Não, a crise da seleção belga não começou com a briga pela braçadeira. O episódio envolvendo Thibaut Courtois e a capitania diante da Estônia, nas eliminatórias da Eurocopa, foi apenas o momento em que uma fratura antiga finalmente veio à tona com força suficiente para não ser ignorada. O que está em colapso é algo maior: a arquitetura humana de uma geração que prometeu um título e nunca entregou.
O abandono que o técnico não conseguiu esconder
A sequência de eventos começa no empate em 1 a 1 contra a Áustria, em Bruxelas, no dia 17. Com Kevin De Bruyne ausente, o técnico Domenico Tedesco havia combinado previamente que Romelu Lukaku seria o capitão naquele jogo, e que Courtois herdaria a braçadeira na partida seguinte, contra a Estônia. O acordo, segundo o próprio treinador, estava claro para todos. Mas logo após o apito final em Bruxelas, o goleiro do Real Madrid procurou Tedesco para dizer que estava decepcionado — e foi embora.

"Estou em choque. Juntos, decidimos que Romelu seria o capitão contra a Áustria, e Thibaut seria contra a Estônia. Estava tudo certo para todos, mas depois do jogo, ele de repente quis conversar comigo e disse que iria para casa porque estava decepcionado e se sentia ofendido. É algo que parece estar adormecido por muito tempo, trata-se de valorização."
A Associação Belga de Futebol e o pai do goleiro, Thierry Courtois, tentaram sustentar a versão de uma lesão. Tedesco recusou endossar a narrativa. "Eu gostaria de dizer que ele está lesionado, como disse seu pai. Mas isso não é verdade. Não vou mentir para vocês", afirmou o treinador em coletiva, deixando a federação em posição desconfortável e o episódio completamente exposto.
Carrasco critica e Casteels vai embora chamando de tapete vermelho
A Bélgica venceu a Estônia por 3 a 0 mesmo sem Courtois, com Yannick Carrasco assumindo a braçadeira ao longo da partida após a substituição de Lukaku. No dia seguinte, Carrasco não poupou o colega.
"Estamos decepcionados com sua reação. Afinal ele é parte do time, é um dos três capitães. A braçadeira é só um detalhe. Você tem que demonstrar que é um líder e um capitão com a sua personalidade. Ele decidiu ir embora. Se estava machucado ou não, não sabemos. Mas um dos motivos de sair foi a braçadeira."
A fala de Carrasco é relevante não apenas pelo conteúdo, mas pelo contexto: um jogador titular, convocado regularmente, falando publicamente contra outro titular em plena data Fifa. Isso não acontece em grupos coesos.
Tedesco foi demitido em janeiro. Seu substituto, Rudi Garcia, anunciou o retorno de Courtois à seleção no mês seguinte. Essa decisão custou à Bélgica outro goleiro: Koen Casteels, do Al-Qadsiah, que havia sido titular na Eurocopa de 2024 na Alemanha e acumulava 20 partidas pelos Diabos Vermelhos desde 2020, comunicou à federação que não aceitaria mais convocações.
"Acho estranho que ele possa decidir sozinho se quer voltar ou não. Acho ainda mais estranho que a própria federação mude de ideia e estenda o tapete vermelho para recebê-lo de braços abertos. Não se trata tanto de Thibaut, mas sim da federação de futebol. Não condiz com os valores que considero adequados para uma organização."
A Federação Belga confirmou a saída de Casteels por comunicado oficial, lamentando a decisão e agradecendo os anos de dedicação — linguagem protocolar que, na prática, encerra a carreira de um goleiro de 32 anos que nunca errou uma convocação.
O que a gestão de Garcia revela sobre a hierarquia interna da seleção belga?
A geração de ouro chega à Copa do Mundo 2026 com o relógio no limite
A Copa do Mundo 2026, disputada nos Estados Unidos, no México e no Canadá, pode ser a última para pelo menos quatro peças centrais dessa geração. Courtois tem 34 anos e é titular do Real Madrid. De Bruyne, também com 34, defende o Napoli — clube para o qual se transferiu após anos no Manchester City. Lukaku, de 33 anos e também no Napoli, chega ao torneio readquirindo ritmo após um problema muscular. O volante Axel Witsel, o mais velho do grupo, tem 37 anos e já atua como zagueiro.
A geração que ficou em terceiro lugar na Copa de 2018 na Rússia — eliminando o Brasil nas quartas com uma virada histórica sobre o Japão antes disso — nunca chegou perto de um título. Na semifinal daquele torneio, perdeu por 1 a 0 para a França, gol de Umtiti. Na época, o próprio Courtois chamou o jogo de "antifutebol". Oito anos depois, o goleiro protagoniza uma polêmica interna que coloca em dúvida se essa geração conseguirá ao menos se despedir de forma digna.

Levantado em matéria do SportNavo, o retrato estatístico da situação é claro: De Bruyne e Lukaku chegam ao torneio em momento de menor destaque comparado aos anos anteriores, e a base jovem da seleção ainda não tem nomes com o mesmo peso para assumir o protagonismo. A Bélgica está no Grupo G da Copa do Mundo 2026, e o desempenho coletivo dependerá diretamente de quanto essa geração ainda consegue render — e de quanto os veteranos conseguem conviver.
O retorno de Courtois resolveu o problema do gol para Rudi Garcia, mas criou um precedente institucional que Casteels já nomeou com precisão: a federação cedeu a um jogador que abandonou o grupo por questão de ego. Se Courtois tiver um desentendimento com Garcia antes da Copa do Mundo 2026, a Bélgica vai abrir mão de suas regras novamente para mantê-lo — ou vai, desta vez, segurar a linha?








