Diz-se que o México, como anfitrião, tem vantagem automática sobre qualquer adversário. O histórico, porém, complica essa leitura: o Tri nunca passou das quartas de final em edições que disputou em casa — e, nesta quinta-feira (11), diante de 87 mil torcedores no Estádio Azteca, a pressão de quebrar essa sequência já começou a pesar desde o apito inicial. O placar final de 2 a 0 sobre a África do Sul abre o Grupo A com a lógica do favoritismo confirmada, mas os três cartões vermelhos distribuídos pelo árbitro brasileiro Wilton Pereira Sampaio revelaram que o caminho será mais turbulento do que o resultado sugere.

O número que define a abertura do Grupo A no Azteca

Três expulsões em um único jogo de abertura de Copa do Mundo. Esse dado, por si só, situa a partida entre México e África do Sul em um patamar raro na história do torneio. Wilton Sampaio, árbitro goiano que já acumula experiências em duas Copas anteriores, conduziu uma arbitragem de mão firme desde os primeiros minutos. A primeira expulsão sul-africana veio logo no início do segundo tempo, quando Sithole foi punido por impedir uma oportunidade clara de gol — decisão tomada sem necessidade de consulta ao VAR, segundo análise da ex-árbitra Ana Paula Oliveira. A segunda, envolvendo Themba Zwane, foi referendada pela tecnologia após o árbitro não ter visão completa do lance. A terceira, já nos minutos finais, atingiu um jogador mexicano, aplicada com o mesmo critério rigoroso.

"A arbitragem brasileira, que é tão questionada aqui no nosso país, deu uma aula do que se espera da arbitragem mundial. Foram três cartões vermelhos muito bem aplicados", avaliou Ana Paula Oliveira no Fim de Papo, do Canal UOL.

Houve, no entanto, um momento de ruído comunicativo. Ao anunciar a expulsão de Zwane ao público presente, Wilton optou pelo inglês — idioma padrão da Fifa para comunicações em campo —, gerando confusão em uma arena onde o espanhol é a língua natural. Segundo Ana Paula Oliveira, o árbitro domina o espanhol, mas seguiu protocolo institucional. "Foi muito mais desafiador para o Wilton falar uma frase em inglês do que decidir aplicar o cartão vermelho", pontuou a especialista. A Fifa padroniza frases curtas em inglês justamente para reduzir esse tipo de ruído… e aí vem o problema de aplicar essa lógica no coração da América Latina.

México e África do Sul — estilos opostos, pressões distintas

O Grupo A reúne quatro escolas futebolísticas com identidades bem definidas. O México de posse de bola e jogo avançado, amplificado pelo calor da torcida. A África do Sul de Hugo Broos — técnico belga que comanda os Bafana Bafana — com futebol físico, transições rápidas e marcação intensa pelos flancos. A diferença de contexto entre as duas seleções é da ordem de uma Copa inteira de experiência acumulada: enquanto o México disputou todas as edições do torneio desde 1994, a África do Sul retorna ao Mundial pela primeira vez desde 2010, quando foi sede e foi eliminada na fase de grupos sem vencer uma partida sequer.

Essa lacuna de 16 anos sem participação explica parte do comportamento tático sul-africano nesta quinta. O time de Broos apostou nas transições e na marcação alta nos primeiros 20 minutos, mas o desgaste físico imposto pela altitude de 2.200 metros da Cidade do México — distância equivalente à que separa Recife de Belém em termos de diferença de pressão atmosférica — cobrou seu preço progressivamente. O México soube administrar o ritmo e converteu a superioridade numérica, após as expulsões, em controle territorial.

"Ele foi extremamente rigoroso, não só com o quesito das alterações, como a substituição, atendimento médico, mas principalmente com o cumprimento da regra do jogo", disse Ana Paula Oliveira sobre a atuação de Wilton Sampaio.

O que o resultado projeta para as próximas rodadas do Grupo A

Com três pontos, o México assume a liderança provisória do Grupo A e coloca pressão imediata sobre Coreia do Sul e República Tcheca, que se enfrentam às 23h desta mesma quinta-feira no Estádio Akron, em Guadalajara. A África do Sul, por sua vez, inicia a competição com uma derrota e dois jogadores suspensos para a segunda rodada, marcada para o dia 18 de junho, quando enfrenta a República Tcheca. O calendário sul-africano ainda inclui o confronto com a Coreia do Sul em 24 de junho — e a classificação para o mata-mata exige, matematicamente, pelo menos quatro pontos nas duas partidas restantes.

O formato inédito desta Copa, com 48 seleções divididas em 12 grupos, garante que os dois melhores terceiros colocados de cada chave também avançam — o que mantém viva a esperança dos Bafana Bafana mesmo após a derrota inaugural. Para o México, o desafio imediato é o duelo com a Coreia do Sul no dia 18, adversário disciplinado taticamente e letal nos contra-ataques. A vitória desta quinta foi necessária, mas não suficiente para aliviar a pressão histórica que acompanha o Tri em cada Copa disputada em solo mexicano. O próximo jogo do Grupo A, ainda nesta quinta, começa às 23h no Estádio Akron, em Guadalajara, e pode redistribuir as fichas antes mesmo do fim da primeira rodada — como apurado pelo SportNavo a partir das tabelas oficiais da Fifa.