É um cofre com temporizador.
A imagem resume o que se passa nos bastidores do Fluminense desde a manhã deste sábado, 2 de maio: Luis Zubeldía ocupa a cadeira de técnico com o apoio de um único homem na diretoria — e com uma conta bancária que, paradoxalmente, funciona como seu principal contrato de segurança. A reunião realizada no CT Carlos Castilho não foi o encontro de trabalho rotineiro que o clube costuma realizar. Fontes ouvidas pela reportagem descrevem o tom como explicitamente de cobrança, com membros da diretoria questionando os resultados da temporada e, sobretudo, o desempenho na CONMEBOL Libertadores.
O que aconteceu
O encontro desta manhã reuniu dirigentes e o técnico argentino num ambiente de tensão que, segundo apurou o SportNavo, não era esperado com essa intensidade por parte da comissão técnica. O Fluminense acumula uma campanha considerada muito abaixo do esperado na Libertadores — com a derrota para o Independiente Rivadavia, no Maracanã, sendo o resultado que mais irritou os dirigentes. Num contexto em que o clube projetou avançar pelo menos às quartas de final para equilibrar o orçamento do futebol, cada tropeço na competição continental tem peso financeiro direto.
Mário Bittencourt, hoje diretor geral após deixar a presidência, é o único nome de peso que defende abertamente a continuidade do trabalho. Seu argumento interno é que o Fluminense sofreu com lesões relevantes ao longo da temporada e que, tirando o resultado diante do Rivadavia, os demais tropeços não fugiriam de um prognóstico aceitável. Mas essa posição o isola dentro da cúpula.
Por que isso importa
Maio virou o mês do veredito. Se o Fluminense for eliminado da Libertadores nas próximas semanas, a permanência de Zubeldía torna-se indefensável para a maioria dos dirigentes, mesmo que o time mantenha uma campanha razoável no Brasileirão 2026. A previsão orçamentária do departamento de futebol foi construída com a classificação continental como variável fixa — e sem ela, a equação não fecha.
O detalhe que diferencia essa crise das anteriores é o seguinte: demitir o treinador pode custar mais caro do que mantê-lo.
"Numa análise racional e contemplativa, o Fluminense obteve apenas um resultado fora do planejamento: exatamente a derrota para o Independiente Rivadavia, no Maracanã", argumenta Bittencourt internamente, segundo fontes próximas à diretoria.
Esse argumento, por mais que pareça frágil diante da pressão da torcida e da insatisfação dos demais dirigentes, ancora a posição do diretor geral com uma lógica que não pode ser ignorada: trocar o técnico agora, sem justa causa contratual clara, ativa a multa rescisória — e o valor dela muda completamente o cálculo.
Os números por trás
Zubeldía foi contratado em setembro de 2025, com vínculo até o fim de 2026 e salário de R$ 1,2 milhão mensais. A multa rescisória foi fixada em 3 milhões de dólares — equivalente a aproximadamente R$ 16,1 milhões na cotação da época da assinatura. Se o clube optar por demiti-lo ao final de maio, pagará a multa no lugar de arcar com os 7 meses restantes de contrato, que somam R$ 8,4 milhões. Ou seja: a rescisão antecipada custa quase o dobro da manutenção do vínculo até dezembro.
Conforme o levantamento do SportNavo, esse cálculo é exatamente o que Bittencourt apresenta aos demais membros da diretoria quando a conversa caminha para a demissão. Não é defesa técnica — é aritmética de gestão.
"O Fluminense estaria trocando uma dívida de R$ 8,4 milhões por quase o dobro", resume a lógica do diretor geral, segundo interlocutores que participaram das conversas internas.
O contrato, portanto, foi estruturado de forma que protege o treinador em momentos de crise — um mecanismo comum em acordos com técnicos estrangeiros de perfil mais consolidado, mas que no caso do Fluminense cria uma armadilha financeira num momento de pressão máxima.
O próximo capítulo
A decisão prática já foi tomada para os próximos dias: jogos do Brasileirão servirão como válvula de controle de carga, com a Libertadores recebendo prioridade absoluta de planejamento. Neste domingo, 3 de maio, o Fluminense enfrenta o Internacional em Porto Alegre — às 18h30, pelo Brasileirão —, e o clube fez apenas um treino específico para esse compromisso. A partida que realmente importa para o futuro de Zubeldía é na terça-feira, 6 de maio, quando o Flu recebe o Independiente Rivadavia pela Libertadores, às 21h30, com transmissão no Disney+. Uma eliminação na fase de grupos não seria apenas uma derrota esportiva — seria a ruptura definitiva do argumento financeiro que ainda sustenta o técnico argentino na beira do Maracanã.
No CT Carlos Castilho, depois que os dirigentes foram embora neste sábado, Zubeldía ficou com seus assistentes em volta de uma mesa. O relógio na parede marcava meio-dia.












