Diz-se que uma seleção com 100% de aproveitamento não tem problemas. Na verdade, tem — e o tipo de problema que emerge quando tudo vai bem costuma ser o mais revelador sobre a saúde interna de um grupo. A Copa do Mundo 2026 já entregou esse fenômeno à Alemanha com clareza matemática: a Nationalmannschaft lidera o Grupo E com seis pontos em dois jogos, saldo de gols absurdo, vaga nas oitavas garantida — e ainda assim Julian Nagelsmann acorda nesta quinta-feira (25) com uma pesquisa do jornal Bild na mesa que diz, sem rodeios, que 49% dos torcedores querem Deniz Undav no time titular contra o Equador.

A campanha alemã no Grupo E e o peso dos números

A Alemanha estreou na Copa com uma goleada de 7 a 1 sobre Curaçao em 17 de junho, no NRG Stadium, em Houston. Quatro dias depois, no dia 21, superou a Costa do Marfim por 2 a 1 em partida que exigiu mais esforço — o empate em 1 a 1 persistiu até os acréscimos. Dois jogos, duas vitórias, dez gols marcados, dois sofridos. Pelos critérios de desempate da FIFA, a seleção tem vantagem considerável sobre a Costa do Marfim tanto no saldo de gols quanto no ranking da entidade. O primeiro lugar está blindado. O jogo de quinta contra o Equador, portanto, é matematicamente irrelevante para a classificação — e é exatamente essa irrelevância esportiva que abre espaço para o debate tático que a torcida não quer mais adiar.

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A pesquisa do Bild, feita com pouco mais de mil entrevistados, é contundente: 27% dos torcedores elegem Undav como o melhor jogador alemão no torneio até aqui, à frente de qualquer outro nome do elenco. Outros 49% querem o centroavante do Stuttgart como titular diante do Equador. Apenas 18% se posicionaram contra essa escalação, e 33% preferiram delegar a decisão ao treinador.

O que Undav fez saindo do banco — e o que isso lembra historicamente

Para entender a dimensão do que Deniz Undav está produzindo, é útil recorrer a um paralelo histórico preciso. Na Copa de 1994, nos Estados Unidos, o alemão Karl-Heinz Riedle entrou como reserva em momentos decisivos e foi fundamental para o aproveitamento do time — mas jamais com a eficiência por minuto que Undav está exibindo em 2026. O atacante do Stuttgart somou três gols e duas assistências em apenas 56 minutos de jogo: 26 minutos contra Curaçao, nos quais marcou um gol e distribuiu duas assistências na goleada, e 30 minutos contra a Costa do Marfim, quando entrou com o placar em 1 a 1 e marcou o gol da vitória nos acréscimos. Nenhum jogador de Copa do Mundo desde Eusébio em 1966 havia acumulado participação direta em cinco gols com tão pouco tempo em campo — e Eusébio era titular.

A comparação com a era de Gerd Müller também é inevitável. O Bomber der Nation marcou 14 gols em duas Copas (1970 e 1974), sendo artilheiro em ambas, mas sempre como titular incontestável. O que Undav está fazendo como reserva não tem precedente documentado na história da seleção alemã.

"Trata-se de liderar pelo exemplo, com intensidade nos treinos e bons jogos. Mostrar que todo mundo que entra, seja como titular ou vindo do banco, precisa ir até o limite para o time vencer", disse Undav ao ser questionado sobre sua ascensão junto à torcida.

Nagelsmann entre a lógica tática e a pressão do torcedor

O técnico Julian Nagelsmann, de 38 anos, montou um time titular que funcionou nos dois jogos — e esse é seu argumento mais sólido para resistir às mudanças. Mas a lógica do futebol de alto nível também diz que um jogo sem risco de eliminação é o momento ideal para rodar o elenco, poupar jogadores com desgaste físico e, ao mesmo tempo, dar ritmo de jogo a quem está aquecido no banco. Undav, nesse contexto, tem todos os argumentos a seu favor: está em forma, está confiante, e a torcida alemã já o elegeu o nome do torneio.

Antes do jogo contra a Costa do Marfim, o próprio atacante já havia sinalizado seu desejo de forma equilibrada, sem criar atrito com o treinador ou com os titulares:

"Sonho com a titularidade, mas não tenho a pretensão de assumir o posto do onze inicial de qualquer maneira", afirmou Undav, que foi contido ao comentar a popularidade crescente com a torcida alemã.

A postura de Undav — ambiciosa mas não disruptiva — é, aliás, o que torna o debate mais interessante. Não há conflito declarado, não há crise. Há simplesmente um jogador produzindo em nível histórico fora do time titular e uma torcida que, legitimamente, quer ver isso testado por 90 minutos.

O que está em jogo para o mata-mata alemão

A questão que Nagelsmann precisa responder não é apenas "Undav deve ser titular contra o Equador?". A pergunta real é: qual é o perfil de ataque que a Alemanha quer levar para as oitavas de final? Um centroavante de área, finalista e decisivo nos momentos críticos, ou um sistema mais fluido que sacrifica a referência central em nome da mobilidade? Essa discussão, registrada em reportagem publicada pelo SportNavo ao longo da campanha alemã, vai além de um único jogo e toca na identidade tática que Nagelsmann construiu desde que assumiu a seleção.

Historicamente, as Copas ganhas pela Alemanha — 1954, 1974, 1990 e 2014 — tiveram sempre um centroavante dominante: Morlock, Müller, Klinsmann e Klose. Mario Götze, curiosamente, marcou o gol do título em 2014 como centroavante improvisado entrando do banco — outra vez, um reserva decidindo. O precedente existe. A torcida alemã sabe disso.

A Alemanha entra em campo nesta quinta-feira (25) contra o Equador, às 16h (horário de Brasília), no State Farm Stadium, em Glendale, Arizona. Nagelsmann tem até o apito inicial para decidir se Undav começa entre os onze — ou se a maior polêmica da fase de grupos alemã segue sem resposta até o mata-mata.

Diz-se que uma seleção com 100% de aproveitamento não tem dilemas. Na verdade, tem — e o tipo de dilema que emerge quando tudo vai bem é o que define se um técnico está apenas administrando vitórias ou construindo algo maior.