O pênalti de Marquinhos bateu na trave. Foi a imagem que encerrou a participação do Brasil na Copa do Mundo do Catar, em 9 de dezembro de 2022, diante de 88 mil pessoas no Estádio de Lusail. A Croácia avançava às semifinais; o Brasil voltava para casa carregando mais uma ferida aberta num torneio que o país não vence desde 2002. Agora, em 31 de julho, em Orlando, nos Estados Unidos, as duas seleções se reencontram — e o peso daquela noite no Catar paira sobre cada minuto do aquecimento.
O que os números de Lusail ainda dizem sobre a Croácia
Naquelas quartas de final de 2022, o Brasil chegou às penalidades após um empate por 1 a 1 no tempo normal e na prorrogação — gol de Neymar aos 105 minutos, resposta de Bruno Petkovic aos 117. Na disputa de pênaltis, Rodrygo e Marquinhos desperdiçaram; a Croácia converteu os quatro e passou com placar de 4 a 2 nas cobranças. Foi a terceira vez na história que o Brasil foi eliminado de uma Copa nos pênaltis, depois de 1986 (França) e 1998 (Holanda). A coincidência cruel é que todas as três ocorreram nas quartas de final.
O técnico Zlatko Dalic, que está no comando croata desde outubro de 2017, conduziu a equipe ao vice-campeonato em 2018 (derrota para a França por 4 a 2 na final de Moscou) e ao terceiro lugar em 2022. Agora prepara seu terceiro Mundial consecutivo, desta vez em busca do título inédito. A continuidade dele no cargo representa uma raridade no futebol contemporâneo: nove anos de trabalho com a mesma seleção, algo que seria injusto chamar de era — mas é uma era em escala de seleção nacional.
Nas eliminatórias europeias para a Copa de 2026, a Croácia foi impecável: sete vitórias e um empate em oito jogos, classificação direta e apenas quatro gols sofridos em todo o processo. Os croatas integrarão o Grupo L do Mundial, ao lado de Inglaterra, Gana e Panamá — um grupo que, no papel, coloca Dalic numa posição confortável para avançar às oitavas sem grandes sobressaltos.
A Croácia que chega a Orlando não é a mesma de Lusail
No amistoso contra a Colômbia disputado antes do encontro com o Brasil, Dalic testou um esquema com três zagueiros, usando a formação com Livakovic; Erlic, Vuskovic, Pongracic; Marco Pasalic, Sucic, Moro, Perisic, Vlasic, Matanovic e Mario Pasalic. Desse time, apenas três jogadores foram titulares contra o Brasil em Lusail. A Croácia venceu a Colômbia de virada por 2 a 1, o que indica que o treinamento tático está em curso, mas a qualidade individual segue presente.
O capitão Luka Modric, 40 anos, entrou como reserva no jogo contra a Colômbia, uma sinalização de que Dalic gerencia o desgaste do camisa 10 do AC Milan com cautela. O lateral Josip Stanisic, do Bayern de Munique, e o meia Mario Pasalic, da Atalanta, aparecem como referências de uma geração que já não depende exclusivamente do genial croata para funcionar. A transição geracional da Croácia, que muitos analistas europeus previam como colapso após a aposentadoria de Rakitic e Mandzukic, simplesmente não aconteceu.
"Queremos jogar nossa melhor versão em cada jogo, independentemente do adversário. A Copa de 2026 é o objetivo, mas cada partida nos aproxima ou nos afasta desse nível", declarou Dalic em entrevista coletiva antes da Data FIFA de julho.
O que Ancelotti precisa ver em Orlando
Carlo Ancelotti assumiu a Seleção Brasileira em 2025 e, desde então, acumula a missão de reconstruir uma identidade de jogo que o Brasil perdeu nos últimos ciclos. O amistoso contra a Croácia é, objetivamente, o teste de maior prestígio disponível antes do Mundial — enfrentar a equipe que eliminou o Brasil na última Copa, com Dalic ainda no comando, oferece uma régua de comparação que nenhum outro adversário amistoso poderia proporcionar.
O confronto histórico entre as duas seleções é curto, mas carregado: além de Lusail, as equipes se encontraram na fase de grupos da Copa de 2006, quando o Brasil venceu por 1 a 0, gol de Kaká, em Berlim. O retrospecto direto favorece o Brasil em Copas, mas o empate técnico de 2022 — e a frieza croata nas penalidades — deixou uma cicatriz que vai além da estatística.
Para Ancelotti, o amistoso de Orlando serve como laboratório para ao menos três questões que seguem sem resposta definitiva: a organização defensiva em blocos médios, a eficiência nas transições ofensivas e a capacidade de manter o controle emocional em momentos de pressão — exatamente o ponto onde o Brasil desmoronou em dezembro de 2022. Vinicius Jr., Rodrygo e Raphinha compõem o trio ofensivo de referência, mas a ausência de Neymar por lesão ainda pesa nas discussões sobre o peso de cada um desses nomes dentro do sistema.
"Cada amistoso tem um valor diferente. Quando você joga contra uma seleção que te eliminou numa Copa, o jogo tem um significado extra — para os jogadores, para a comissão técnica, para o torcedor", afirmou Ancelotti em entrevista à CBF TV antes da convocação para a Data FIFA de julho.
O Brasil entra no amistoso de Orlando ciente de que a Copa de 2026 começa a se desenhar em tempo real. A Seleção foi sorteada para um grupo que ainda não foi completamente definido nos detalhes táticos por Ancelotti, e cada partida desta reta final de preparação tem peso de audição. Croácia, em Orlando, no dia 31 de julho, às 20h (horário de Brasília) — vale gravar o jogo e assistir com calma, porque Ancelotti vai mudar coisas antes do apito final, e essas mudanças podem revelar o Brasil que irá ao Mundial.










