É um motor com dois corações brigando pelo mesmo pedal.
Essa metáfora captura com precisão o que Max Verstappen, 27 anos e tetracampeão mundial, critica com crescente veemência no atual regulamento técnico da Fórmula 1: a forma como a potência é dividida entre o motor a combustão interna (ICE) e o sistema de recuperação de energia elétrica (MGU-H e MGU-K). No paddock do GP do Canadá, em Montreal, o holandês da Red Bull foi além das críticas habituais e entregou um ultimato que sacudiu a categoria inteira — se as regras não mudarem para 2027, ele pode simplesmente ir embora.
O que Verstappen quer mudar no coração dos carros
Para entender a reclamação do piloto, é preciso entender como funciona a unidade de potência atual. Imagine um corredor de revezamento onde dois atletas disputam o mesmo bastão ao mesmo tempo: o motor a combustão e o sistema elétrico frequentemente se sobrepõem de forma ineficiente, gerando o que os engenheiros chamam de torque steer — uma variação brusca no torque que o piloto sente no volante como instabilidade, especialmente nas saídas de curva. Verstappen quer uma redistribuição dessa potência, com o sistema elétrico atuando de forma mais previsível e o motor a combustão entregando uma curva de potência mais linear.
A proposta técnica em debate para 2027 envolve aumentar a parcela elétrica de aproximadamente 120 kW para algo próximo de 200 kW, reduzindo a dependência do V6 turbo e tornando o carro mais responsivo ao pedal. O problema: algumas fabricantes que investiram bilhões no mapa atual de eficiência do ICE veem nessa mudança uma ameaça direta à sua vantagem competitiva. A Mercedes, por exemplo, dominou o conceito híbrido de 2014 a 2021 com uma arquitetura de MGU-H que nenhum rival conseguiu replicar com a mesma eficiência. Mexer nessa divisão é mexer em dinheiro.
Verstappen sem filtro em Montreal
O tetracampeão não escolheu palavras diplomáticas no Canadá. Quando questionado sobre a possibilidade de um ano sabático — aguardar 2028, caso as mudanças sejam adiadas — ele foi categórico:
"Não. Há muitas outras coisas divertidas por aí."
A frase carrega um peso enorme. Verstappen não está ameaçando trocar de equipe, como fez em conversas especulativas com a Mercedes em 2024. Ele está colocando a própria permanência na categoria em xeque. E foi além, descrevendo o estado atual como algo mentalmente insuportável:
"É simplesmente insuportável para mim continuar assim, mentalmente. De jeito nenhum."
A leitura técnica dessa insatisfação, na avaliação do SportNavo, aponta para algo além do desempenho da Red Bull RB21 nesta temporada. O holandês parece genuinamente frustrado com a filosofia de desenvolvimento que os regulamentos atuais impõem — carros cada vez mais dependentes de downforce aerodinâmico e menos responsivos ao estilo agressivo de pilotagem que o tornou tetracampeão.
"Quando o carro não responde ao que você pede, não importa quantos títulos você tem — a sensação é de impotência. E pilotos como ele não convivem bem com impotência", disse um engenheiro de pista com passagem por três equipes do grid, sem querer ser identificado.
A resistência das fabricantes e o papel da FIA
O impasse regulatório tem um mapa de forças claro. De um lado, Red Bull e alguns pilotos pressionam por mudanças na divisão de potência para 2027. Do outro, ao menos duas grandes fabricantes — cujos nomes não foram oficialmente confirmados, mas o contexto aponta para Mercedes e Ferrari — resistem, argumentando que as alterações invalidariam anos de investimento em P&D. A FIA e a Formula One Management (FOM), controlada pela Liberty Media, são os árbitros desse embate.
Verstappen foi direto ao endereçar essa resistência: "Algumas pessoas que talvez tenham alguma vantagem neste momento vão tentar dificultar as coisas. Mas se a FIA for forte, e também a FOM, eles simplesmente precisam fazer isso." O argumento técnico do holandês tem fundamento: a degradação térmica dos pneus — o processo pelo qual o calor acumulado destrói a borracha e reduz a aderência — é amplificada por carros que geram torque de forma errática. Um sistema elétrico mais robusto e linear poderia, em tese, suavizar a entrega de potência e reduzir esse desgaste, tornando as corridas mais estratégicas e menos dependentes de um único undercut no pit stop.
O risco real de adiamento para 2028 é concreto. Quando fabricantes com poder de voto no Concorde Agreement se opõem a mudanças, o processo regulatório pode travar por ciclos inteiros. E Verstappen deixou claro que não tem paciência para esperar:
"Se continuar assim, o ano que vem será longo, o que eu não quero."
O que a F1 perde se Verstappen sair
Colocar números no impacto é inevitável. Verstappen acumula 62 vitórias na F1 até o GP do Canadá de 2026, sendo o terceiro maior vencedor da história da categoria, atrás apenas de Lewis Hamilton (103) e Michael Schumacher (91). Sua audiência de mídia social ultrapassa 27 milhões de seguidores combinados nas principais plataformas, e o mercado holandês — que a F1 praticamente não existia antes de 2016 — hoje representa um dos maiores blocos de audiência televisiva da Europa, com o GP dos Países Baixos em Zandvoort consistentemente entre os três eventos mais assistidos do calendário.
Perder Verstappen não seria apenas perder um piloto rápido. Seria perder um vetor de audiência construído ao longo de uma década. A Liberty Media sabe disso, e a pressão sobre a FIA para aprovar as mudanças antes do prazo de congelamento regulatório — previsto para o segundo semestre de 2026 — nunca foi tão alta. A próxima reunião do Grupo de Trabalho Técnico da FIA, agendada para julho de 2026, será o momento decisivo para saber se o relógio de Verstappen vai ou não chegar ao limite.
27 títulos mundiais foram conquistados por pilotos que deixaram a F1 antes dos 35 anos. Verstappen tem 27.










