27 de maio de 2026. Nesta quarta-feira, o nome do investidor de referência da Copasa deveria ser revelado ao mercado — e o processo que vai redefinir o saneamento de 830 municípios mineiros deixou de ser uma promessa política para se tornar uma operação de mercado com calendário, carta de fiança e bookbuilding marcado. O prazo final para o preço da oferta está fixado para 2 de junho. Minas Gerais acordou para um leilão que pode movimentar mais de R$ 13 bilhões.
O caminho que levou a Copasa até o leilão
O projeto de lei da privatização foi aprovado no final de 2025, encerrando a fase legislativa e abrindo caminho para uma sequência de etapas corporativas e regulatórias. Em fevereiro de 2026, a companhia formalizou as condições do processo: o Estado de Minas Gerais, que hoje detém 50,03% do capital, poderá reter no máximo 5% após a conclusão da oferta, mantendo apenas uma golden share com direitos de veto sobre decisões estratégicas. Toda a oferta é 100% secundária — sem emissão de novas ações, apenas repasse da participação estatal ao mercado.
O Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCE-MG) deu o aval formal na segunda-feira, dia 18 de maio, desbloqueando o lançamento do prospecto. Com isso, o cronograma ganhou contornos precisos: construção do livro de ofertas entre 28 de maio e 1º de junho, até as 14h, e definição do preço no dia 2 de junho. O Itaú BBA, que reiterou recomendação de outperform com preço-alvo de R$ 55,90, e o BTG, com preço-alvo de R$ 52, enxergam o processo como gatilho de valorização de curto prazo para o papel CSMG3 — que já acumula alta de 20,15% no ano.
A disputa pelo controle e as regras do jogo
O modelo desenhado pelo governo mineiro exige que o investidor de referência adquira 30% do capital da Copasa antes da oferta ao mercado, com possibilidade de ampliar essa fatia até 45% dos direitos de voto durante o bookbuilding. Para entrar na corrida, os interessados precisaram comprovar investimentos mínimos de R$ 6,3 bilhões em infraestrutura nos últimos 20 anos e apresentar uma carta de fiança de pelo menos R$ 7 bilhões, emitida por banco autorizado a operar no Brasil. Outros 15% das ações serão pulverizados no mercado via bookbuilding.

A disputa se concentrou entre dois grupos: Aegea e Sabesp, esta última esperada em consórcio com a Equatorial. O mercado também cogitou uma terceira via — um consórcio formado por grande player financeiro e construtora com alta capacidade de execução. O vencedor se compromete com um lock-up de quatro anos sem vender as ações adquiridas e deve manter ao menos 50% da fatia original até 2033, ou até o cumprimento das metas de universalização de água e esgoto. Um acordo de não concorrência obriga o novo sócio a usar a Copasa como veículo exclusivo para investimentos em saneamento dentro de Minas Gerais.
"O setor está aguardando os próximos passos da privatização da Copasa e esperamos que haja grande concorrência", afirmou Christianne Dias, presidente da Abcon, que também foi diretora-presidente da ANA. "É o maior processo de privatização do ano no setor."
O espelho da Sabesp e o que o mineiro pode esperar na conta de água
Aqui mora o nó que o mercado financeiro tende a suavizar e que o consumidor mineiro precisa encarar sem filtro. O modelo da Copasa foi desenhado para seguir o da Sabesp — e a privatização da estatal paulista, concluída com a entrada da Equatorial como controladora, resultou em reajustes tarifários que pressionaram a conta de água em São Paulo. A lógica é estrutural: o investidor privado precisa remunerar capital e cumprir metas de universalização, e parte desse custo é repassado ao usuário via tarifa regulada.
O desafio da Copasa tem uma camada adicional de complexidade. Diferentemente da Sabesp, que opera em municípios mais concentrados, a companhia mineira atende 830 municípios — um universo pulverizado de stakeholders que torna a gestão operacional mais cara e a renovação de contratos mais trabalhosa. O contrato com Belo Horizonte, o mais relevante da carteira, ainda carecia de equacionamento definitivo até a reta final do processo.
- Outorga mínima definida pelo governo de MG: R$ 3,1 bilhões
- Oferta secundária estimada: entre R$ 8,8 bilhões e R$ 10 bilhões
- Movimentação total prevista: mais de R$ 13 bilhões
- Participação do Estado após a oferta: máximo de 5% + golden share
"Na Sabesp, a Equatorial fez a oferta, levou, e hoje está fazendo todas as melhorias no controle total da companhia. O grande valor ainda existe algum trabalho a ser feito em relação à renovação de contratos, principalmente com o município de Belo Horizonte", avaliou Lucas Sant'Anna, sócio de Direito Público e Regulatório do Machado Meyer.
A regulação tarifária da Copasa é exercida pela ARSAE-MG, que teoricamente serve de amortecedor entre o apetite do novo controlador e o bolso do consumidor. Mas o histórico da Sabesp mostra que a privatização, por mais bem-estruturada que seja no papel, cria pressão ascendente sobre tarifas — especialmente quando o novo dono precisa acelerar investimentos para cumprir metas de universalização dentro de prazos legais. Com o preço da oferta definido em 2 de junho e a conclusão do processo prevista para o fim do primeiro semestre de 2026, o mineiro que paga conta de água vai descobrir em breve o custo real dessa transição.










