Quantos jogadores conseguem mudar de posição no auge da formação e, em vez de perder identidade, descobrir exatamente onde deveriam sempre ter estado?

Piquerez — Joaquín Piquerez Moreira para os documentos, camisa 22 para quem acompanha o Palmeiras — é um desses casos raros. Há menos de uma década, ele disputava espaço no meio-campo das categorias de base do Defensor, em Montevidéu. Hoje, aos 28 anos, é um dos laterais-esquerdos mais respeitados do Brasileirão Série A, com um currículo que inclui Copa Libertadores e múltiplos títulos nacionais. A pergunta sobre o que o fez chegar até aqui não se responde em uma linha — ela se responde em uma trajetória.

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O caminho começou no Defensor, clube montevideano que revelou o jovem Piquerez como meio-campista. Profissional desde 2017, ele chegou a conquistar o Campeonato Uruguaio Apertura daquele mesmo ano — um título precoce que, paradoxalmente, não garantiu sequência no clube. Em 2019, transferiu-se para o River Plate de Montevidéu, onde a passagem foi breve. Foi no Peñarol, a partir de 2020, que sua carreira sofreu a inflexão decisiva: o técnico da época o recuou para a lateral esquerda, e a posição que poderia parecer um rebaixamento tático revelou-se, na prática, a chave que abriu todas as portas seguintes. Suas exibições pelo clube aurinegro chamaram a atenção do Palmeiras, que o contratou em meados de 2021.

Se ele for transferido neste mercado

A janela de transferências europeia sempre paira sobre os melhores laterais do futebol sul-americano como uma sombra de oportunidade — e Piquerez não é exceção. Com 28 anos, idade em que um lateral atinge sua maturidade plena sem ainda ter perdido velocidade, o perfil físico (180 cm, 74 kg) e o repertório técnico construído ao longo de cinco temporadas no Palmeiras o colocam em um patamar de interesse real. Uma eventual saída significaria perder não apenas um jogador, mas um dos pilares da identidade defensiva alviverde desde 2021. Para o próprio atleta, seria a chance de testar o nível europeu antes que a janela etária se estreite. Os números desta temporada — 30 jogos, 3 gols e 1 assistência — reforçam que ele entrou em 2026 em forma ascendente, o que inevitavelmente eleva seu valor de mercado.

Se permanecer no clube atual

A permanência no Palmeiras tem uma lógica difícil de ignorar. Desde que chegou ao Allianz Parque, Piquerez acumulou conquistas que definem gerações: a Copa Libertadores da América de 2021, a Recopa Sul-Americana de 2022, os Campeonatos Brasileiros de 2022 e 2023, a Supercopa do Brasil de 2023 e, mais recentemente, os Campeonatos Paulistas de 2022, 2023, 2024 e 2026 — quatro estaduais em quatro anos, uma consistência que não se constrói por acidente. Permanecer significa consolidar uma obra que já tem contornos históricos dentro do clube. Significa também seguir sendo o pulmão esquerdo da equipe, aquele que sobe, pressiona, cobre e ainda aparece no gol quando a defesa adversária menos espera — como os três tentos marcados nesta temporada comprovam.

Se mudar de função tática

O futebol contemporâneo tem transformado laterais em peças multifuncionais, e Piquerez já demonstrou ao longo da carreira uma capacidade de adaptação fora do comum — afinal, foi exatamente essa flexibilidade que o levou do meio-campo à lateral, e da lateral à ribalta. Uma mudança de função tática, seja recuando para zagueiro em uma linha de três ou avançando para um papel de ala em um sistema mais ofensivo, não seria um choque para um jogador formado na versatilidade. A questão é se o Palmeiras teria necessidade ou interesse em promover essa alteração. Com o elenco atual e o estilo de jogo consolidado, a tendência é que Piquerez continue sendo utilizado na função em que mais rendeu. Mas o histórico dele sugere que, se o cenário exigir, a transição não seria traumática.

O cenário mais provável dos três

A leitura mais realista, considerando o momento do jogador e o contexto do clube, aponta para a permanência. Piquerez está em plena maturidade competitiva — a temporada 2026 do Campeonato Paulista já rendeu mais um título, e o Brasileirão segue em curso com o lateral entre os mais utilizados pelo técnico. Sair agora significaria abrir mão de uma posição de liderança conquistada com anos de trabalho. A seleção uruguaia também é um fator: convocado pela primeira vez por Óscar Tabárez em maio de 2021, Piquerez construiu sua reputação internacional com a camisa do Palmeiras como vitrine. Manter-se em alto nível no Brasil é, paradoxalmente, uma das melhores formas de seguir relevante para a Celeste Olímpica.

Há algo de simbólico na trajetória de um jogador que precisou trocar de posição para se encontrar. O Piquerez de 2017, meio-campista do Defensor campeão do Apertura, e o Piquerez de 2026, lateral-esquerdo com Copa Libertadores no currículo e 30 jogos na temporada em curso, são o mesmo homem — mas não são o mesmo jogador. Entre esses dois pontos, existe uma história de reinvenção que, no futebol, é mais rara do que os gols e as assistências fazem parecer. Em matéria do SportNavo, o que se pode dizer com segurança é que a próxima rodada do Brasileirão vale ser acompanhada com atenção especial à faixa esquerda do Palmeiras. É lá que Piquerez ainda tem histórias para contar.