Confesso: durante anos tratei a Noruega como uma curiosidade estatística, um asterisco no histórico da Seleção Brasileira. Errei feio. Quando o sorteio colocou os dois países nas oitavas da Copa do Mundo de 2026, tive de abrir meus arquivos e encarar os números sem filtro. O Brasil não venceu a Noruega em nenhum dos últimos cinco confrontos — dois deles terminaram em derrota, três em empate. A última vitória brasileira data de 1988, há exatos 38 anos. Isso não é asterisco. Isso é tabu documentado.

O retrospecto que ninguém gosta de ler

Os cinco confrontos entre Brasil e Noruega revelam um padrão incômodo. A última vitória canarinho aconteceu em 1988, por 2 a 0, com gols de Romário e Bebeto — dupla que, anos depois, faria história no Mundial de 1994. Desde aquela tarde, a Seleção Brasileira não voltou a vencer os noruegueses em nenhuma oportunidade. Dois empates se seguiram antes do episódio mais doloroso da série: a derrota por 2 a 1 na fase de grupos da Copa do Mundo de 1998, em Marselha.

Aquele jogo de 23 de junho de 1998 entrou para a história por razões que só ganhariam pleno significado quase três décadas depois. Alf-Inge Haaland, lateral-direito norueguês com a camisa 2, distribuiu a assistência que originou um dos gols da vitória escandinava. O filho daquele jogador, Erling Haaland, hoje é o centro de gravidade da seleção que o Brasil enfrentará no domingo (5) às 17h no MetLife Stadium, em Nova Jersey. A história tem uma ironia cruel: o pai participou da única derrota brasileira para a Noruega em Copas; o filho pode participar da segunda.

Para contextualizar a dimensão daquela derrota em 1998: o Brasil chegou a Marselha como atual campeão mundial, vindo de uma campanha de quatro vitórias consecutivas nas eliminatórias. A Noruega, liderada por Tore André Flo e Ole Gunnar Solskjær, aplicou uma das maiores zebras da fase de grupos daquele torneio. O resultado não impediu o Brasil de avançar — a Seleção terminou em segundo no grupo — mas o precedente ficou gravado.

A diferença entre 1998 e o que Haaland representa em 2026

Comparar gerações exige cuidado, mas os números autorizam a comparação. Na Copa de 1998, a Noruega chegou à fase de grupos com Solskjær como referência ofensiva — o atacante do Manchester United marcou 23 gols em 67 jogos pela seleção norueguesa ao longo da carreira. Erling Haaland, aos 25 anos, já acumula mais de 30 gols pela seleção principal e chega à Copa de 2026 como artilheiro do torneio até aqui, após a vitória por 2 a 1 sobre a Costa do Marfim que garantiu a classificação nas oitavas.

O técnico norueguês Stale Solbakken tentou administrar o clima antes do confronto. Após a vitória sobre a Costa do Marfim, foi questionado três vezes pela imprensa sobre o Brasil e esquivou-se com diplomacia calculada:

"Sabemos que vamos enfrentar um dos favoritos, mas gostaria de ampliar minha resposta mais perto da partida. Parece que não é algo que temos de comentar na entrevista de hoje."

Horas depois, porém, um vídeo do vestiário norueguês viralizou com Solbakken fazendo um discurso inflamado e soltando: "Pode esperar, Carlo Ancelotti. Estamos chegando." O treinador fez questão de contextualizar a fala antes que ela se transformasse em combustível para a imprensa brasileira:

"Fico o mais longe possível de provocar alguém. Ancelotti talvez seja o maior treinador da história do futebol europeu, junto com Guardiola, Mourinho. Tenho um grande respeito por ele. Não foi uma análise profunda, só um lembrete do que vamos ter pela frente nos próximos 4 ou 5 dias."

O que Ancelotti precisa resolver antes do MetLife

Carlo Ancelotti chegou às oitavas após uma virada de 2 a 1 sobre o Japão que não foi tranquila. O próprio treinador admitiu que a equipe encontrou dificuldades na primeira etapa, mas defendeu a postura do grupo: "Eu sofri menos que os torcedores, estava confiante porque a equipe estava jogando." A declaração gerou debate — a colunista Milly Lacombe, no UOL, classificou como "extremamente infeliz" a ideia de que a Copa começa nas quartas de final, argumentando que o Brasil poderia ter sido eliminado nas fases anteriores caso não tivesse vencido o primeiro jogo.

O Japão expôs uma fragilidade que a Noruega certamente explorou em vídeo: o Brasil tem dificuldade contra blocos baixos e bem organizados. A seleção norueguesa, mesmo com Haaland como referência de ataque, é disciplinada taticamente sob Solbakken — o técnico construiu uma equipe que sabe defender com estrutura e transitar em velocidade. O próprio Solbakken reconheceu o favoritismo adversário sem falsa modéstia: "Brasil é o favorito, claro. E também um grande candidato a ser campeão."

O histórico de 38 anos sem vitória contra os noruegueses tem uma explicação parcial na raridade dos confrontos — cinco jogos em quase quatro décadas é uma amostra pequena. Mas o padrão é revelador: a Noruega nunca foi derrotada pelo Brasil, e essa estatística não é coincidência. Os escandinavos têm uma forma de jogar que historicamente incomoda a Seleção: jogo aéreo, duelos físicos, velocidade nas transições e um centroavante de área — em 1998 era Flo, hoje é Haaland.

38 anos de tabu chegam ao MetLife com data e hora marcadas

A última vez que o Brasil venceu a Noruega, em 1988, a Seleção Brasileira ainda não havia conquistado seu quarto título mundial. Romário tinha 22 anos e marcava os primeiros gols de uma trajetória que resultaria em 55 tentos em Copas do Mundo entre fases classificatórias e torneios finais. Bebeto completou o placar naquela tarde. Passaram-se seis Copas do Mundo desde aquela vitória — 1990, 1994, 1998, 2002, 2006, 2010, 2014, 2018, 2022 — e em nenhuma das oportunidades em que os países se cruzaram o Brasil saiu vitorioso.

No domingo (5), às 17h (horário de Brasília), no MetLife Stadium em Nova Jersey, o Brasil terá a décima primeira chance de encerrar esse tabu. Ancelotti precisará resolver o problema do bloco defensivo norueguês que Solbakken construiu ao longo de anos — e fazê-lo com a pressão adicional de que uma derrota encerra a campanha. É o mesmo cenário que a Seleção Brasileira viveu em 1998 diante desse mesmo adversário, só que naquele ano o grupo ainda tinha uma segunda vida na fase de grupos — agora, no mata-mata, não existe margem para o erro que Marselha permitiu.