Confesso: eu subestimei Cafu por anos. Achava que o lateral era grande, claro, mas não lendário no mesmo nível dos atacantes e meias que enchiam os holofotes. A lista da BBC me forçou a rever essa posição — e os números explicam por quê.
A BBC Sport divulgou seu ranking dos dez maiores jogadores da história da Copa do Mundo, cobrindo 92 anos de torneio em uma lista que, segundo a própria emissora britânica, tem primeiras posições mais consensuais e últimas posições mais polêmicas. Três brasileiros aparecem: Ronaldo em terceiro, Pelé em primeiro e Cafu em nono. A distribuição diz muito sobre o que a BBC priorizou — e sobre o que deixou de fora.
Os critérios que colocaram Pelé acima de Maradona e Messi
Pelé ocupa o primeiro lugar com um argumento difícil de rebater: é o único tricampeão como jogador, tendo levantado a taça em 1958, 1962 e 1970. Aos 17 anos, na primeira dessas campanhas, ele marcou três gols na semifinal e dois na final. Encerrou sua trajetória em Copas com 12 gols em 14 jogos — média de quase um gol por partida em um torneio que costuma ser decidido por milímetros.
Diego Maradona ficou em segundo. A BBC concentrou o argumento na Copa de 1986, no México, especificamente nos dois gols contra a Inglaterra nas quartas de final — o infame "Mão de Deus" e o drible em que ele avançou desde o meio-campo. Maradona terminou aquele torneio com cinco gols e cinco assistências, uma dupla raramente vista em Copas.
Lionel Messi aparece em quarto, impulsionado pelo título argentino no Catar em 2022. Foram sete gols no torneio, incluindo dois na final contra a França, mais a cobrança de pênalti decisiva. A BBC reconhece o peso histórico do título, mas mantém Maradona à frente — decisão que, previsível ou não, sempre vai gerar debate.
A trajetória de Ronaldo e o que os números de 2002 ainda dizem
O terceiro lugar de Ronaldo carrega uma narrativa que vai além das estatísticas. A BBC lembra a final de 1998, quando ele teve uma convulsão horas antes do jogo contra a França — Brasil perdeu por 3 a 0 e a escalação do camisa 9 ainda é debatida. Quatro anos depois, em 2002, a resposta foi dada em campo: oito gols no torneio, dois deles na final contra a Alemanha, que o Brasil venceu por 2 a 0. Foi o pentacampeonato.
Essa trajetória de queda e recuperação é o que torna o caso de Ronaldo singular na história das Copas. Nenhum outro jogador passou por uma derrota traumática numa final e voltou para ser o protagonista absoluto do título seguinte. Os oito gols em 2002 ainda representam uma das maiores campanhas individuais da história do torneio.
Cafu e a marca que nenhum outro lateral alcançou
A posição de Cafu em nono pode parecer modesta para quem olha apenas para o cargo — lateral-direito, função historicamente menos valorizada em rankings individuais. Mas o argumento da BBC é cirúrgico: ele é o único jogador da história a disputar três finais consecutivas de Copa do Mundo, em 1994, 1998 e 2002.
Em 1994, foi campeão. Em 1998, vice. Em 2002, levantou a taça como capitão do Brasil e escreveu "100% Jardim Irene" na camisa — referência direta ao bairro periférico de São Paulo onde cresceu. Essa sequência de três finais em doze anos é uma marca que combina longevidade, consistência e qualidade em níveis que poucos jogadores de qualquer posição conseguiram.
O ranking completa com Franz Beckenbauer (quinto), único a vencer a Copa como jogador, em 1974, e como técnico, em 1990; Kylian Mbappé (sexto), campeão em 2018 e vice em 2022, com três gols na última final; Zinedine Zidane (sétimo), protagonista do título francês de 1998; e Paolo Rossi (oitavo), artilheiro e melhor jogador da Copa de 1982, com seis gols incluindo um hat-trick contra o Brasil.
"Percebemos que Zidane era o jogador que faria a diferença", disse o ex-zagueiro Lilian Thuram à BBC, ao comentar a campanha da França em 1998.
A lista termina em dez com uma ausência que já virou polêmica desde a publicação: Ronaldinho Gaúcho, melhor jogador da Copa de 2002 e protagonista de uma das campanhas mais dominantes da história do Brasil, não aparece. Garrincha, bicampeão em 1958 e 1962 e considerado o melhor jogador da Copa de 1962, também ficou de fora — o que para muitos historiadores do futebol é o erro mais grave do ranking.
Confesso: eu subestimei Cafu por anos. Depois de 1994, 1998 e 2002, três finais, uma taça erguida como capitão e uma frase escrita na camisa para não esquecer de onde veio — o lateral mereceu cada caractere desse nono lugar.








