Um placar de 5 a 1 no agregado da final do Paulistão Feminino de 2025 foi suficiente para reconfigurar o futuro de Lucas Piccinato no Corinthians. O próprio treinador, em entrevista ao Planeta Futebol Feminino, foi categórico ao apontar aquele resultado como o epicentro de sua saída do clube, meses depois da decisão: «Se eu for fazer um retrospecto do que definiu a minha saída do Corinthians, foi o Paulista de 25». A declaração, aparentemente simples, revela uma dinâmica institucional complexa — e bastante conhecida no esporte de alto rendimento — em que uma única derrota é capaz de superar uma trajetória inteira de resultados consistentes.

Uma final atípica num ciclo de alto desempenho

Piccinato conduziu o Corinthians a 10 finais em 11 campeonatos oficiais disputados durante sua gestão — um índice de presença em decisões que, em qualquer análise fria de desempenho esportivo, seria considerado expressivo. O treinador reconheceu essa marca com clareza: «Foram 11 campeonatos oficiais, 10 finais. Eu vejo como algo positivo». Contudo, o desfecho da final do Paulistão Feminino de 2025 contra o Palmeiras — goleada por 5 a 1 no jogo de ida, sem reversão no agregado — funcionou como um filtro que ofuscou esse histórico diante da diretoria.

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Uma final atípica num ciclo de alto desempenho A goleada que não saiu da cabeça
Uma final atípica num ciclo de alto desempenho A goleada que não saiu da cabeça

O que chama atenção no diagnóstico do próprio técnico é a caracterização daquele jogo como fora do padrão da equipe. «Foi um jogo muito atípico, não foi uma apresentação daquilo que a gente vinha fazendo», afirmou Piccinato. Essa distinção entre o resultado pontual e a regularidade construída ao longo da temporada é exatamente o tipo de tensão que a literatura sobre gestão esportiva identifica como um dos principais geradores de decisões irracionais em clubes de futebol — a chamada recência cognitiva, em que o evento mais recente e mais impactante distorce a avaliação do conjunto.

O peso da herança e a comparação inevitável A goleada que não saiu da cabeça de
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O peso da herança e a comparação inevitável

Assumir um projeto após um período de hegemonia construída por Arthur Elias — hoje técnico da Seleção Brasileira Feminina — colocou Piccinato em uma posição estruturalmente delicada desde o início. O treinador reconheceu essa dimensão sem rodeios: «A avaliação não é pelo que você entrega, e sim pelo que foi antes». A frase condensa um problema recorrente no futebol brasileiro: a dificuldade institucional de criar métricas de avaliação independentes do benchmark histórico imediato.

Conforme levantamento do SportNavo, o Corinthians Feminino construiu sob Elias uma das maiores hegemonias do futebol feminino sul-americano, com múltiplos títulos nacionais e campanhas continentais relevantes. Suceder a esse ciclo sem um período de transição devidamente acordado entre clube e comissão técnica tende a comprimir os prazos de avaliação — e a final do Paulistão de 2025 funcionou, precisamente, como o gatilho que antecipou esse processo.

A política do julgamento retroativo

Um dos aspectos mais reveladores da fala de Piccinato diz respeito à temporalidade do julgamento institucional. Segundo o treinador, mesmo ao longo de 2026, o critério central de avaliação do seu trabalho seguia sendo aquele resultado de 2025: «O ano de 26 não estava sob julgamento. O que estava sob julgamento era a derrota do Paulista do ano passado». Essa lógica expõe uma fragilidade na estrutura de governança esportiva de clubes que ainda carecem de protocolos formalizados de avaliação de desempenho técnico — algo que organizações esportivas europeias, como os departamentos de análise de Manchester City e Lyon Feminino, incorporaram há pelo menos uma década.

A análise do SportNavo sobre o futebol feminino brasileiro aponta que a profissionalização crescente do setor — com aumento de receitas de patrocínio e direitos de transmissão nos últimos três anos — ainda não foi acompanhada por uma evolução equivalente nos critérios de gestão técnica dos clubes. O resultado é um ambiente em que treinadores são expostos a pressões de curto prazo desproporcional à maturidade institucional dos projetos.

O Corinthians Feminino diante de uma encruzilhada estrutural

Com a saída de Piccinato, o Corinthians Feminino terá de responder a uma questão que vai além da escolha do próximo técnico: qual é o modelo de avaliação que o clube pretende adotar para gerir seu projeto de futebol feminino? A pressão por títulos imediatos — legítima num clube da magnitude do Corinthians — precisa ser calibrada com a necessidade de construção de ciclos sustentáveis, especialmente num ambiente competitivo em que o Palmeiras Feminino demonstrou, na final do Paulistão de 2025, um crescimento técnico-tático consistente. O clube paulistano venceu a decisão com margem expressiva e a equipe alvinegra precisa retomar o protagonismo estadual com uma proposta estruturada de médio prazo — não apenas com uma troca de comando.