Cara, o São Paulo caiu pro Juventude de novo.
De novo? Isso já aconteceu antes?
Em 2016. Mesma Copa do Brasil. Mesma eliminação.

A cena poderia ter acontecido em qualquer boteco da Avenida Paulista na noite de quarta-feira, no ritmo lento de quem ainda processa uma derrota por 3 a 1 em Caxias do Sul. Mas o que estava sendo digerido ali não era apenas um resultado — era o número 58. Com a eliminação na quinta fase da Copa do Brasil, o São Paulo ultrapassou o Santa Cruz e se tornou o clube da elite brasileira com mais quedas em competições oficiais desde 2003, início da era dos pontos corridos.

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A interpretação mais fácil sobre Roger Machado e a crise tricolor

A leitura imediata da torcida e de parte da imprensa foi direta: a demissão de Roger Machado, anunciada logo após o apito final em Caxias do Sul, seria a solução para um ciclo de instabilidade técnica. O treinador acumulava resultados insuficientes e uma rejeição crescente nas arquibancadas do Morumbis. A narrativa do técnico errado no momento errado tem apelo emocional — e alguma base factual.

O problema é que esse raciocínio não explica 58 eliminações. Explica, no máximo, as últimas. Desde 2003, o São Paulo trocou de treinador com uma frequência que dificulta qualquer projeto de médio prazo. Dorival Júnior, hoje apontado como o "plano A" da diretoria para assumir o cargo, já passou pelo clube duas vezes: em 2017, quando salvou o time do rebaixamento por apenas sete pontos de diferença, e em 2023, quando conquistou a Copa do Brasil — título inédito na história do clube. A terceira passagem seria um dado incomum no futebol brasileiro, e levanta questões sobre a capacidade institucional de formar alternativas internas.

O mapa das eliminações do São Paulo desde 2003

Os dados distribuídos por competição revelam um padrão mais complexo do que a simples narrativa de um clube em crise conjuntural. O Campeonato Paulista lidera o ranking de quedas, com 18 eliminações desde 2003 — número que reflete tanto a competitividade regional quanto a dificuldade histórica do clube em manter consistência ao longo de uma temporada inteira. A Copa do Brasil aparece em segundo lugar, com 15 eliminações, seguida pela Libertadores, com 13, e pela Sul-Americana, com 12.

A recorrência no Paulistão é sociologicamente reveladora: trata-se da competição de maior pressão simbólica local, onde a disputa com Corinthians e Palmeiras — que somam quatro eliminações impostas ao São Paulo cada um na era dos pontos corridos — carrega peso identitário desproporcional ao seu valor econômico. O Santos lidera a lista de carrascos individuais, com seis eliminações sobre o Tricolor no período. Athletico-PR e Cruzeiro aparecem com quatro cada, o que indica vulnerabilidade também fora do eixo paulistano.

A Copa do Brasil, por sua vez, concentra eliminações que dói de forma diferente: são partidas eliminatórias únicas, sem margem para recuperação ao longo de uma série de jogos. A queda para o Juventude em 2026 repete o enredo de 2016, quando o clube gaúcho eliminou o São Paulo nas oitavas de final pelo critério do gol fora de casa. Dez anos depois, o roteiro voltou com um placar mais contundente.

O que 58 eliminações dizem sobre a gestão esportiva do clube

A contra-leitura possível — e necessária — é que o número 58 não é apenas um acúmulo de derrotas técnicas. Ele é um indicador de gestão. Clubes como Botafogo, com 52 eliminações no mesmo período, e Fluminense, com 49, enfrentaram crises financeiras documentadas que comprometeram a montagem de elencos competitivos. O São Paulo, por contraste, operou com orçamentos significativamente maiores em boa parte desse intervalo.

A pergunta que os dados colocam não é sobre o próximo técnico — é sobre a arquitetura de decisões que produz instabilidade crônica independentemente de quem está no banco. A possível terceira passagem de Dorival Júnior pode gerar um título pontual, como aconteceu em 2023. Mas sem um modelo de planejamento esportivo que reduza a dependência de ciclos curtos de treinadores, o número 58 continuará crescendo.

O São Paulo retorna ao Brasileirão neste fim de semana, competição em que precisa reagir para não se aproximar da zona de rebaixamento. Se Dorival Júnior for confirmado antes da rodada, será sua estreia em uma terceira passagem pelo clube — e a pergunta concreta que fica é: o São Paulo conseguirá manter o treinador por tempo suficiente para construir algo além de um título isolado, ou a lógica das 58 eliminações vai consumir também esse ciclo?