50% — metade de uma lista que levou quase noventa anos para acumular quatro nomes. Esse é o peso estatístico que a Copa do Mundo carrega sobre a Tunísia: dos quatro técnicos demitidos com o torneio em andamento na história do futebol, dois comandavam os Águias de Cartago. O mais recente foi Sabri Lamouchi, desligado na segunda-feira, horas depois de sua seleção ser goleada por 5 a 1 pela Suécia na abertura do Grupo F, em Monterrey, no México.
O francês de 54 anos havia sido contratado em janeiro de 2026 pela Federação Tunisiana de Futebol (FTF), com contrato de dois anos e meio. Seu currículo na seleção durou exatos cinco jogos: uma vitória sobre o Haiti (1 a 0), um empate sem gols com o Canadá, e derrotas para Áustria (1 a 0), Bélgica (5 a 0) e Suécia (5 a 1). Ao todo, 11 gols sofridos e apenas dois marcados — uma proporção que, por si só, justificaria qualquer deliberação interna. A reunião de emergência convocada pela FTF logo após o jogo em Monterrey confirmou o que a lógica já antecipava.
O número que define um padrão — e o que ele revela sobre governança esportiva
Até 1998, nenhum treinador havia sido demitido com uma Copa do Mundo em curso. O torneio na França quebrou esse tabu três vezes seguidas, numa sequência que ainda hoje parece improvável. O brasileiro Carlos Alberto Parreira, campeão mundial com o Brasil em 1994, caiu do comando da Arábia Saudita após derrotas para Dinamarca (1 a 0) e França (4 a 0). O sul-coreano Cha Bum-kun deixou a Coreia do Sul no mesmo torneio. E o polonês Henryk Kasperczak foi dispensado pela Tunísia — tornando 1998 o único ano em que três demissões aconteceram durante um único Mundial.
- Carlos Alberto Parreira — Arábia Saudita, Copa 1998
- Cha Bum-kun — Coreia do Sul, Copa 1998
- Henryk Kasperczak — Tunísia, Copa 1998
- Sabri Lamouchi — Tunísia, Copa 2026
Que a Tunísia apareça duas vezes nessa lista não é coincidência estatística neutra. Trata-se de um sintoma de instabilidade estrutural na gestão esportiva do país norte-africano — um padrão de decisões reativas tomadas sob pressão pública, sem plano de continuidade. Segundo o jornalista francês Romain Molina, que primeiro reportou a demissão de Lamouchi, a confirmação veio rapidamente de múltiplas fontes, o que indica que o desligamento foi decidido com velocidade incomum, mesmo para os padrões do futebol de seleções.

A goleada que selou o destino e o episódio paralelo nas arquibancadas
O resultado de 5 a 1 foi devastador, mas o contexto ao redor do jogo adicionou camadas de constrangimento institucional. Segundo a imprensa tunisiana, ao fim da partida, o filho de Sabri Lamouchi se envolveu em uma briga com um torcedor da própria seleção, que teria sido agredido por seguranças. O filho do treinador não ocupa nenhum cargo oficial na FTF ou na seleção — o que torna o episódio ainda mais delicado do ponto de vista da imagem.
Esse tipo de incidente periférico, quando sobreposto a uma derrota de magnitude histórica, cria o que sociólogos do esporte chamam de crise de legitimidade composta: o técnico perde autoridade não apenas pelo resultado em campo, mas pela incapacidade de controlar o ambiente imediato ao redor da delegação. Para uma federação que já havia dispensado Kasperczak nas mesmas circunstâncias 28 anos antes, o gatilho para a demissão estava armado desde o apito final.
A herança que Mondher Kebaier recebe
A expectativa, confirmada em matéria do SportNavo com base em fontes da imprensa tunisiana e europeia, é que Mondher Kebaier — atual diretor técnico da FTF e ex-treinador da própria seleção — assuma o cargo de forma interina pelo restante do torneio. Kebaier já conhece o grupo e o ambiente da federação, o que reduz o risco de uma transição traumática. Mas a missão é árdua: a Tunísia enfrenta o Japão no próximo domingo, dia 21, à 1h (horário de Brasília), novamente em Monterrey, e fecha a primeira fase contra a Holanda no dia 25, às 20h, em Kansas City.
O que a lista de quatro nomes projeta para o futuro do torneio
A Copa do Mundo de 2026, com seu formato expandido de 48 seleções e 104 jogos, cria condições estruturais para que esse tipo de episódio se multiplique. Mais times com menor histórico competitivo, mais federações com menor capacidade de absorver derrotas pesadas, mais pressão sobre treinadores que chegam ao torneio sem consolidação prévia. Lamouchi somou cinco jogos no cargo antes de ser demitido — um período insuficiente para implementar qualquer sistema tático consistente.
O paralelo econômico também merece atenção: a Tunísia não figura entre as federações com maior receita do continente africano, o que limita a capacidade de atrair e reter técnicos de alto nível por períodos longos. A contratação de Lamouchi em janeiro de 2026 — a menos de seis meses do início do Mundial — já sinalizava uma gestão de curto prazo, sem projeto de médio prazo enraizado. O resultado foi um contrato de dois anos e meio rescindido em menos de cinco meses.
A Tunísia volta a campo no dia 21, com Kebaier no banco, precisando vencer o Japão para manter qualquer esperança de classificação às oitavas de final. É o mesmo cenário que a seleção tunisiana viveu em 1998, sob interino, com a Copa já parcialmente perdida — só que agora a aposta é que a memória institucional daquele fracasso sirva de âncora, não de repetição.








