A última vez que a Copa do Mundo perdeu um participante credenciado por decisão unilateral de um governo anfitrião foi em 1934, quando a Itália de Mussolini usou pressão política para moldar a lista de árbitros estrangeiros que trabalhariam no torneio. Noventa e dois anos depois, o caso do árbitro somali Omar Abdulkadir Artan — vetado pelos Estados Unidos antes mesmo de pousar em território americano — ressuscita um fantasma que muitos na Fifa acreditavam ter enterrado.
O veto que a Fifa não quis evitar
Artan estava entre os 52 árbitros selecionados pela entidade para o Mundial de 2026. A negativa de visto das autoridades americanas chegou sem apelação e, segundo a própria Fifa, sem margem para reversão. A posição oficial da entidade foi direta ao ponto — e, ao mesmo tempo, reveladora de sua impotência:
"Em linha com eventos anteriores da FIFA, cabe, em última instância, ao governo do país anfitrião determinar quem recebe um visto e quem tem permissão para entrar em seu território."
A frase é tecnicamente correta, mas politicamente conveniente. A Fifa não controla processos de imigração — isso é fato. O que ela também não fez, ao menos publicamente, foi incluir cláusulas de garantia de acesso no contrato de sede com os EUA. Sem isso, o regulamento do torneio fica subordinado à política migratória de Washington.
O precedente que ninguém queria lembrar
Em 2002, quando a Copa foi disputada no Japão e na Coreia do Sul, nenhum árbitro ou delegado teve acesso negado — os dois países tinham acordos de visto facilitado com praticamente todas as federações participantes. Em 1994, nos próprios EUA, o torneio ocorreu num clima político diferente: o governo Clinton não impunha restrições de entrada a profissionais de futebol vindos de países africanos ou do Oriente Médio com a mesma frequência registrada hoje. A Somália, país de origem de Artan, figura em listas de atenção migratória americana desde 2001.
O árbitro não é o primeiro a sentir essa barreira. Em abril de 2026, o iraquiano Aymen Hussein foi detido por sete horas no aeroporto de Chicago antes de ser liberado — um episódio que já havia acendido o alerta dentro das confederações asiática e africana sobre o risco de seus representantes no Mundial.
A estrutura de poder que torna o caso possível
Desde a reforma do formato da Copa, em 2026, com 48 seleções e um número recorde de jogos — 104 partidas distribuídas entre EUA, Canadá e México —, a Fifa precisou ampliar substancialmente seu quadro de árbitros. São mais jogos, mais fases, mais necessidade de profissionais de diferentes confederações. Cortar um árbitro da lista dois meses antes da estreia, como aconteceu com Artan, não é apenas uma injustiça individual: é uma falha sistêmica que pode se repetir.

A Confederação Africana de Futebol (CAF) e a Confederação Asiática (AFC) já manifestaram preocupação formal com a situação. Nenhuma das duas recebeu garantias escritas da Fifa de que casos similares não se repetirão antes da abertura do torneio, marcada para 11 de junho no estádio Azteca, no México.
O que a Fifa pode — e provavelmente não vai — fazer
Há um modelo que funciona: os Jogos Olímpicos. O Comitê Olímpico Internacional exige dos países-sede um acordo formal de acesso garantido a atletas, árbitros e delegações de todos os países membros, independentemente de relações diplomáticas. A Fifa nunca adotou esse padrão com o mesmo rigor — e o caso Artan é a conta chegando.
Uma solução de curto prazo seria a criação de um mecanismo de visto diplomático especial vinculado à credencial da Fifa, negociado diretamente com o Departamento de Estado americano antes de cada torneio. O COI faz isso há décadas. Mas a Fifa, historicamente, prefere deixar essas tratativas para o último momento — e, quando o problema aparece, recua para o argumento da soberania nacional.
A Copa começa em 11 de junho. Omar Artan assistirá de longe, em algum lugar, a partidas que ele deveria estar apitando. O marcador do placar no estádio não registrará a ausência — mas o precedente já está no livro de atas.








