— Cara, o Congo vai jogar a Copa mesmo com o ebola rolando lá?
— Vai, mas nenhum jogador pisou em Kinshasa. Tão todos na Bélgica.
— Espera, como assim? Então a Copa já começou pra eles antes do apito inicial?
A troca de mensagens entre torcedores resume, com precisão involuntária, o que a Copa do Mundo de 2026 já representa para a República Democrática do Congo antes mesmo de uma bola ser chutada: um labirinto sanitário, diplomático e logístico sem precedentes na história do torneio. Com cerca de 900 casos confirmados de ebola em território nacional e os três países anfitriões — Estados Unidos, Canadá e México — adotando restrições severas para viajantes oriundos da região, a delegação congolesa se viu obrigada a redesenhar toda a sua preparação para o Mundial.
O surto que forçou 21 dias de isolamento antes do torneio
Um relógio já estava correndo antes de qualquer convocação ser divulgada. A Organização Mundial da Saúde classificou o surto de ebola na RDC como emergência de saúde pública de alcance internacional — o nível mais alto de alerta da entidade. Com esse status, o governo dos Estados Unidos determinou que qualquer pessoa que tenha permanecido na República Democrática do Congo, em Uganda ou no Sudão do Sul nos 21 dias anteriores à entrada no território americano estaria proibida de ingressar no país. A medida foi estendida inclusive a portadores de green card.
A Federação Congolesa de Futebol, a FECOFA, havia planejado inicialmente realizar parte da preparação em Kinshasa antes de embarcar para a Bélgica, onde a equipe completaria o ciclo de treinos. Com o avanço do surto e a barreira americana de 21 dias em vigor, esse roteiro tornou-se inviável. A solução encontrada foi enviar jogadores e comissão técnica diretamente para a Europa, contornando o prazo exigido pelos anfitriões norte-americanos. Todos os atletas convocados atuam em clubes europeus, o que facilitou a operação logística — mas não eliminou o desconforto institucional de uma seleção que não pode sequer treinar em casa antes do maior torneio do planeta.
Para medir a dimensão do problema além dos números brutos de contágio, é útil recorrer a um indicador epidemiológico chamado taxa de ataque secundário — equivalente, na saúde pública, ao que o xG (gols esperados) representa no futebol: uma métrica preditiva que estima a probabilidade de transmissão a partir de um caso confirmado. Nas regiões mais afetadas da RDC, essa taxa tem se mostrado alta o suficiente para justificar o nível de alerta da OMS, ainda que o diretor-geral da entidade, Tedros Adhanom Ghebreyesus, tenha declarado que o surto "pode ser contido" — e, ao mesmo tempo, manifestado resistência às restrições de viagem adotadas pelos três países anfitriões.
"A saúde e a segurança de cidadãos e visitantes são a maior prioridade", afirmaram em comunicado conjunto as autoridades de Estados Unidos, Canadá e México — sem detalhar, no entanto, quais protocolos específicos serão aplicados durante o período do Mundial.
Fronteiras fechadas e o silêncio dos anfitriões sobre o dia do jogo
A resposta dos três países-sede foi rápida, mas deixou lacunas preocupantes. Os Estados Unidos proibiram a entrada de estrangeiros com passagem recente pela RDC, Uganda e Sudão do Sul. O Canadá foi além e suspendeu por 90 dias a entrada de residentes dessas três nações africanas. O México intensificou protocolos de triagem sanitária nos aeroportos, embora sem divulgar os critérios técnicos adotados, segundo informações acompanhadas pelo SportNavo.
O que chama atenção no comunicado conjunto dos três governos é justamente o que ele omite: não há nenhuma menção às condições de acesso de delegações, árbitros, jornalistas e torcedores vindos de países em situação de risco sanitário durante o período do torneio — que se inicia em junho e se estende até meados de julho de 2026. A FIFA, por sua vez, ainda não apresentou um protocolo público de resposta ao surto.
Tedros Adhanom Ghebreyesus foi direto ao apontar a contradição entre o discurso de cooperação global e as medidas unilaterais adotadas pelos anfitriões.
"Restrições de viagem não são muito úteis", declarou o diretor-geral da OMS, argumentando que esse tipo de barreira tende a prejudicar a resposta epidemiológica sem necessariamente conter a disseminação do vírus.
O que ainda falta resolver para o Congo jogar em junho
A participação da RDC na Copa de 2026 carrega um peso histórico que torna cada obstáculo ainda mais sensível. Esta será apenas a segunda aparição do país em uma Copa do Mundo. A estreia aconteceu em 1974, na Alemanha, quando o país competia sob o nome de Zaire — e entrou para a história como a primeira seleção da África Subsaariana a disputar um Mundial. Naquela edição, a equipe perdeu para o Brasil por 3 a 0 na fase de grupos e foi eliminada sem pontuar.
Cinquenta e dois anos depois, os congoleses chegam ao Grupo K com adversários de peso: Portugal, na estreia marcada para 17 de junho, além de Colômbia e Uzbequistão. A FECOFA buscou tranquilizar torcedores ao destacar que todos os convocados atuam na Europa e que os membros da comissão técnica que estavam em Kinshasa deixaram o país antes do agravamento do surto — o que, tecnicamente, cumpre a exigência americana de 21 dias fora da zona de risco.
O nó que permanece sem resposta concreta é o seguinte: caso o surto se agrave nas próximas semanas e novos protocolos sejam adotados pelos países-sede, a delegação congolesa — mesmo cumprindo a quarentena na Bélgica — poderá enfrentar restrições adicionais de entrada nos EUA, onde a maioria dos jogos do Grupo K deve ser realizada. A FECOFA não divulgou o cronograma completo de deslocamentos, e a FIFA ainda não confirmou se criará uma bolha sanitária específica para a delegação. O primeiro teste real acontece em 17 de junho, quando a RDC enfrenta Portugal — e qualquer imprevisto nos próximos dias pode transformar uma questão de saúde pública em uma crise diplomática às vésperas do apito inicial.












