O campo estava vazio. Nenhuma bola em jogo, nenhum torcedor nas arquibancadas — apenas um corredor de vestiário no CT do Real Madrid, câmeras de celular e o silêncio pesado de quem recebe uma notícia irreversível. Rodrygo acabava de confirmar o que os exames de imagem já indicavam: ruptura do ligamento cruzado anterior e do menisco externo do joelho direito. A Copa do Mundo de 2026, que começa no dia 10 de junho nos Estados Unidos, México e Canadá, já havia perdido um de seus protagonistas mais aguardados.
A história do torneio é pontuada por esse tipo de tragédia silenciosa. Em 1958, a fratura do capitão francês Robert Jonquet na semifinal contra o Brasil — uma colisão com Vavá aos 35 minutos, placar de 1 a 1 — entregou a partida de bandeja ao escrete canarinho. Pelé fez três gols após o acidente, o Brasil venceu por 5 a 2 e foi ao título. Em 2022, Lucas Hernández durou exatamente 12 minutos contra a Austrália antes de romper o ligamento cruzado anterior do joelho direito e ser retirado de maca. A lesão no joelho não é uma novidade do futebol moderno: segundo especialistas em medicina esportiva, ela representa cerca de 11% de todas as contusões em membros inferiores, que já somam mais de 70% dos casos no futebol de alto rendimento.
As dez baixas que mais pesam para as seleções favoritas
Levantamento publicado pelo O Globo às vésperas do torneio catalogou as ausências mais impactantes desta edição. A lista reúne atletas de Brasil, França, Alemanha, Holanda, Japão e Suécia — e o denominador comum entre a maioria deles é o joelho:
- Rodrygo (Brasil) — ruptura do ligamento cruzado anterior e menisco externo do joelho direito; previsão de recuperação entre 6 e 12 meses
- Éder Militão (Brasil) — lesão grave no joelho; segunda grave contusão no período de dois anos
- Estevão (Brasil) — problema físico que o manteve fora das últimas semanas de preparação
- Hugo Ekitiké (França) — lesão que inviabilizou convocação por Deschamps
- Ter Stegen (Alemanha) — cirurgia no joelho que o afastou por meses; goleiro titular do Barcelona na temporada 2025/2026
- Serge Gnabry (Alemanha) — contusão recorrente que encerrou suas chances no ciclo
- Matthijs De Ligt (Holanda) — problema muscular que o tirou das convocações finais
- Xavi Simons (Holanda) — lesão confirmada semanas antes da Copa
- Kaoru Mitoma (Japão) — baixa que compromete o setor ofensivo da seleção asiática
- Dejan Kulusevski (Suécia) — problema físico que o impediu de integrar o grupo
Neymar, que tentava se recuperar de uma lesão muscular de grau menor, foi dado como desfalque certo ao menos na estreia brasileira, marcada para o dia 13 de junho contra o Marrocos. Wesley, lateral da seleção brasileira, sofreu lesão de grau 3 na coxa e precisou ser cortado antes mesmo da viagem.
O Brasil paga o preço de uma geração sem profundidade no banco
Para entender o tamanho do estrago no Brasil, basta recorrer a um paralelo histórico. Em 2002, quando Ronaldo voltou de duas temporadas assombradas por convulsões e problemas musculares para marcar oito gols e ser eleito o melhor do torneio, a seleção tinha alternativas reais: Ronaldinho, Rivaldo e Kaká esperando vez. O elenco de 2026 não oferece esse mesmo colchão de qualidade no setor ofensivo — a ausência de Rodrygo, principal referência técnica do ciclo segundo o próprio ambiente da CBF, expõe uma lacuna que Estevão, ainda com 18 anos, não está em condições de preencher sozinho. A saída de Militão na zaga acrescenta pressão sobre uma defesa que já vinha sendo questionada nas Eliminatórias Sul-Americanas.
"Exames de Neymar tranquilizam a CBF, mas apontam ausência do atacante na estreia do Brasil na Copa do Mundo", conforme registrado pelo SportNavo nas semanas que antecederam o torneio.
A Alemanha enfrenta dilema parecido. Ter Stegen era o titular absoluto sob Julian Nagelsmann e sua cirurgia no joelho, confirmada ainda durante a temporada 2025/2026 do Barcelona, obrigou a comissão técnica a replanejar a posição mais sensível do sistema defensivo alemão. O país que dominou três Copas seguidas entre 1972 e 1990 — com 58, 60 e 62 pontos de aproveitamento, respectivamente, nos respectivos ciclos de hegemonia — sabe que fragilidade na meta pode custar caro em mata-matas decididos por detalhes.
França e Holanda sem peças do quebra-cabeça tático
A França de Didier Deschamps é a campeã em exercício desde o título de 2018 na Rússia e vice-campeã em 2022 no Catar, quando Lucas Hernández foi retirado de campo aos 12 minutos da estreia com ruptura do ligamento cruzado — o mesmo tipo de lesão que agora assombra a edição americana do torneio. A perda de Hugo Ekitiké retira uma opção de velocidade e profundidade que Deschamps vinha construindo como plano B para momentos em que Mbappé precisasse de apoio. A Holanda, por sua vez, perde De Ligt e Xavi Simons — um defensor com liderança de vestiário e um meia capaz de conectar linhas — justamente quando o técnico Ronald Koeman precisaria de máxima estabilidade tática para fazer a equipe avançar além das quartas de final, barreira que os Oranje não superam desde 2014.
O joelho como denominador comum
A preponderância de lesões ligamentares nesta Copa não é coincidência. Médicos ouvidos na cobertura pré-torneio alertaram que o calendário europeu 2025/2026 — especialmente com a expansão da Liga dos Campeões para 36 clubes e a nova fase de liga — deixou os atletas com janelas de recuperação menores do que o habitual. A entorse e a desinserção do ligamento cruzado, como ocorreu com Daniel Alves em 2018, às vésperas da Copa da Rússia, exigem cirurgia quando o quadro é de ruptura completa; nos casos de grau menor, o tratamento conservador pode preservar o atleta — mas raramente a tempo de uma competição que começa em semanas.
O que os dados desta edição mostram é que a Copa do Mundo de 2026 será, ao menos em parte, decidida por quem sobrar de pé. Brasil, França e Alemanha entram no torneio com peças ausentes que teriam somado centenas de minutos de jogo nos esquemas táticos de seus treinadores. A estreia do Brasil, dia 13 de junho contra o Marrocos, será o primeiro teste real de quanto essa seleção consegue operar sem o jogador que somou 47 gols e assistências com a camisa do Real Madrid na temporada 2025/2026.








