Confesso: eu errei sobre a França em 2022. Achei que o favoritismo deles era inflado pela mídia europeia, que o peso de ser campeão em exercício pesaria demais no vestiário de Deschamps. Hoje, revisitando aquela Copa com olhos de 2026, entendo exatamente o que Ronaldo enxergou antes de todo mundo.

A aposta do Fenômeno e o que ela revela sobre o futebol de seleções

Quando Ronaldo entrou em estúdio durante a Copa do Mundo de 2022 no Catar, ele não estava apenas exercendo o papel de embaixador ou comentarista de luxo. O Fenômeno — dois títulos mundiais, 1994 e 2002, e o olhar de quem disputou três Copas — revelou que, desde o início do torneio, enxergava apenas dois candidatos reais ao troféu: o Brasil de Tite e a França de Didier Deschamps.

"Para mim é a grande favorita. Eu contava com isso desde antes do começo, com o Brasil chegando junto da França. Mas agora acho que o caminho está bem aberto para os franceses. A cada jogo vem confirmando esse favoritismo", declarou Ronaldo.

A declaração não era chute. Era leitura de dados. A França chegou à semifinal daquela Copa com Kylian Mbappé como artilheiro isolado, Olivier Giroud quebrando o recorde de gols da seleção francesa e uma defesa que havia sofrido apenas dois gols em cinco jogos até aquele momento. O caminho, de fato, estava aberto.

Quando o Brasil caiu diante da Croácia nas quartas de final, após a derrota nos pênaltis, a prognose de Ronaldo ganhou ainda mais peso. Restou à França o papel de única potência tradicional ainda viva na chave decisiva — ao lado de Argentina, Croácia e Marrocos.

A modéstia de Deschamps e o contraste com quem vê de fora

Enquanto Ronaldo apontava o caminho aberto, Didier Deschamps adotava o discurso oposto. O técnico francês, campeão em 2018 com a mesma geração, recusava sistematicamente o rótulo de favorito em entrevistas coletivas. Para Deschamps, cada jogo era uma batalha isolada, e o histórico não garantia nada.

Esse contraste não é apenas retórico. Existe uma lógica tática por trás da modéstia do treinador: seleções que assumem o favoritismo publicamente tendem a sofrer pressão adicional, especialmente em torneios eliminatórios onde um único erro encerra tudo. Deschamps conhecia bem esse peso — a França havia sido eliminada na fase de grupos da Euro 2021 como grande favorita, derrota que ainda doía nos bastidores da Federação Francesa de Futebol.

Ronaldo, por outro lado, falava de fora do vestiário. E quem está de fora enxerga o que os números mostram sem o filtro emocional da pressão competitiva. A França havia vencido cinco das últimas seis eliminatórias diretas em Copas do Mundo, com aproveitamento superior a 70% nos jogos de mata-mata desde 2014.

O favoritismo francês e o que a história das Copas ensina

Quando faz uma Copa com elenco de valor de mercado superior a 1,2 bilhão de euros, a França não apenas participa — ela condiciona o torneio. Quando faz uma semifinal com Mbappé, Griezmann e Giroud em campo ao mesmo tempo, ela exibe uma profundidade ofensiva que nenhuma outra seleção do planeta conseguia replicar naquele momento.

No futebol de seleções, como diz o ditado, quem não tem cão caça com gato — mas a França tinha o cão, o gato e o caçador. Mbappé, então com 23 anos, terminaria aquela Copa como artilheiro com oito gols, incluindo um hat-trick na final contra a Argentina. A derrota nos pênaltis para os argentinos não apagou a análise de Ronaldo — confirmou, na verdade, que ele havia identificado as duas únicas seleções capazes de decidir o torneio.

A França, campeã em 2018, buscava repetir o feito de Brasil (1958 e 1962) e Itália (1934 e 1938) como seleções bicampeãs consecutivas. Nenhuma seleção europeia havia conseguido esse feito. A pressão histórica era real, e Deschamps sabia disso melhor do que qualquer comentarista.

O que Ronaldo identificou, com a precisão de quem disputou três Copas e conhece o peso de cada fase, foi que o elenco francês tinha qualidade técnica suficiente para superar qualquer adversário restante. Marrocos, adversário da França na semifinal, havia feito história ao eliminar Portugal e Espanha — mas enfrentaria uma seleção com dois anos de trabalho consolidado sob Deschamps e uma linha defensiva experiente com Varane e Upamecano.

A análise do Fenômeno não era torcida. Era critério. E o critério, naquele torneio, apontava para Paris — mesmo que Paris preferisse não admitir.

A Copa do Mundo de 2026, disputada entre Estados Unidos, México e Canadá, trouxe de volta o debate sobre favoritismos antecipados. A França de Mbappé, agora com 27 anos e capitão consolidado, voltou ao radar das análises pré-torneio com valor de elenco superior a 1,5 bilhão de euros. O Brasil de Ancelotti, por sua vez, busca o hexacampeonato. Se Ronaldo precisar fazer uma nova aposta, o histórico sugere que ele não vai muito longe da mesma dupla que escolheu quatro anos atrás.