Confesso: em 2022, eu subestimei a torcida marroquina. Cobri a Copa do Qatar achando que o espetáculo seria sempre no gramado — e aí aquela marea vermelha e verde tomou os estádios e me fez rever tudo. Hoje, de Washington, vejo esse mesmo fenômeno ameaçado não por um adversário em campo, mas por um carimbo de borracha num consulado americano.

Ao menos 40 torcedores marroquinos tiveram seus pedidos de visto negados pelas autoridades dos Estados Unidos, segundo relatos de grupos organizados. Ingressos comprados, passagens emitidas, hotéis reservados — tudo virou prejuízo. A Copa do Mundo começa, e parte da festa já morreu antes de o árbitro apitar.

A Associação Desportiva e o Sbouaa diante de um muro de negativas

O calor de Washington em junho não tem nada de metafórico para quem está tentando resolver isso por telefone e e-mail. A Associação Desportiva de Torcedores da Seleção Marroquina enviou 42 solicitações de visto em diferentes cidades do país. Resultado: apenas 2 aprovadas. Dois. Numa delegação de quarenta e dois.

O grupo Sbouaa — os Leões, responsáveis pelas coreografias e festas que viraram símbolo da presença marroquina em torneios internacionais — apresentou cerca de 50 pedidos de coordenadores. Somente 6 foram autorizados. Os organizadores são categóricos: precisam de ao menos 30 coordenadores para recriar nos estádios americanos a atmosfera que parou o mundo durante a Copa do Qatar em 2022 e em edições da Copa Africana de Nações.

"Temos empregos estáveis, vínculos familiares, histórico de viagens internacionais e nenhuma intenção de ficar nos Estados Unidos além do período permitido", disseram integrantes dos grupos afetados, contestando publicamente as justificativas consulares.

A maioria das negativas foi fundamentada no Artigo 214 da legislação migratória americana, norma aplicada quando agentes consulares entendem que o solicitante não apresentou garantias suficientes de retorno ao país de origem. Para os torcedores, a justificativa não se sustenta diante dos documentos apresentados.

A narrativa que defende os EUA esbarra nos próprios números

A interpretação dominante entre autoridades americanas é que o processo de visto segue critérios técnicos e objetivos — e que cada caso é analisado individualmente. Há quem argumente que o Artigo 214 é uma ferramenta legítima de controle migratório, aplicada de forma universal, sem viés de nacionalidade.

Só que os números desafiam essa leitura. Uma taxa de aprovação de menos de 5% entre os membros da Associação Desportiva — dois aprovados em 42 — dificilmente se explica por insuficiência documental individual. Quando o padrão se repete em dois grupos distintos, o problema deixa de ser pontual e passa a ser sistêmico.

Os próprios torcedores trouxeram um precedente incômodo para o debate: autoridades marroquinas conseguiram recentemente facilitar vistos para fãs que acompanharam a seleção sub-20 no Chile. Se o mecanismo funciona em outros países, por que trava especificamente nos Estados Unidos, sede do maior torneio do futebol mundial?

"Economizamos durante muito tempo para essa viagem. Organizamos férias, compromissos familiares, tudo em função da Copa", relataram torcedores prejudicados, segundo grupos organizados marroquinos.

A falta de uniformidade nas decisões também é gritante. Dentro do mesmo grupo, com perfis socioeconômicos semelhantes, alguns foram aprovados e outros não. Isso aponta menos para uma avaliação criteriosa e mais para uma loteria burocrática — e loterias não combinam com a maior festa do futebol do planeta.

O que a Copa perde quando a arquibancada fica vazia de cultura

Aqui está a síntese que nenhum comunicado oficial vai admitir: a Copa do Mundo 2026 precisa das torcidas tanto quanto precisa dos jogadores. A atmosfera não é um detalhe de produção — ela é parte do produto.

Marrocos chegou ao Qatar em 2022 como azarão e saiu como fenômeno global, semifinalista histórico. Parte desse fenômeno tinha nome e sobrenome: eram os Sbouaa nas arquibancadas, os tambores, as coreografias, o mar de bandeiras que fazia os estádios parecerem uma extensão do Norte da África. Tirar esses coordenadores dos jogos é amputar uma experiência que a FIFA vende ao mundo como insubstituível.

O impacto financeiro já é real. Ingressos adquiridos para os jogos dos Leões do Atlas na Copa do Mundo não serão reembolsados automaticamente. Passagens aéreas têm multas de cancelamento. Hotéis nas cidades-sede cobram por reservas não canceladas dentro do prazo. Cada visto negado é uma cadeia de prejuízos que começa no consulado e termina no bolso de quem sonhou durante meses com essa viagem.

A questão agora é objetiva: Marrocos estreia na Copa do Mundo e o prazo para recursos ou soluções diplomáticas está se fechando. As associações de torcedores seguem pressionando por revisão dos casos, e o governo marroquino foi acionado para intermediar junto às autoridades americanas — o mesmo caminho que funcionou para a seleção sub-20 no Chile. Se essa pressão vai chegar a tempo de colocar os coordenadores dos Sbouaa dentro de um estádio nos EUA, ainda é uma incógnita. O que já está decidido é o prejuízo de quem ficou para trás — e o silêncio que vai ocupar o lugar onde deveria estar o barulho de uma torcida inteira.

Uma Copa do Mundo sem suas torcidas mais vibrantes é como uma orquestra tocando com metade dos instrumentos: a partitura existe, os músicos estão lá, mas algo essencial falta no ar — e quem já ouviu o som completo sabe exatamente o que está ausente.