Diz-se que jogar com um a menos por metade do jogo não define o resultado — que a organização tática e a mentalidade compensam a desvantagem numérica. Na Arena Fonte Nova, neste sábado (30), o Botafogo provou que não compensa. Pelo menos não por 45 minutos inteiros contra um Bahia empurrado por sua torcida e faminto por uma vitória que não vinha há oito jogos.
O placar final foi 2 a 1 para o Esquadrão, pela 18ª rodada do Campeonato Brasileiro. O Glorioso havia aberto o marcador cedo, controlava as ações e parecia encaminhar um resultado que o manteria colado ao rival — os dois times chegaram ao confronto separados por apenas um ponto na tabela. Aí vem o problema…
O lance que dividiu o jogo em dois tempos diferentes
A expulsão do goleiro Neto aconteceu ainda no primeiro tempo e alterou completamente a dinâmica da partida. Com dez jogadores, o Botafogo precisou recuar o bloco, abrir mão da posse e administrar o resultado — tarefa que funcionou durante boa parte do confronto, mas que desmoronou quando um erro na saída de bola permitiu o empate do Bahia.
Nos acréscimos, David Duarte apareceu para completar a virada e decretar o 2 a 1. O Botafogo encerrou uma sequência de quatro jogos sem derrota da pior forma possível: cedendo a vitória nos minutos finais, longe de casa, depois de ter passado metade do jogo em inferioridade numérica.
A questão que ficou no ar — e que o clube não deixou passar em silêncio — é se a expulsão foi justa. O Botafogo entende que não. Ou pelo menos que o critério aplicado ao lance de Neto não foi o mesmo utilizado em situações similares ao longo da partida.
Franclim Carvalho e a reclamação sobre o quarto árbitro
O técnico Franclim Carvalho foi direto na entrevista coletiva. Não falou apenas da expulsão — foi além, apontando o comportamento da equipe de arbitragem como um fator que interferiu no ambiente do jogo.
"Quero fazer uma ressalva porque me parece importante. Não parece que qualquer membro da equipe de arbitragem possa ou tenha capacidade de dizer para se dirigir a minha comissão técnica e dizer 'agora não falem mais comigo' ou 'agora não me peçam mais faltas' e a seguir o gol de empate do adversário. O Lucas, quarto árbitro, teve um comportamento exemplar comigo, mas não com a minha comissão técnica. Se não tem capacidade para gerir os dois bancos, não pode falar essas declarações", disse Carvalho.
O treinador deixou claro que o problema não era apenas o cartão vermelho em si, mas a falta de uniformidade nas decisões ao longo dos noventa minutos. É uma crítica que o Botafogo tem repetido em diferentes rodadas do Brasileirão 2026 — e que desta vez ganhou reforço de peso no vestiário.
Arthur Cabral e a promessa que ele não conseguiu cumprir
Arthur Cabral foi ainda mais incisivo. O atacante revelou que havia feito uma promessa a si mesmo quando retornou ao futebol brasileiro depois de anos na Europa — e que a derrota para o Bahia o obrigou a quebrá-la.
"É complicado. A gente foi muito prejudicado. Quando jogava lá na Europa, eu via as entrevistas e prometi a mim mesmo que não falaria de arbitragem quando viesse para cá porque é muito cansativo. Quero falar da falta de critério. Fizemos uma partida excelente, não merecíamos a derrota apesar de jogarmos com um a menos por 45 minutos", declarou o atacante.
A fala de Cabral tem peso específico. O jogador passou anos no futebol europeu — onde a cultura de crítica pública à arbitragem é tratada com mais cautela pelas federações — e ainda assim optou por falar. Isso indica que, do ponto de vista do elenco, a percepção de injustiça foi forte o bastante para superar qualquer cálculo de imagem.
O outro lado da Arena Fonte Nova
Do lado do Bahia, o técnico Rogério Ceni preferiu destacar a reação coletiva e o papel da torcida. O Esquadrão chegou a este sábado com oito jogos sem vencer — uma seca que pressionava o ambiente no clube.
"Jogo físico, disputado. Chuva deixou o gramado pesado. Infelizmente tomamos um gol cedo. Destacar que o torcedor não parou de incentivar mesmo com um gol atrás. Foi importante para o time lutar até o final", afirmou Ceni após a partida.
O treinador também reconheceu que o período sem vitórias criou uma pressão psicológica no grupo. A diferença entre o Bahia que cedeu oito resultados sem triunfo e o Bahia que virou o jogo nos acréscimos diante do Botafogo é, segundo Ceni, a mesma que existe entre desistir e não desistir — uma distância que, no futebol, pode ser tão grande quanto a que separa Fortaleza de Porto Alegre, mais de 3.600 quilômetros, mesmo que no placar a diferença seja de um único gol.
A vitória, apurada em matéria do SportNavo, interrompe a sequência negativa do Bahia e devolve ao clube três pontos que mudam a leitura da tabela. Para o Botafogo, a derrota exige que o clube avalie com frieza dois pontos: a expulsão de Neto, que pode render punição adicional dependendo do motivo registrado na súmula, e o erro defensivo que originou o empate — porque sem esse vacilo, o 1 a 0 poderia ter resistido mesmo com dez homens.
O Bahia só volta a campo após a Copa do Mundo de 2026, com retorno marcado para 22 de julho, contra o Atlético-MG, na Arena MRV. O Botafogo também terá a pausa para reorganizar o elenco e definir se leva a reclamação sobre a arbitragem aos canais oficiais da CBF.










