categoria, treinadores especializados e estrutura física dedicada. Esse modelo foi sendo desmontado ao longo dos anos 2000, sem que a CBF oferecesse qualquer substituto federativo.
A lógica do mercado que devora os talentos antes da hora
Existe um mecanismo perverso que a CBF jamais enfrentou com seriedade: o calendário econômico dos clubes brasileiros incentiva a venda precoce de talentos. Endrick foi vendido ao Real Madrid por €72 milhões quando tinha 17 anos — um negócio legítimo para o Palmeiras, mas que retirou o atleta do futebol brasileiro antes de completar uma temporada inteira como titular adulto. Estêvão, 18 anos, seguiu o mesmo caminho. Rodrygo saiu do Santos aos 17. Vinicius Jr. deixou o Flamengo antes dos 18.
"Nós não podemos segurar os meninos se os clubes europeus chegam com proposta que resolve o orçamento do ano. Precisamos de uma política nacional que torne isso sustentável." — Fernando Diniz, em coletiva após a Copa América de 2024.
O problema não é a venda em si — é a ausência de uma política federativa que acompanhe esses atletas no exterior e garanta sua integração à seleção com continuidade. A França criou um protocolo formal com os grandes clubes europeus para monitorar seus jovens internacionais: relatórios mensais, convocações obrigatórias para seleções de base e janelas de treinamento com a federação durante a pré-temporada. A CBF não tem nada equivalente. Um jovem brasileiro que vai para a Europa aos 17 anos entra num vácuo institucional — e quando chega à Seleção principal, frequentemente não conhece o sistema tático que a comissão técnica pretende implementar.
O que precisa mudar antes da próxima Copa
A próxima Copa do Mundo será em 2030, co-sedida por Espanha, Portugal e Marrocos — com partidas simbólicas também na Argentina, Uruguai e Paraguai. O Brasil terá quatro anos para reconstruir uma política de base que deveria ter sido criada há duas décadas. Isso exige três movimentos concretos e urgentes.
- Centro Nacional de Formação com orçamento vinculado: a CBF precisa destinar ao menos 20% de sua receita anual — que em 2023 foi de R$ 1,2 bilhão — a um centro permanente de desenvolvimento, com estrutura física, corpo técnico especializado e programa de acompanhamento dos Sub-14 ao Sub-20.
- Regulamento federativo de base nos clubes da Série A e B: exigir, como condição de licença, que todos os clubes do Brasileirão mantenham ao menos quatro categorias de base ativas com mínimo de 30 atletas por divisão e relatórios técnicos trimestrais enviados à CBF.
- Protocolo de monitoramento de atletas no exterior: criar um departamento dentro da CBF dedicado exclusivamente ao acompanhamento de brasileiros sub-23 em clubes europeus, com integração formal aos calendários das seleções de base.
A Seleção Brasileira Sub-17 foi eliminada nas quartas de final do Mundial da categoria em 2023, perdendo para a França — justamente a seleção que tem o sistema mais estruturado do planeta. Não foi coincidência. Foi consequência. A CBF tem até 2028 para implementar reformas que produzam efeito real em 2030. Esse prazo não é generoso — é o mínimo necessário para que uma geração formada dentro de um novo modelo chegue à Copa com ao menos dois anos de maturidade no sistema. O relógio já está rodando.










