11 de julho de 2006. Naquele dia, a Alemanha goleou Portugal por 3 a 1 e disputou o terceiro lugar da Copa do Mundo de Berlim. Mas o que ficou gravado na memória coletiva brasileira foi o que acontecera quatro dias antes: a derrota para a França de Zidane, por 1 a 0, nas quartas de final. Uma geração inteira — hoje com mais de 35 anos — carrega aquele 1 a 0 como uma cicatriz. São esses mesmos torcedores que, duas décadas depois, olham para a Copa do Mundo de 2026 com muito mais cautela do que os jovens de 16 a 24 anos que nunca viram o Brasil levantar uma taça.
Os 59% que não carregam o peso de 2006, 2010, 2014 e 2022
A pesquisa Nexus, encomendada pela CBF, revelou que 59% dos brasileiros entre 16 e 24 anos acreditam no título da Seleção Brasileira na Copa de 2026. O número contrasta com brutalidade com o índice geral de 29% apontado pelo Datafolha — o menor da série histórica do levantamento, iniciada há cerca de três décadas. Reparemos no detalhe: um jovem de 24 anos tinha 12 anos quando o Brasil foi eliminado pela Holanda nas quartas de 2010. Tinha 8 quando Zidane fez o gol que silenciou o Estádio Olímpico de Berlim. E tinha apenas 4 anos quando Ronaldo e companhia conquistaram o penta no Japão e na Coreia, em 2002. A memória afetiva desse grupo começa, na prática, no 7 a 1.
Quem tem 40 anos hoje viveu o tetra de 1994, o penta de 2002, e depois atravessou um deserto de 24 anos sem título. Essa acumulação de frustrações — 2006, 2010, o trauma de Belo Horizonte em 2014 e a eliminação nas quartas para a Croácia em 2022 — sedimenta uma desconfiança estrutural que nenhum técnico, por mais laureado que seja, consegue apagar com facilidade. O Datafolha captura exatamente esse eleitorado mais velho e mais cético.
O levantamento da AtlasIntel, premiada com diamante pelo The New York Times por sua precisão em pesquisas anteriores, reforça o cenário: 7 em cada 10 brasileiros não acreditam no título. Ygor Sampaio, head de inteligência da empresa, sintetizou o dado com precisão cirúrgica ao CNN Brasil.
"A gente perde a emoção com o tempo e o que vai sobrando é a esperança. É o torcedor fiel que ainda acredita na Seleção Brasileira, que acredita no trabalho de renovação que o Ancelotti vem fazendo. Então acho que esse indicador é muito mais forte de que o brasileiro ainda acredita. Ainda não é um número de confiança, não é tão expressivo assim."
O "Efeito Ancelotti" age mais forte em quem cresceu no futebol das redes sociais
A chegada de Carlo Ancelotti ao comando da Seleção é aprovada por 57% dos brasileiros, segundo a Nexus. Entre os jovens de 16 a 24 anos, essa aprovação sobe para 72%. O técnico italiano carrega um currículo sem paralelo: cinco títulos da Champions League, além de conquistas em Premier League, La Liga, Serie A, Bundesliga e Ligue 1 — o único treinador da história a vencer os cinco principais campeonatos europeus. Para uma geração que consumiu futebol pelo YouTube e pelo TikTok, Ancelotti não é um nome abstrato. É o homem que dirigiu Cristiano Ronaldo, Kaká, Benzema e Vinícius Jr. no Real Madrid. Essa familiaridade importa.
Cinquenta e três por cento dos entrevistados pela Nexus acreditam que a contratação de Ancelotti aumenta as chances do Brasil de chegar ao título. Entre os homens de 16 a 24 anos, esse percentual sobe para 65%. O contraste com o público acima dos 60 anos é revelador: 33% dos mais velhos desaprovam a contratação de um técnico estrangeiro, percentual que sobe para 37% entre os de menor escolaridade. A desconfiança com o "forasteiro" ecoa uma tradição cultural que remonta à polêmica em torno de Filpo Núñez, técnico uruguaio que dirigiu o Brasil nos anos 1940, e à resistência histórica que sempre cercou treinadores de fora.

Há também um fator de contexto que a pesquisa da Apoema, realizada antes da Copa do Catar em 2022, ajuda a iluminar: naquele momento, 71% dos brasileiros acreditavam no hexa. Hoje, com os mesmos jogadores mais velhos e mais um fracasso no currículo, o número despencou para 29% na média geral. Mas os jovens de 2026 não carregam 2022 da mesma forma. Para eles, Vinícius Jr., Rodrygo e Endrick representam uma promessa ainda não quebrada — e não uma sequência de decepções acumuladas.
O que os números de 2026 dizem sobre o Brasil que vai ao Mundial
A pulverização do favoritismo é um dado que merece atenção. Segundo o Datafolha, a França aparece com 17% das citações como favorita ao título, seguida por Argentina e Alemanha, ambas com 4%. A soma dos percentuais atribuídos aos rivais diretos do Brasil chega a 34%, superando os 29% da própria Seleção — uma inversão que não tem precedente na série histórica do levantamento. A AtlasIntel vai além: 35,8% dos entrevistados apontam a França como principal favorita ao título, ante 29,7% para o Brasil.
O dado também tem leitura geográfica. O otimismo com a Seleção é maior no Sul do país, onde 53% dos entrevistados pela Nexus veem o Brasil como favorito ou competitivo. No Sudeste, berço da maior concentração de torcedores e também da imprensa mais crítica, a desaprovação da contratação de Ancelotti é mais alta (28%). Torcedores do Norte e Centro-Oeste lideram a aprovação ao técnico italiano, com 68%. Essas assimetrias regionais refletem não apenas diferentes histórias de consumo de futebol, mas também distintas relações com os veículos de comunicação que moldaram a narrativa sobre a Seleção nas últimas décadas.
"Se a gente fosse perguntar para as pessoas qual é a expectativa delas em relação à Seleção Brasileira [nos últimos anos], esse número seria muito maior."
A frase de Ygor Sampaio, publicada em matéria do SportNavo sobre o levantamento da AtlasIntel, resume o arco histórico com precisão. Em 1994, às vésperas do título nos Estados Unidos, a confiança era quase universal. Em 2002, ela voltou com força após a ressaca de 1998. Em 2006 e 2010, começou a erodir. Em 2014, desabou junto com o placar de 7 a 1. Em 2022, tentou se recuperar e voltou a cair. Cada ciclo deixou menos torcedores dispostos a apostar no hexa — exceto os que ainda não viveram ciclos suficientes para desconfiar.
A Copa do Mundo de 2026 começa para o Brasil em 13 de junho, contra Marrocos, em Nova Jersey. Para os jovens de 16 a 24 anos que respondem por esse otimismo de 59%, será a primeira Copa em que votaram na Seleção com plena consciência do que está em jogo. Para os mais velhos que puxam a média para baixo, já é a décima ou décima segunda tentativa. É o mesmo cenário que a torcida brasileira viveu em 1994 — só que agora a aposta é feita por quem não se lembra da derrota anterior.








