O ruído chegou antes do gol. Aos 20 minutos de um jogo que ainda não tinha placar, uma disputa de bola no meio-campo do Maracanã ganhou proporções que nenhum dos 60 mil presentes esperava. O pé levantado, a sola da chuteira, o rosto de Murilo. Jorge Carrascal, meia colombiano do Flamengo, saiu de campo com o cartão vermelho na mão — e o jogo, naquele momento, já estava essencialmente decidido.
O que se seguiu foi uma derrota por 3 a 0 para o Palmeiras, a primeira vitória alviverde sobre o Flamengo no Maracanã desde 2015, quando os paulistas também venceram pelo Brasileirão. Mas o resultado, por mais pesado que seja, dividiu espaço com uma polêmica que transcende o placar: a arbitragem do Brasileirão 2026 tem tratado os clubes com critérios desiguais?
O que a cabine do VAR disse sobre o lance de Carrascal
A CBF divulgou neste domingo, 24, o áudio completo da comunicação entre o árbitro Davi de Oliveira Lacerda e a cabine do VAR, comandada por Caio Max Augusto Vieira. A transcrição é reveladora. Quando Lacerda sinalizou o vermelho ainda em campo — com a frase "essa bola se joga com a cabeça, não com o pé" — o VAR iniciou a análise quadro a quadro. O árbitro assistente de vídeo confirmou: "Toca no rosto, Caio. Ele assume o risco." A resposta do VAR encerrou a discussão técnica: "Davi, segue sua decisão de campo. Apesar de ele atingir a bola, acaba acertando no peito e no rosto do adversário com as travas da chuteira, colocando em risco sua integridade."
A Regra 12 da IFAB, que a CBF invocou para justificar a decisão, distingue três níveis de infração em disputas de bola. O jogo brusco grave — que implica expulsão direta — ocorre quando há uso de força excessiva ou quando a integridade física do adversário é colocada em risco. No entendimento unânime da arbitragem de campo e do VAR, o lance de Carrascal ultrapassou esse limiar. A analista de arbitragem da ESPN, Renata Ruel, corroborou a interpretação: para ela, atingir o rosto de um adversário com as travas da chuteira caracteriza jogo brusco grave independentemente de o jogador ter tocado na bola antes.

Tecnicamente, o vermelho foi correto. Mas o debate que Leonardo Jardim trouxe à tona na coletiva vai além da Regra 12.
Jardim e o argumento que o Brasileirão não quer ouvir
O técnico português não contestou apenas o lance de Carrascal. Ele construiu um argumento comparativo que, mesmo carregado de emoção pós-derrota, contém elementos verificáveis. Jardim citou um Internacional x Palmeiras da temporada passada em que um pé alto semelhante, segundo ele, não resultou em expulsão. Lembrou também que Jorginho levou uma falta violenta aos 30 segundos do mesmo jogo sem que o árbitro intervisse com cartão. E foi além:
"Acho que é muito fácil dar cartões vermelhos ao Flamengo. Um jogo em que o árbitro optou por um nível de agressividade alto, o Jorginho levou uma porrada aos 30 segundos, e o árbitro não disse nada, mandou jogar", afirmou Jardim após a partida.
A frase ecoa um sentimento que não é exclusivo do técnico rubro-negro. Ao longo do Brasileirão 2026, a percepção de que a arbitragem aplica critérios distintos conforme o clube envolvido tornou-se um tema recorrente nas coletivas. Jardim foi direto ao citar o Gómez, zagueiro do Palmeiras, que em jogo do ano passado contra o Cruzeiro — quando o português ainda comandava o time mineiro — recebeu apenas amarelo por uma entrada que, na avaliação do treinador, era de vermelho. A comparação pode ser contestada lance a lance, mas o padrão de queixas acumuladas ao longo da temporada merece atenção.
Na avaliação do SportNavo, o problema não é a decisão isolada de Lacerda — tecnicamente sustentada pelo áudio do VAR. O problema é que o acúmulo de situações similares tratadas de forma diferente, sem transparência sistêmica da CBF, alimenta uma desconfiança que corrói a credibilidade do campeonato.
Os bastidores que a súmula revelou e o que muda na tabela
A partida deixou rastros que vão muito além do placar. Em súmula enviada à CBF, o árbitro Davi de Oliveira Lacerda relatou três ocorrências graves: objetos arremessados em campo após o terceiro gol do Palmeiras, risco de tumulto generalizado com invasão de staff e seguranças no gramado, e — o mais grave — uma ameaça direta recebida no intervalo. Segundo o árbitro, Fernando Munhoz, massagista do departamento profissional do Flamengo, o abordou na zona mista com as palavras: "Você acha que está certo, hoje você não sai daqui vivo." O caso deve ter desdobramentos no Superior Tribunal de Justiça Desportiva.
No campo esportivo, a derrota tem peso aritmético imediato. O Palmeiras abriu vantagem na briga pelo título, e o Flamengo, que entrou na partida com chances reais de assumir a liderança, viu o cenário se inverter em menos de meia hora de jogo. Carrascal, que acumula três expulsões nesta temporada, deve ser suspenso pelo STJD e desfalcará o time nas próximas rodadas. Antes da parada para a Copa do Mundo 2026, os rubro-negros ainda enfrentam o Coritiba no dia 30 de maio, às 16h, e têm pela frente a Libertadores contra o Cusco na terça-feira, 26, às 21h30 — dois compromissos que exigirão recomposição emocional rápida de um elenco que, sem seus convocados para o Mundial, jogará desfalcado nas semanas seguintes.
"O futebol brasileiro ainda não aprendeu a separar a polêmica do lance da polêmica do sistema. Quando o árbitro erra, é o árbitro. Quando o sistema erra, é o campeonato inteiro", disse um ex-árbitro internacional consultado pela reportagem.
O ruído chegou antes do gol — e, desta vez, não foi embora com o apito final.








