"Tentamos de tudo. Criamos chances, finalizamos muito. Mas o gol não veio." Quem disse isso foi Vincenzo Montella, técnico da Turquia, depois da derrota por 1 a 0 para o Paraguai que selou a eliminação precoce da seleção europeia na Copa do Mundo. A frase parece defensiva. Os dados, porém, confirmam ao menos a primeira parte — e tornam a segunda ainda mais absurda.
O número que define uma eliminação histórica
Sessenta e dois chutes em dois jogos. A Copa do Mundo 2026 já viu muita coisa, mas nenhuma seleção finalizou tanto quanto a Turquia até a segunda rodada. Para efeito de comparação, times que avançam de fase costumam converter entre 10% e 15% das finalizações totais na fase de grupos. Com 62 tentativas, a Turquia deveria ter marcado entre 6 e 9 gols pelo padrão médio do torneio. O placar real: zero.

Aqui entra o conceito de xG (expected goals) — a métrica que mede a qualidade de cada chance de gol com base no ângulo, distância e contexto da finalização. Uma finalização de dentro da área, após cruzamento, tem xG alto. Um chute de 35 metros, de ângulo fechado, tem xG próximo de zero. O problema da Turquia não era só quantidade — era que boa parte dessas 62 finalizações carregava xG baixo, indicando que os turcos chegavam ao chute de posições ruins ou após construções ofensivas mal resolvidas.

Equador, Haiti e Panamá também estavam zerados no quesito gols até a segunda rodada, mas nenhum deles chegou perto de 62 finalizações. A ineficiência turca tem uma camada a mais: o volume existia, a conversão não.
A tempestade que não trovejou — o colapso ofensivo em campo
Assistir à Turquia atacar era como observar um temporal que carrega nuvens escuras, relâmpagos e vento forte — mas não produz uma gota de chuva. O movimento era intenso, os jogadores chegavam à área com frequência, mas a finalização final sempre encontrava o goleiro adversário, a trave ou o espaço vazio acima do gol.
Dois indicadores ajudam a entender por quê. O primeiro é o xA (expected assists), que mede a qualidade dos passes que antecedem as finalizações. Quando o xA coletivo de um time é baixo mesmo com alto volume de chutes, significa que as jogadas chegam ao finalizador em condições precárias — ângulo fechado, marcação próxima, corpo mal posicionado. O segundo é o índice de progressive passes convertidos em finalizações dentro da área: a Turquia criava progressão, mas perdia qualidade na última fase do ataque.
O resultado prático foi uma seleção que dominou estatísticas de volume, mas entregou uma das conversões mais baixas da história recente de Copas do Mundo. Dois jogos, duas derrotas, zero gols.
O custo no ranking da Fifa e quem lucrou com o fracasso turco
No ranking da Fifa, cada derrota redistribui pontos para o adversário. A derrota por 1 a 0 para o Paraguai custou à Turquia 29,34 pontos — a maior perda individual da segunda rodada. Somando as duas rodadas, a seleção europeia caiu 10 posições no total, ocupando agora o 32º lugar.
Quem ganhou com isso:
- Paraguai: +29,34 pontos, subiu 5 posições — maior ganho da rodada
- Noruega: +29,30 pontos após vencer o Senegal por 3 a 2, subiu 5 posições e chegou ao 22º lugar
- Estados Unidos: +21,06 pontos com vitória por 2 a 0 sobre a Austrália
- Canadá: goleou o Catar por 6 a 0, custando 20,63 pontos aos cataris
A Noruega merece atenção especial. Com Erling Haaland em forma, os noruegueses venceram os dois primeiros jogos e acumularam 9 posições de subida desde o início do torneio. Conforme registrado pelo SportNavo, a seleção escandinava enfrenta a França na última rodada do Grupo I — quem vencer fica com a primeira posição do grupo.
O ranking geral e o que esperar da última rodada
O top-10 do ranking da Fifa após a segunda rodada ficou assim:
- Argentina — 1.901,93 pts
- França — 1.894,40 pts
- Espanha — 1.864,32 pts
- Inglaterra — 1.829,82 pts
- Brasil — 1.772,01 pts
- Marrocos — 1.769,98 pts
- Portugal — 1.766,74 pts
- Holanda — 1.764,40 pts
- Alemanha — 1.760,46 pts
- Bélgica — 1.727,88 pts
Uma curiosidade que os números de PPDA (passes permitidos por ação defensiva) ajudam a contextualizar: seleções que pressionam alto tendem a forçar finalizações de baixa qualidade nos adversários. A Turquia foi vítima exatamente disso — pressionada, chegava ao chute, mas em condições ruins. O PPDA defensivo dos adversários turcos foi consistentemente baixo, indicando pressão intensa e bem organizada contra a saída de bola europeia.
Cabo Verde, outra surpresa positiva do torneio, somou mais 11,99 pontos após empatar em 2 a 2 com o Uruguai e chegou ao 63º lugar no ranking — três posições acima do início da competição.
A terceira rodada da fase de grupos, que começa a ser disputada a partir desta quarta-feira (25), vai redesenhar o ranking mais uma vez — e o duelo Noruega x França, com Haaland de um lado e o ataque francês do outro, é o jogo com maior potencial de movimentação de pontos entre todas as partidas restantes do grupo.








