A última vez que a França encerrou um ciclo de invencibilidade antes de uma Copa do Mundo foi em 2002, quando o então campeão mundial caiu na fase de grupos sem marcar um gol sequer. Nesta quinta-feira (4), em Nantes, o sinal de alerta voltou a piscar: a seleção de Didier Deschamps perdeu de virada para a Copa do Mundo, por 2 a 1, para uma Costa do Marfim que não apenas jogou com qualidade — jogou com sangue francês nas veias. Oito dos convocados marfinenses para o torneio nasceram na França, e seis deles estiveram em campo no amistoso justamente contra o país que os viu nascer.

A virada que a França não esperava de si mesma

O primeiro tempo pertenceu aos franceses. Rayan Cherki foi o protagonista: recebeu na entrada da área aos 44 minutos, limpou dois marcadores e bateu cruzado para abrir o placar. Mas a Costa do Marfim demonstrou organização defensiva consistente no bloco médio e apostou nas transições para desequilibrar — padrão que se consolidou de vez na etapa final. O técnico Emerse Faé fez duas substituições decisivas no intervalo, entre elas Nicolas Pépé, e o panorama mudou radicalmente.

A virada que a França não esperava de si mesma 8 franceses vestem a camisa do Ma
A virada que a França não esperava de si mesma 8 franceses vestem a camisa do Ma

Guéla Doué empatou ao receber passe em profundidade de Pépé e bater na saída do goleiro Maignan. Aos 38 minutos do segundo tempo, Amad Diallo, do Manchester United, recebeu cruzamento pelo lado direito e bateu de primeira para fechar a virada. A França, que chegou a ser apontada como uma das favoritas ao título, saiu de campo com um resultado que reacende debates sobre a consistência do esquema de Deschamps.

"Estávamos em dificuldade em alguns momentos", admitiu o capitão Hugo Lloris após um amistoso anterior, frase que ressoa com ainda mais peso depois desta derrota.

Quem são os 8 marfinenses nascidos na França

No futebol africano contemporâneo, quem não tem estrutura de base caça talentos na diáspora — e a Costa do Marfim transformou essa necessidade numa estratégia de Estado. O goleiro Yahia Fofana, o meia Seko Fofana, o atacante Elye Wahi, o centroavante Ange-Yoan Bonny (que atua pela Inter de Milão), Nicolas Pépé (ex-Arsenal, hoje no Villarreal), além de Evan Guessan e o goleiro Alban Lafont completam a lista ao lado de Guéla Doué. Todos nascidos em território francês, todos optando por defender a bandeira do país de onde seus pais ou avós emigraram.

A Costa do Marfim foi colônia francesa até 1960, e a imigração posterior criou uma diáspora numerosa e culturalmente híbrida. Para muitos desses atletas, a escolha pela seleção africana não é apenas esportiva — é uma declaração de identidade. Como apurado em matéria do SportNavo, seis desses oito jogadores estiveram em campo nesta quinta-feira contra a própria nação que os formou.

Quem são os 8 marfinenses nascidos na França 8 franceses vestem a camisa do Marf
Quem são os 8 marfinenses nascidos na França 8 franceses vestem a camisa do Marf

Dois irmãos, uma cidade, destinos opostos

O caso mais emblemático da noite tem sobrenome Doué. Guéla e Désiré nasceram em Angers, na França, e iniciaram as categorias de base praticamente juntos no Rennes. Os caminhos divergiram quando se tornaram profissionais: Désiré seguiu para o Paris Saint-Germain, tornou-se campeão da Champions League e consolidou-se como titular da seleção francesa; Guéla foi para o Strasbourg e decidiu honrar a herança paterna, optando pela Costa do Marfim — país de origem do pai.

Na quinta-feira, enquanto Désiré assistia do banco da história, Guéla marcou o gol do empate e protagonizou a virada que derrubou a invencibilidade francesa. Um provérbio popular diz que "água mole em pedra dura tanto bate até que fura" — e Guéla, pacientemente construindo sua trajetória à sombra do irmão mais famoso, furou a defesa francesa no momento mais simbólico possível.

"Guelá sendo o mais velho, ambos começaram a trajetória praticamente ao mesmo tempo nas categorias de base do Rennes", registrou o Lance!, evidenciando que a diferença entre os dois irmãos sempre foi de escolha, não de talento.

O que esta vitória significa para o Grupo E da Copa do Mundo

A Costa do Marfim está no Grupo E da Copa do Mundo 2026, ao lado da Alemanha, entre outros adversários. A vitória sobre a França — mesmo em amistoso — projeta os Elefantes como uma equipe capaz de explorar transições ofensivas com velocidade e efetividade, exatamente o padrão que desequilibrou os franceses na segunda etapa. Para a Alemanha, o alerta é claro: a Costa do Marfim não é apenas uma seleção africana com potencial — é uma equipe com jogadores formados nos melhores clubes europeus.

Para a França, a derrota levanta questões táticas antes da estreia no torneio, especialmente com a grave lesão de Hugo Ekitiké que já abriu lacuna no setor ofensivo. O quarteto com Michael Olise, Ousmane Dembélé, Désiré Doué e Kylian Mbappé ainda precisa demonstrar consistência coletiva. A Costa do Marfim, por sua vez, chega ao torneio com a confiança de quem derrotou um dos favoritos ao título a apenas 7 dias do início da Copa do Mundo.