"Tô lá! Tô lá!" — Neymar gritou isso numa live ao saber da convocação. A frase diz muito: não é a voz de quem chega como favorito. É a voz de quem precisava provar que ainda existia.
A lista que Carlo Ancelotti anunciou nesta segunda-feira, 18 de maio, no Museu do Amanhã, no centro do Rio de Janeiro, carrega um número que exige contexto: 908,7 milhões de euros, segundo o Transfermarkt — aproximadamente R$ 5,31 bilhões em valor de mercado reunidos em 26 jogadores. Para ter dimensão histórica, o Brasil que conquistou o pentacampeonato em 2002 tinha, naquele grupo, talvez três ou quatro jogadores cujo valor de mercado somado chegaria a essa cifra. O futebol mudou. A pressão, não.
Vinicius lidera um ranking que reflete uma geração em transição
Vinicius Jr. encabeça a lista com 150 milhões de euros — R$ 876 milhões na cotação atual. É o jogador mais caro da história do futebol brasileiro em termos de avaliação de mercado, superando o próprio Neymar no auge, quando o camisa 10 foi negociado por 222 milhões de euros entre Barcelona e PSG em 2017. Logo atrás de Vinicius vem Raphinha, do Barcelona, avaliado em 80 milhões de euros, seguido de Gabriel Magalhães, do Arsenal, e Bruno Guimarães, do Newcastle, ambos estimados em 75 milhões de euros cada.
Esse quarteto concentra 380 milhões dos 908,7 milhões totais — quase 42% do valor da seleção em quatro atletas. A concentração lembra a estrutura de 1994, quando Romário e Bebeto carregavam o peso ofensivo e o restante do grupo funcionava como engrenagem coletiva. A diferença é que, em 1994, o Brasil tinha Mazinho, Mauro Silva e Mazinho segurando o meio. Hoje, Casemiro está avaliado em apenas 10 milhões de euros — o mesmo valor de Neymar.
A curva de Neymar e o que os números escondem
Dez milhões de euros. Esse é o valor atual de Neymar segundo o Transfermarkt — o mesmo atribuído a Léo Pereira, zagueiro do Flamengo, e ligeiramente acima de Douglas Santos, Alex Sandro e Weverton. Para quem já foi o jogador mais caro do planeta, a cifra é brutal. Mas o mercado avalia presente, não passado.
Neymar chega à sua quarta Copa do Mundo, igualando Pelé em número de participações. O Rei foi a 1958, 1962, 1966 e 1970 — e marcou 12 gols nesses quatro torneios, incluindo dois na final de 1970 contra a Itália. Neymar soma oito gols em três Copas. A comparação numérica ainda favorece Pelé, mas o que Neymar pode fazer em 2026 — com 34 anos e apenas 15 jogos oficiais na temporada atual pelo Santos — é uma incógnita que divide especialistas e torcedores desde que seu nome começou a circular na pré-lista.
A reação exuberante na live com Cris Guedes contrasta com a frieza do mercado. Mas Copas do Mundo têm uma longa tradição de ressuscitar carreiras dadas como encerradas. Ronaldo Fenômeno, em 2002, chegou ao Japão saído de uma temporada repleta de lesões e saiu de lá artilheiro do torneio, com oito gols.
Os convocados que mais têm a ganhar neste momento
Se Vinicius e Raphinha já chegam ao Mundial com o peso da expectativa consolidada, há nomes cuja trajetória até aqui diz mais sobre caráter do que sobre cifras. Luiz Henrique, do Zenit, publicou um texto que captura bem esse espírito:
"Quando olho pra trás, vejo aquele menino do Vale do Carangola, em Petrópolis, no interior do Rio de Janeiro, correndo atrás de uma bola sem imaginar o tamanho do caminho que ainda teria pela frente."
Revelado pelo Fluminense, campeão da Libertadores e do Brasileirão pelo Botafogo, Luiz Henrique chega à Copa com dois gols e três assistências em 13 partidas pela seleção. Seu valor de mercado não está entre os maiores da lista — mas sua utilidade tática no ciclo pré-Copa foi reconhecida por Ancelotti.
Já Alisson Becker, goleiro do Liverpool, vai para sua terceira Copa e expressou o momento com uma clareza que só vem de quem já viveu o peso da camisa:
"Louvo ao Senhor por essa convocação! Um privilégio, acompanhado de uma imensa responsabilidade de vestir essa camisa! Lutaremos com todas as nossas forças para buscar a nossa tão sonhada sexta estrela!"
Alisson disputou 2018 e 2022 sem conquistar o título. O Brasil foi eliminado nas quartas de final nas duas ocasiões — por Bélgica e Croácia, respectivamente. Para o goleiro, a terceira Copa é literalmente a última chance de fechar esse ciclo.
A Copa do Mundo 2026 começa em junho, com o Brasil estreando nos Estados Unidos. O grupo de Ancelotti joga sua primeira partida da fase de grupos ainda no mês que vem — e é exatamente nessa estreia que se verá se o bilhão e meio de reais concentrado em Vinicius, Raphinha, Gabriel Magalhães e Bruno Guimarães se converte em futebol real ou permanece apenas como número de planilha. Vale gravar essa estreia.












