A última vez que a Holanda entrou em uma Copa do Mundo sem Memphis Depay na titularidade foi em 2014 — e Louis van Gaal precisou de Robin van Persie e Arjen Robben para chegar ao terceiro lugar. Doze anos depois, Ronald Koeman enfrenta uma dúvida parecida: o atacante do Corinthians se recuperou de um estiramento muscular de grau 2 na coxa direita e não passou de 45 minutos em campo em nenhuma das três partidas desde que voltou. A estreia contra o Japão, no próximo domingo em Dallas, pode acontecer sem ele no onze inicial.
"Para ser sincero, não acho que ele esteja 100% pronto para começar jogando ainda. Ainda temos um amistoso e alguns dias de treino. Não estou descartando nada", disse Koeman após a vitória por 2 a 1 sobre o Uzbequistão.
O problema ofensivo que Koeman já reconhece
A frase do técnico holandês é honesta — e preocupante. Nos dois últimos amistosos da Holanda, todos os gols marcados saíram de pênalti. Zero gols de jogo aberto, incluindo o segundo contra o Uzbequistão, convertido no último lance da partida. Para quem vai encarar um Japão que, na Copa do Mundo de 2022, eliminou Alemanha e Espanha, essa ineficiência ofensiva é um sinal de alerta real.
Uma métrica que expõe esse problema é o xG (expected goals) — a soma da probabilidade de cada finalização virar gol, baseada em posição, ângulo e tipo de chute. Quando um time cria chances mas não converte, o xG fica acima do placar real, indicando desperdício. Koeman confirmou isso em palavras: "Perdemos três ou quatro grandes chances que deveríamos ter aproveitado." Traduzindo para a métrica: a Holanda está subperformando seu próprio xG, o que é exatamente o tipo de ineficiência que times organizados como o Japão sabem punir.
O PPDA (passes permitidos por ação defensiva) do Japão nas eliminatórias asiáticas ficou consistentemente abaixo de 8 — o que significa pressão alta e intensa, dificultando construções lentas. Contra um bloco assim, a Holanda vai precisar de velocidade e verticalidade, não de um camisa 10 ainda abaixo de 100% fisicamente.
Quem assume o espaço de Memphis no ataque holandês
O principal candidato é Donyell Malen, ponta direita do Borussia Dortmund que acumula 14 gols na Bundesliga 2025/2026 — mais que qualquer outro jogador holandês em atividade no futebol europeu nesta temporada. Koeman reconheceu que Malen desperdiçou uma chance clara contra o Uzbequistão, mas manteve o tom positivo: "Ele está lá. É positivo que tenhamos criado chances, mas a finalização precisa melhorar."
Malen e Cody Gakpo formam o par mais provável de pontas caso Memphis fique no banco. Comparando os dois com o camisa 10 em termos de progressive passes — passes que avançam pelo menos 10 metros em direção ao gol adversário — Gakpo lidera com folga dentro do sistema do Liverpool, onde registrou média de 4,3 progressive passes por 90 minutos na Premier League 2025/2026. Memphis, nas três partidas desde que voltou de lesão, mal completou 45 minutos em campo, o que torna qualquer comparação de ritmo desfavorável para ele.
- Malen — velocidade em profundidade, 14 gols na Bundesliga 2025/2026, finalização direta
- Gakpo — 4,3 progressive passes/90 min, versatilidade para jogar pela esquerda ou como segundo atacante
- Memphis — liderança técnica, cobranças de falta e pênalti, mas ainda limitado fisicamente após estiramento grau 2
O dado que resume a situação: nas três partidas em que Memphis atuou desde o retorno, a Holanda somou exatamente 1 gol de jogo aberto — e não foi dele. Malen e Gakpo, juntos, têm mais defensive actions por partida que Memphis, o que também importa contra o pressing japonês.
O que a Holanda precisa resolver antes de domingo
O esquema de Koeman no 4-3-3 depende muito da mobilidade dos pontas para criar superioridades nos corredores. Sem Memphis como referência central ou pelo corredor esquerdo, Gakpo tende a ocupar posição mais interior, liberando Malen para explorar a profundidade pela direita. Essa configuração aumenta os progressive passes vindos do meio — especialmente de Frenkie de Jong — mas reduz a capacidade de segurar a bola no terço final, algo que Memphis faz naturalmente.
A xA (expected assists) é a métrica que melhor captura essa diferença: ela mede a qualidade dos passes que geram finalizações. Memphis, quando em ritmo de jogo, acumula xA alto por sua capacidade de encontrar companheiros em posição de chute. Gakpo tem xA semelhante quando joga pelo meio, mas perde esse número quando recuado para a ponta. A Holanda, portanto, vai depender mais de De Jong e Tijjani Reijnders como criadores de último passe se Memphis não começar.
Koeman ainda tem um amistoso e alguns dias de treino antes de domingo. Se Memphis aparecer no onze inicial em Dallas, será uma virada de roteiro — mas o técnico já sinalizou que isso não é o cenário mais provável. A Holanda enfrenta o Japão às 17h (horário de Brasília), no AT&T Stadium, em Dallas, no dia 14 de junho, pela primeira rodada do Grupo F da Copa do Mundo. Uma derrota ou empate já colocaria pressão imediata sobre o confronto seguinte, contra a Suécia no dia 20, em Houston.
A última vez que a Holanda entrou em uma Copa do Mundo sem Memphis Depay na titularidade foi em 2014 — e desta vez não há Van Persie esperando no banco para resolver com uma cabeçada acrobática.








